Uma Europa com vontade de poder

Ursula von Der Leyen aproveitou o discurso sobre o estado da União, a semana passada no Parlamento Europeu, para fazer, também, um discurso sobre o lugar da União Europeia (UE) no mundo. A intersecção entre política internacional, economia e poder é definidora da sua visão de uma Europa geopolítica.

Só há três pessoas na Europa que podiam ter feito um discurso tão longo (79 minutos) e com uma amplitude tão grande (da China ao Hidrogénio, das zonas livres LGBT na Polónia à permanência da aliança transatlântica independentemente da liderança americana): a chanceler alemã, que comanda a maior economia; o presidente francês, que lidera a única potência militar nuclear da UE; e a presidente da Comissão Europeia. Para os restantes 25 países, ser a presidente da Comissão, a representante de todos, em vez de Macron ou Merkel, é o que lhes permite ter um lugar no mundo que de outro modo não teriam. Essa, de resto, é uma das melhores maneiras de perceber a utilidade da Europa: além da paz e da prosperidade, dá-nos escala. Pelo contrário, onde a Europa não traz valor acrescentado, não é útil e, portanto, não é necessária. Esse, independentemente da bondade das intenções, deve ser o seu limite. É o caso da proposta sobre o racismo. Uma vontade de agradar onde a UE não tem muito a acrescentar.

A presidente da Comissão teve um discurso razoavelmente claro e corajoso quanto à Rússia (e ao gasoduto partilhado com os alemães), à China (mencionando Hong-Kong e os Uighurs) e à Turquia, pragmático com os Estados Unidos, e de um cinismo fino com o Reino Unido, invocando Thatcher para atacar Boris Johnson.

Na política interna europeia, aumentando os objectivos de redução de emissões de CO2 (o que tem a vantagem de criar élan e a desvantagem de ser mais fácil medir o insucesso), manteve o essencial: a economia verde é tanto uma estratégia ambiental como económica. Já a transformação digital é uma ideia de concretização mais difícil. A Europa continua a acreditar que regulando o usos dos dados ou a Inteligência Artificial, por um lado, e investindo em infraestruturas, por outro, dará um salto em frente. O risco, óbvio, é o de criar grandes europeus, à custa dos nossos pequenos e médios, mas sem ambiente grandemente favorável à inovação e criação, que é como se faz campeões.

A questão a que von Der Leyen não respondeu, porque não pode, mas que será decisiva, é sobre quem vai mandar no programa de recuperação económica. Há, compreensivelmente, duas tendências em tensão. De um lado, tanto Bruxelas como os Estados membros querem é que o dinheiro seja gasto. No imediato (leia-se eleições) é por isso que serão avaliados. A tentação para aceitar que as rotundas são economia circular e o revelado dos campos de futebol é economia verde, como nos lembramos, existe. Nessa visão, o que interessa é que o dinheiro se use e Bruxelas assinará todos os cheques.

Por outro lado, a presidente da Comissão, e a sua equipa, sabem que usar o poder de assinar ou não os cheques pode ser decisivo na transformação do equilíbrio de poderes europeu. Se a Comissão aproveitar o semestre europeu, que domina, para condicionar o uso do dinheiro da recuperação económica, vai poder ter (quase) o poder troika e, ao mesmo tempo, a gratidão dos povos e a europeização das políticas económicas e orçamentais nacionais. A tensão é, compreensivelmente, grande. A tentação, também.

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