Bolsonaro não é um eucalipto

Há quem culpe o presidente da República Jair Bolsonaro pela irrelevância política de Sergio Moro.

A teoria é que, como os eucaliptos, o presidente da República, pela sua personalidade extravagante, secaria o solo em redor e impediria os outros, entre os quais o seu ministro da justiça, de brilharem, de florescerem.

Mas não colhe: Moro não brilha nem floresce porque talvez seja, de facto, um político irrelevante, que não se importa de ver a sua ação reduzida ao papel de mero advogado do clã Bolsonaro de forma a um dia, como prémio, ser nomeado juiz do Supremo Tribunal Federal.

Até porque Bolsonaro não é, de todo, um eucalipto que seca o solo em redor. Pelo contrário: nos seus 11 meses de "gestão" tem conseguido, como ninguém, transformar catos em rosas.

Um exemplo: Rodrigo Maia. O presidente da Câmara dos Deputados era visto antes da ascensão do bolsonarismo como mais um parlamentar citado na Lava Jato monótono e entediante. E até algo juvenil por ser filho de um político e por causa da aparência de aluno gorducho e amuado.

Com Bolsonaro ao lado, Maia revelou-se o primeiro-ministro, de facto. Foi ele quem fez o Congresso aprovar a reforma da previdência - dada a incapacidade do presidente e do seu governo de a levar por diante - e, mesmo mantendo a tal aparência juvenil, tem sido uma voz adulta no meio das maluquices do Planalto.

O anti-eucalipto Bolsonaro tornou-o presidenciável em 2022.

Outro exemplo? João Doria. Oportunista, o governador do estado de São Paulo apelou ao voto "BolsoDoria" - Bolsonaro para presidente e ele para governador - nas últimas eleições, gritando "morte aos bandidos" e outros dislates perigosos em coro com o bolsonarismo.

No entanto, ao aperceber-se das excentricidades do presidente, aproveitou para se ir afastando, como quando criticou o ataque presidencial à memória de uma vítima da ditadura, mostrando que, sendo um político assumido de direita, está dentro do perímetro da normalidade.

O anti-eucalipto Bolsonaro catapultou-o a principal aposta do mercado financeiro nas eleições.

Mais um exemplo? Michel Temer. Os detratores do ex-presidente que o atormentaram por dois anos com o slogan "fora Temer" corrigiram para "fica Temer", logo após a eleição de Bolsonaro.

E, na verdade, apesar de ter chegado ao Planalto sem a legitimidade do voto e de ser o representante do que de mais bolorento Brasília produziu, Temer jamais partilhou vídeos de práticas sexuais, demitiu ministros com base em pressões da prole, promoveu boicotes a jornais ou atacou a primeira-dama de outros países, por exemplo.

O anti-eucalipto Bolsonaro fê-lo ficar na história como um presidente, pelo menos, com sentido de estado.

Ainda mais um exemplo? Lula da Silva. Preso por corrupção - justa ou injustamente não vem ao caso - depois de desgastantes 13 anos do seu partido no poder, o antigo presidente poderia ser visto hoje aos olhos do mundo como um abusador da confiança do povo.

Mas ao convidar o seu julgador, Moro, para o governo, o presidente despertou esse mundo definitivamente para a narrativa da conspiração.

E ao preferir taxar desempregados a milionários, ao deixar o dólar subir ao triplo do preço da Era Lula e a carne de vaca ao valor de joia rara, dá munições diárias ao rival.

O anti-eucalipto Bolsonaro serviu de trampolim para que o político mais popular do país voltasse como aura de salvador.

Último exemplo? Alexandre Frota. Sendo ex-ator porno, ex-toxicodependente e ex-participante profissional de reality shows, o atual deputado tinha o currículo justo para ser um bolsonarista convicto. E foi.

Mas, a dada altura, até ele achou pornográfica demais a intromissão dos filhos 01, 02 e 03 no governo e excessivamente viciadas as relações dentro de um grupo parlamentar que mais parecia uma deprimente reunião de sub-celebridades.

Saiu (para o partido de Doria) e passou a denunciar a fábrica de fake news que alimenta o bolsonarismo, o escândalo de corrupção em redor do primogénito do presidente e a falência da cultura e da educação sob o atual regime.

De tão anti-eucalipto, Bolsonaro conseguiu até o prodígio de fazer Frota interpretar o papel de homem sensato.

Em São Paulo

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