O ratinho saiu do buraco

"Este é o maior golpe da história, e refiro-me ao mundo, não apenas à nossa nação: a única forma de os democratas nos roubarem a presidência dos Estados Unidos é se a eleição estiver manipulada, mas vamos ganhar", advertiu Donald Trump, na Convenção Republicana, a propósito dos votos por correio.

A tática é primária. Tão primária que é usada há décadas num dos mais primários ambientes do mundo: o futebol português. Um dos clubes que costumam ganhar diz que o rival domina o sistema; o outro clube que costuma ganhar afirma que quem domina mesmo o sistema é o rival; e o clube que sistematicamente não ganha acusa os dois rivais de o dominarem.

Caso percam, os clubes portugueses, como Trump, já têm uma desculpa. Caso ganhem, festejam como se nada fosse.

Primário por natureza e imitador de Trump por convicção, Jair Bolsonaro usa o mesmo expediente: disse antes da presidencial de 2018 que as urnas eletrónicas, sistema de contagem de votos brasileiro internacionalmente elogiado pela fiabilidade e velocidade, é fraudulento, baseando-se numas teorias conspiratórias capazes de corar um símio, de tão rasas.

Ganho o pleito, não pediu recontagem. Assim como não pediu recontagem nas dezenas de eleições para senador, deputado federal, deputado estadual ou vereador que ele e a famiglia ganharam sob o método do voto eletrónico.

Que ninguém se iluda: Trump, os clubes portugueses e Bolsonaro não desconfiam do sistema: acreditam piamente nele, caso contrário não investiriam milhões para ganhar. Só se previnem para a eventualidade de uma derrota mantendo as tropas unidas em torno da suspeição.

Entretanto, foi preso Fabrício Queiroz, o operacional do esquema de desvio dos salários dos assessores que alimentou o clã por décadas, na casa do advogado presidencial. Era junho. Bolsonaro escondeu-se imediatamente como um ratinho aflito.

Nas semanas seguintes, descobriu-se que esse dinheiro público repetidamente desviado serviu para membros da famiglia adquirirem um património imobiliário de respeito, pago, nalguns casos, em dinheiro vivo. Como um tatu-bola, animal tão brasileiro, o presidente assustado enrolou-se, mais um bocadinho, sobre si mesmo.

Seguiu-se a revelação de que Michelle Bolsonaro recebeu 25 cheques de Queiroz e da sua mulher, Márcia Aguiar. Bolsonaro, que já havia dado uma desculpa esfarrapada, ainda em 2018, quando se soube da existência de uma transferência entre operador e primeira-dama, por não conseguir agora dar 25 desculpas esfarrapadas, qual cágado, enfiou ainda mais a cabeça debaixo da carapaça.

Durante dois meses, em resumo, o presidente só saiu da toca para elogiar os outros poderes da nação, que antes ameaçava fechar em manifestações, e oferecer cargos na máquina estatal a deputados oportunistas, para se salvaguardar de um eventual impeachment na Câmara.

Não ofendeu repórteres, nem rivais, nem mulheres, nem índios, nem mortos com covid-19. Nada.

É neste momento que entra outra face do sistema em que Bolsonaro, tal como em relação à urna eletrónica, diz não acreditar: as sondagens, ou "pesquisas", no Brasil.

Sucede que o presidente, mais uma vez, acredita nelas piamente - só diz não acreditar para se prevenir no caso de elas o desagradarem.

Como o Datafolha e outros institutos indicaram uma subida na aprovação do Governo no último mês, em razão do auxílio emergencial de 600 reais distribuído aos mais pobres durante a pandemia, o mesmo Bolsonaro que disse um dia "não acredito em sondagens, as minhas sondagens são as minhas andanças pelo Brasil", passou a afirmar agora "a imprensa pode continuar a bater, quanto mais bate, mais eu cresço nas pesquisas".

E com o peito renovado de ar, voltou ao registo de antes: "A minha vontade é encher a tua boca de porrada", ameaçou, ao ser perguntado por um repórter sobre os inexplicáveis depósitos de Queiroz na conta de Michelle.

Na sequência, ainda chamou os jornalistas de "bundões" - cobardes, medrosos no calão brasileiro.

Foram as sondagens que permitiram que o cágado pusesse outra vez a cabeça fora da carapaça. Que o tatu-bola se desenrolasse. Que o ratinho saísse do buraco.

Até se esconder outra vez.

Correspondente em São Paulo

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