"A minha terra é lá"

Via-a sempre ali, sentada à porta de casa. Nos dias quentes de verão passava horas a tomar o fresco, o olhar inquieto a mirar o caminho. E, no inverno, quando os dias rompiam gloriosos, a pôr cores fortes no céu e nas poucas casas da aldeia, lá estava ela. Punha um gorro e um xaile de lã, e deixava-se ficar naquele afago do sol, mergulhada sabe-se lá em que viagens interiores.

Era como se a conhecesse de sempre, sentada à porta de casa, um edifício quadrado forrado a azulejos cor de garrafa, que nalguns sítios já anunciavam a idade e o abandono - a casa e ela, Maria de Jesus, sentinela da própria solidão.

A sua história, que contava de bom grado, era a de uma vida de partidas e lonjuras. Uma vida de trabalho. Mulher feita, já casada, Maria de Jesus tinha abalado um dia (são dela as palavras) com os dois filhos para se juntar ao marido na Alemanha, que por lá andava a fazer pela vida. Anos depois começaram a construir a casa dos azulejos, a mais vistosa da aldeia. Era para a velhice, diziam. Para quando voltassem à terra, já reformados, com os filhos e os netos.

Voltaram 30 anos anos depois, mas sozinhos -não era bem aquilo que tinham sonhado. A aldeia ezvaziara-se, a maior parte das casas estavam fechadas, a escola também e até a venda do Manel, o centro da vida da aldeia. Por ali tinha passado a economia da terra, com as suas alegrias e desesperos, ali se tinham decidido casamentos e saldado desavenças, feito juras de vida e de morte, ali se acorria a um telefonema urgente a desoras.

"O homem morreu-me, os filhos por lá se casaram, e eu para aqui sozinha, morta de saudades. Já não sei onde é a minha terra", lamentava-se Maria de Jesus quando calhava passar à sua porta, nas férias de verão ou de Natal.

Da última vez que lá estive já não a vi. E quase com surpresa percebi que me fazia falta,sentada à porta da casa dos azulejos, que agora está fechada.

"A Maria de Jesus?", perguntei um pouco a medo, a pensar o pior. Mas a resposta veio inesperada: "Voltou para a Alemanha, diz que lá é que é a terra dela. Quem é que percebe isto?"

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