Tal como no PEC IV, Bloco chama por Passos todos os dias

Uma das poucas certezas na política portuguesa é a de que Pedro Passos Coelho voltará a ser primeiro-ministro. Se é em breve, no final desta legislatura, ou depois do tal terceiro mandato de António Costa, é a dúvida. Quem decide esse momento é o Bloco de Esquerda. O partido cresceu, chegou à idade adulta e tem de assumir as responsabilidades. Prefere um país à esquerda ou à direita?

É difícil esquecer 2011 e quem ajudou a chumbar o famoso PEC IV. Sócrates era péssimo? Sim. Mas talvez não fosse inamovível. Já o que sucedeu a seguir estava à vista: uma "troika hard core" e a maioria absoluta PSD/CDS. Do ponto de vista da esquerda, foi o pior resultado possível.

Estamos a caminhar para um ponto parecido. Porque não derrubar (ou ir derrubando) Costa? O comentador Daniel Oliveira, ex-bloquista, que conhece como ninguém as idiossincrasias da fusão UDP/PSR, avisou com semanas de antecedência que o Bloco não poderia votar a favor deste orçamento. Os argumentos eram táticos, mas para um partido enfiado na nuvem mediática, essa é a realidade. Deus (ou Shiva) os livre de porem os pés na terra.

Claro, não é novidade que o PCP, sempre que pode, se põe ao fresco. Não quer continuar a perder autarquias para o PS e votos para o Bloco e Chega. O medo de serem o próximo "CDS do táxi" deixa-os em pânico. (Uma ideia: não se pode devolver Almada ao PCP em troca do Orçamento?)

Inevitavelmente, sem os dois partidos da esquerda, não há gerigonça - e o resto é paisagem.

Por falar em paisagem, Rui Rio cansou-se, compreensivelmente, de ser o refúgio de montanha do primeiro-ministro. Na verdade, a essa situação sempre foi algo ficcional. Um "bloco central" no Orçamento seria a morte de Costa enquanto líder informal da gerigonça, e o fim de Rio enquanto líder (a prazo) do PSD.

Sobra, no entanto, a realidade: estamos mergulhados na crise económica mais severa deste século, debaixo de uma pandemia galopante, e Portugal é o único país da Europa civilizada cuja entrega da "pen" do Orçamento é transmitida em direto por três (ou quatro?) canais de notícias, incluindo do próprio veículo onde segue o ministro das Finanças. Isto será sinal de quê?

Em concreto, olhemos então para a grande questão/quimera que separa o Governo e o Bloco: o "Novo Banco". Com tantas coisas mais importantes, o Bloco insiste nesta bandeira. Sim, funciona em 99,9% dos portugueses. Não deixa de ser desagradável, no entanto, recordar a demagogia do tema porque, na verdade, o Orçamento empresta dinheiro ao Fundo de Resolução, não o dá, ainda que ele entre temporariamente no défice. E provavelmente esse dinheiro voltará com lucro, se suceder o mesmo que em Espanha, Reino Unido e tantos outros países.

Outro exemplo de bradar aos céus: lembram-se, há poucas semanas, do escândalo levantado pelo Bloco quanto aos vergonhosos conflitos de interesse da auditoria da Deloitte ao Novo Banco? O relatório analisava 264 operações. Mas, - escândalo! - a Deloitte Espanha havia participado como consultora na venda de uma operação minúscula - uma seguradora vida do universo ex-BES. Pois, para o Bloco, já estava tudo em causa... apesar da tão reclamada auditoria ter custado centenas de milhares de euros. Lixo. Como acreditar no que dizem se trocam a seriedade por um soundbyte apressado?

Com esta estratégia, Catarina Martins prepara cada vez mais o regresso do ex-primeiro-ministro. Porque Passos Coelho é a pessoa que federa toda a direita (até do Chega ele é o putativo e involuntário criador) e Rui Rio cairá no minuto seguinte em que forem marcadas eleições - tal como Seguro caiu no PS.

Passos e os seus rapazes estão prontos e dão sinais disso cada vez mais regularmente.

Questão de fundo: este Orçamento é suficiente? Talvez não. Mas nenhum seria para enfrentar esta crise gigantesca, porque só há uma certeza no fim desta pandemia: desconhecemos o tamanho da dívida a pagar nas décadas seguintes para nos salvarmos hoje. Sabemos, sim, que um Governo a gerir duodécimos será incapaz de responder de forma mais célere ao drama que estamos a viver.

O Bloco tem de se decidir, tal como na estória (muito gasta...). A tartaruga Costa leva o escorpião a atravessar o rio - sim, muito devagarinho, é verdade... Ele ataca-a, sabendo que morrerão os dois.

Já vimos isto em 2011. E agora, Catarina?

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