Agustina

Não querem que eu escreva sobre a escritora Agustina Bessa-Luís, pois não? Têm muito melhor por onde escolher, entre tanta gente que sabia dela. Vejam os filmes que os livros de Agustina inspiraram a Manoel de Oliveira. Escutem o editor Francisco Vale sobre o porquê de tanta edição quando tão pouca gente a lia. Releiam as frases fascinadas que Miguel Esteves Cardoso lhe dedica há décadas... Eu sou apenas um leitor comum, um admirador comum.

E, no entanto... Vi. Bastaria uma foto sobre o que então vi e, hoje, essa imagem seria um testemunho. Um - não tão fundo com os seus livros, claro, mas um bom testemunho. Como recolher a memória do camponês açoriano que se cruzou com Antero, o último a fazê-lo, quando o poeta ia para o Campo de São Francisco, Ponta Delgada, a caminho do banco encostado ao muro onde estavam penduradas uma âncora e a palavra "Esperança" - e já não havia nem âncora nem esperança. Ou, outro testemunho, de alguém que deveria ter dado pelo jovem Eça, 23 anos, ainda sem mundo, a desembarcar em Alexandria e a apontar num caderno "tarbuche turco, albornoz árabe, gorro grego, barrete albanês..."

Sobre Agustina Bessa-Luís não mereço falar dela, escutem Eduardo Lourenço, nem falar dos seus livros, leiam os tantos bons críticos da escritora que foi reconhecida grande já há mais de meio século. Mas eu vi um momento de Agustina. Uma imagem. A tal que hoje se publicaria nos jornais e se fixaria nos telejornais. Eu vi, procurei um fotógrafo e não os encontrei. Porque uma coisa é ver e outra fotografar. Por isso sou obrigado a recorrer a palavras que valem o milionésimo de uma foto.

Nas presidenciais de 2006, muitas famosas e algumas extraordinárias portuguesas encheram a FIL para homenagear um dos candidatos. No topo do salão, na mesa de honra - longa, só um lado com convidadas porque virado para a multidão - sentava-se naturalmente Agustina Bessa-Luís, ao lado do candidato. Essa mesa ficava num estrado para ser visível por todos. Como em todos os acontecimentos eleitorais, comeu-se mal e as fãs nem esperaram pela sobremesa para se aproximar do candidato, magro e elegante como um manequim das montras da rua dos Fanqueiros.

O candidato e as senhoras da mesa de honra levantaram-se e juntaram-se num topo da mesa, onde a multidão feminina cercou o homenageado. O movimento desguarneceu a mesa, deixando um vazio que sublinhava o comprido da toalha branca e o contraste, lá no fundo, com o tufo de senhoras emocionadas (o jantar era exclusivo delas) à volta de um homem (momentaneamente) objeto. Os fotógrafos acudiram naturalmente à multidão, onde estava a notícia. E não viram.

Eu vi. No meio da longa mesa já abandonada, uma senhora baixinha, redondinha e de carrapito continuou sentada. Como a mesa estava exposta, via-se que os sapatos, de tacão curto, não chegavam ao chão e via-se que a solitária se dedicava a acabar o arroz doce que a todos fora ofertado e ao qual continuou a prestar uma atenção aturada. Ou seria à mousse de chocolate? Sei lá. Sei é que vi Agustina única (lendo A Sibila, talvez também, mas não sou autoridade). E sei também que uma vez me cruzei com ela e a vi. Nesse ano distante, 2006, ela escreveu o seu último livro, A Ronda da Noite, e deixou de aparecer em público.

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