O Brasil foragido do seu próprio futuro

A semana no Brasil foi marcada pela prisão de Fabrício Queiroz, o operacional da família Bolsonaro acusado de desviar salários de assessores fantasma do hoje senador Flávio Bolsonaro diretamente para o bolso do primogénito do presidente, uma prática criminosa chamada de "rachadinha".

A "rachadinha", suspeita-se, é um negócio antigo da família, uma vez que, enquanto deputado, Jair Bolsonaro mantinha como sua assessora em Brasília uma vendedora de açaí da turística Angra dos Reis que jamais pisou a capital federal brasileira.

Mas quase 58 milhões de brasileiros votaram no capitão do exército para acabar com a corrupção. Enfim.

Voltemos a Queiroz. Os brasileiros criaram uma expressão certeira para quando um marido é apanhado em flagrante pela mulher: "batom na cueca". Ora, o operacional dos Bolsonaro foi detido na casa, nada mais, nada menos, do advogado da família presidencial. Mais "batom na cueca" impossível.

Tanto que agora é Jair Bolsonaro quem anda escondido: de tão constrangido por ter sido apanhado com a "boca na botija", usando o equivalente português do "batom na cueca", nunca mais voltou a repetir aquela penosa cena, antes diária, de conversar com os apoiantes presos numa gaiolinha à saída do Palácio do Alvorada.

Mas, entretanto, a notícia passou a ser a mulher de Queiroz, uma das assessoras fantasma que segundo os investigadores desviava o dinheiro público que recebia para o bolso de Flávio. Na operação policial que deteve o marido, ela, a cabeleireira Márcia Aguiar, era alvo também. Desaparecida, é considerada foragida da justiça.

Por falar em foragidos, outro nome incontornável da semana é Abraham Weintraub. Aquele que um dia foi definido como "pior ministro da educação da história do Brasil" - ou o "mais imprecionante de todos", em "weintraubês" - caiu do governo.

Foi no dia 18. Perdão, 19. Aliás, 20. Ou melhor, 22, assim é que é.

O anúncio da demissão foi a 18 mas só a 20 a decisão foi publicada no Diário Oficial (o Diário da República no Brasil). Porém, no dia 23, o governo retificou e disse que ocorreu a 19, embora o documento só tenha dado entrada a 22.

Explicando: como cidadão comum, Weintraub não poderia aterrar já nos EUA, onde irá "trabalhar" no Banco Mundial, uma vez que está proibida a entrada de brasileiros no país para conter a pandemia; como funcionário governamental, no entanto, estaria habilitado a fazê-lo; a ânsia do ex-ministro de viajar a correr para o estrangeiro resulta de estar sob investigação do Supremo Tribunal Federal por ter chamado os seus integrantes de "vagabundos"; as trapalhadas do Diário Oficial em relação à data da demissão, portanto, foram artimanha para o fazer fugir enquanto podia; a Procuradoria-Geral da República já está a investigar a trapaça governamental.

Primeira conclusão: Weintraub, não sendo um foragido oficial como a mulher do testa de ferro da família Bolsonaro, é, no mínimo, um foragido moral.

Segunda conclusão: na Era Bolsonaro até o Diário Oficial faz fake news (já havia tentado na demissão de Sergio Moro).

Porque sob Bolsonaro vale tudo para salvar os parentes e amigos.

"Vale tudo", a propósito, não é apenas uma modalidade de luta livre criada no Brasil. Foi também o título de uma telenovela de sucesso.

Na cena final, que ficou na história da teledramaturgia brasileira, o mau da fita fazia um manguito (banana, no Brasil) ao país enquanto fugia impune para o estrangeiro no seu jato particular. E ria - tal como Weintraub vem rindo nos postais que manda de Miami pelas redes sociais.

Essa telenovela é de 1988. De então para cá, o Brasil experimentou muitos progressos - odeie-se ou não, os governos do PT deram oportunidade de consumo e de estudo a 40 milhões de brasileiros; odeie-se ou não, a Lava Jato derrotou a sensação de eterna impunidade do país.

O Brasil de Bolsonaro, de Queiroz e de Weintraub é um retrocesso. Com eles, o Brasil é um país foragido do seu próprio futuro.

Correspondente em São Paulo

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