O bacalhau do bairro

Os bairros são locais fantásticos. Propícios a relações entre novos e velhos e fazedores inequívocos de futuras memórias. Dizemos "o meu bairro" de boca cheia, mas somos muito mais dele do que o contrário. Tempos recentes houve em que, ao ansiarmos pela modernidade, a palavra bairro era mal compreendida. Hoje, felizmente, dizemo-lo sem preconceitos. Seja o de Campo de Ourique ou de Alvalade, Arroios ou Marvila ou mesmo Belém.

À beira deste último há um bairro que, não sendo oficialmente lisboeta, continua ligado à cidade na sua génese: Algés. Terra peculiar, que poucos rimam com a palavra subúrbio. Apesar de ser de Oeiras, ali ainda se encontra o que muitos bairros de Lisboa já perderam. As lojas ornamentadas como há 40 anos, os loucos que todos conhecem e a quem já ninguém liga - a não ser que deixem de aparecer. Os "chungas" delimitados a um ou dois prédios, os "nativos" que não têm coragem de dali sair ou os "betos" que entopem o trânsito com os seu grandes SUV à porta do ginásio.

Mas há um local num certo dia da semana em que todos estes habitantes do bairro se encontram. E apenas com um propósito: comer uma travessa de bacalhau à Brás.

Às sextas, o bacalhau é rei e senhor de uma tasca familiar, A Águia de Algés. Ali pouco importa se a cor clubística do cliente está de acordo com o nome do restaurante, pouco importa a classe a que supostamente se pertence. Ali, às sextas, importa o bacalhau primorosamente confecionado pela D. Cecília e pela irmã Lurdes. Servido pelo filho Tiago que foi crescendo entre o espaço exíguo entre mesas e que nos últimos anos foi substituindo o pai, o Sr. Rita, que agora observa as operações do lado de lá do balcão enquanto serve imperiais. Ali, sobretudo nas sextas do bacalhau à Brás, todo o bairro se encontra. É quase um ritual e que leva os mais distraídos e os estreantes a esperarem longos minutos. Mas tudo por uma causa e boa. Ou não fosse este, provavelmente, o melhor bacalhau à Brás de Lisboa e, lá está, arredores.

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