Pense em Michelle sem pensar em cheques

Em Notas de Inverno sobre Impressões de Verão, o autor, Fiódor Dostoiévski, propõe o seguinte exercício: "Não pense em ursos."

Tente, caro leitor, cumprir a sugestão do escritor russo e, acredite, vai pensar incessantemente nas versões polar, parda, panda, americana, malaia e de peluche do bicho - psicólogos chamaram-lhe "efeito ricochete".

O problema psicológico tornou-se, entretanto, questão legal ao chegar ao Supremo Tribunal Federal brasileiro (STF) na última quarta-feira (30): familiares de Aida Curi, jovem de 18 anos violada e assassinada em 1958 no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, pedem uma indemnização à TV Globo por expor o caso em programa criminal de 2004, alegando "direito ao esquecimento".

Diz a ação que "mais de 50 anos depois, com suas vidas em novo rumo e com a dor apaziguada pelos efeitos curativos de tão longo tempo, a recorrida [TV Globo] veiculou em rede nacional um programa televisivo explorando não só a história de sua finada irmã como utilizando a imagem real dela e dos recorrentes [familiares de Aida]".

Não se põe aqui em causa a justeza da ação, claro, isso é tarefa para o STF, mas a sua eficácia. Muito provavelmente, até há instantes o caro leitor jamais teria ouvido falar na tragédia de Aida Curi, agora já ouviu.

Em 2005, no ano seguinte à exibição do caso na TV Globo, nasceu nos EUA a expressão "Streisand effect" a propósito de ação em tribunal movida por Barbra Streisand contra o fotógrafo Kenneth Adelman, por este ter tirado uma fotografia aérea da mansão da atriz, realizadora e cantora em Malibu.

Antes da ação, a foto em causa fora partilhada seis vezes, duas das quais por advogados de Streisand; depois da ação, chegou aos computadores de 420 mil norte-americanos; antes, ninguém sabia onde a vencedora do Óscar de 1968 vivia; depois, não havia cão, nem gato, nem urso-pardo que não conhecesse cada pormenor da piscina dela.

Vem tudo isto a propósito de outra diligência pública, desta vez interposta por Michelle Bolsonaro, a primeira-dama do Brasil.

Ela foi ao Departamento Estadual de Investigações Criminais da Polícia Civil de São Paulo, no último dia 24, ratificar uma queixa-crime em razão de "ofensas e piadas infames em redes sociais" contra si.

Pensou-se que se referia a um rumor sobre um caso extraconjugal com um ex-ministro do marido, entretanto desmentido. Mas, segundo a revista Veja, o principal alvo da queixa-crime é a banda Detonautas Roque clube, que lançou a música Micheque.

Michelle é chamada por essa "infame" alcunha nas redes sociais por, em dezembro de 2018, um relatório oficial ter descoberto um cheque na sua conta em nome de Fabrício Queiroz, o operacional do esquema milionário de corrupção liderado, segundo o Ministério Público, pelo senador Flávio Bolsonaro; Jair Bolsonaro, pai do chefe da organização criminosa, justificou a transação com o pagamento de parte de uma dívida de Queiroz para consigo.

Mas já em agosto deste ano, uma quebra do sigilo bancário de Queiroz revelou que não foi um mas 21 cheques depositados pelo operacional e pela sua mulher, também implicada no caso, na conta de Michelle; para essas 21 transações, embora perguntado, o presidente da República ainda não encontrou justificação a não ser ofender os perguntadores.

"Hey, Michelle, conta aqui para nós/ A grana que entrou na sua conta é do Queiroz?/ Hey, capitão, como isso aconteceu?/ Levante a mão pro alto e agradeça muito a Deus", cantam os Detonautas.

Mais uma vez, provavelmente, o caro leitor não conhecia a letra da música - graças a Michelle já pode trotear a Micheque.

O "efeito ricochete" é tão terrível que até os advogados da primeira-dama, na continuação da argumentação sobre "ofensas e piadas infames em redes sociais", sublinham que elas teriam posto "em xeque" - as palavras homófonas são muito traiçoeiras - "a sua integridade".

Lida a argumentação, faça o seguinte exercício: pense em Michelle Bolsonaro a partir de agora sem pensar em cheques.

Correspondente em São Paulo

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