Se não houver um plano, a covid não abranda e ficamos sem empregos

O Governo só tem uma hipótese de evitar a revolta generalizada: organização-planeamento-antecipação. Como fazê-lo num contexto de imprevisibilidade? Destruindo a falácia da "imprevisibilidade". É que nós não estamos a viver tempos absolutamente imprevisíveis, como a história das pandemias demonstram. É possível ler no passado os passos seguintes. Neste caso, para se fazer um calendário para o outono-inverno. Sem isso agravamos o colapso económico.

Ponto 1: na pandemia de há 100 anos a segunda vaga foi arrasadora e morreu 1% da população, só no outono-inverno de 1918. Toda a gente falou disto, incluindo o Governo. Ora, o que se fez em concreto para estender o ponto de colapso do SNS? Aparentemente pouco. Falta quase tudo de que se falava: cuidados intensivos, rastreadores, mais médicos e enfermeiros, acordos com os privados para as doenças não-covid, etc...

Ponto 2: os vírus fazem parte do planeta praticamente desde o surgimento de sinais de vida, há quatro mil milhões de anos. Os seres humanos estão cá há menos de 1 segundo, em comparação eles. Podemos reconhecer, humildemente, que não é fácil vencê-los? Assim não ficamos tão surpreendidos com a evolução dos números e podemos ter um plano de ataque baseado na humildade genética - até à vacina estamos em desvantagem.

É por essa razão que a discussão sobre camas de cuidados intensivos é confrangedora. Sabíamos há meses que era aqui que tudo se ia decidir. Se são 3000 casos diários ou 6000, só é absolutamente grave se não puder haver socorro médico disponível. A taxa de assintomáticos é elevadíssima. E, de facto, estamos a ser capaz de viver com este coronavírus, que é moderadíssimo se pensarmos na taxa de "sucesso" de alguns dos seus antecessores - influenza, HIV-sida e H1N9, por exemplo. No "influenza pneumónico" de há 100 anos, as pessoas morriam em três ou quatro dias, fosse qual fosse a idade (aliás, morriam mais depressa os mais jovens). Em Portugal a esperança média de vida caiu de 32 para 20 anos...

Precisamos então de proteger essencialmente os grupos de risco via cuidados intensivos. Estamos a conseguir? Para já sim. Mas se falamos de um limite de 500 camas disponíveis, é de rir, ou pior, chorar. Ok, sabemos que vão ser mais - quiçá o dobro, e as dos privados também contam (como sempre se calculou desde o início). Todavia, não sabemos quem está a regatear mais: se o Governo que não quer pagar o suficiente pela ajuda covid, se os hospitais privados passaram para a chantagem. (O Presidente pode ajudar?)

Sabemos que não somos um país rico e o dinheiro não dá para tudo. O nosso SNS não começou a ser fraco em março de 2020, há muitos anos que desinvestimos nele. Mesmo assim: foi dito por toda a gente que é mais barato ter camas de cuidados intensivos do que pagar lay-offs. Chega-se a outubro com 500 camas? E (por exemplo), mandam agora fazer à pressa 15 camas no Amadora-Sintra? Ou demoraram até agora por causa da dificílima burocracia pública?

Sem SNS, a covid é um grande problema, mas tem uma consequência ainda mais grave - temos de fazer sobreviver a economia e o emprego porque atingem quase 100% das pessoas. Temos de salvar quem está a morrer de AVC ou suicídio por causa das suas pequenas empresas ou perdas de emprego (além de falta de assistência médica noutras patologias).

E é aqui que o triângulo "organização-planeamento-antecipação" é tão decisivo no Ministério da Economia quanto no SNS.

Por exemplo: manda-se fechar restaurantes mais cedo de um dia para o outro. Parece lógico do ponto de vista de saúde pública, mas é altamente destruidor para estes pequenos estabelecimentos. Não é só o espectro de trabalharem menos horas ao jantar ou até o de encerrarem por alguns dias. É o que já gastaram inutilmente para se manterem abertos. O stock de peixe fresco, fruta, ou vegetais vai para o lixo, sempre que alguém começa a ameaçar com as restrições? É mais barato fechar e ir para lay-off do que tentar aguentar a porta aberta.

O Governo tem de avisar a economia com algum tempo. Menciono os restaurantes, mas poderia referir os alojamentos. Por exemplo: nos feriados de 1 e 8 de dezembro, pode viajar-se ou não? Se anunciarem com um mês de avanço, os hotéis e restaurantes, agentes turísticos, etc., sabem o que vai acontecer e, em vez de perderem dinheiro, gerem a situação e vão (ou não) para lay-off , etc...

Gerir à distância é difícil, mas exige coragem. E ela tem de existir. Repare-se o que sucedeu com dois temas de defesa impossível em termos públicos - Fórmula 1 no domingo passado, e ontem o "canhão da Nazaré".

Fui ver a data do anúncio da Fórmula 1 em Portugal: 9 de julho. Portanto, a vinda da Fórmula 1 foi negociada no fim de junho. Nessa altura o nosso drama era a falta de turistas e o desemprego no Algarve. O número de casos diários estava abaixo dos 300.

Quatro meses depois, 25 de Outubro: 27.500 espectadores no autódromo. Um escândalo... porquê? Porque já íamos nos 3000 casos? Mas... o que fazer? Romper o compromisso? Pagar o custo total do evento com dinheiro público?

Sim, podia ter sido melhor organizado. Punam a organização por esse facto. Mas, apesar de tudo, era um acontecimento ao ar livre, o risco não era brutal... Quantos empregos e empresas foram ajudados no Algarve por aquele evento?

(Nota: acho a Fórmula 1 uma coisa do passado e preferia que Portugal não a tivesse. Mas o coro de críticas não leva em conta que Portugal é um país de eventos num momento em que praticamente não há eventos. Esta pandemia já nos ensinou que nada é a preto e branco.)

O mesmo se passou ontem na Nazaré. Centenas de pessoas foram ver as ondas. É péssimo? Depende. Se acontecer sem máscaras, há algum risco de contágio. Mas, apesar de tudo, aquilo passa-se ao ar livre... há alguma distância... por muito que na televisão pareça que toda a gente está amontoada. Ora, o "canhão da Nazaré" é "economia" para aquelas localidades. É um evento essencial para a região entre novembro e fevereiro. Deve ser impedido ou deve ser bem planeado e ter boas regras de distanciamento?

Se António Costa continuar a querer gerir a crise por popularidade, esqueça a maratona. Ninguém percebe os critérios. Isto não pode ser gerido, ora por "sábios", ora por impulsos políticos. Um plano, com válvulas de escape, pode ajudar à coerência - caso contrário ficamos tão longe da vida real que acabamos no trumpismo e no Chega. Foi para decidirem com bom senso e noção da vida, em todas as áreas, que se inventaram os políticos. Ouvindo todos mas decidindo na solidão. Para o mal e para o bem.

Por mim digo o que já escrevi: precisamos que a vida continue, ainda que com diminuição do número de casos em determinados momentos. Façam-se confinamentos (regionais ou nacionais) entre 28 de outubro e 8 de Dezembro (aproveitando os feriados) - provavelmente a pandemia não dá outra alternativa. Acrescente-se a paragem de 24 dezembro a 3 de janeiro. Salve-se o Natal com as famílias. Faça-se desde já o recolher obrigatório das 23h (ou meia-noite) às 6h. Não se obrigue o comércio a fechar antes das 22h porque isso só gera mais aglomerações durante o dia e nos fins de semana (e ainda por cima vêm aí as desejáveis compras de Natal). Mantenham-se as igrejas abertas e dê-se uma oportunidade (com todos os cuidados) ao desporto, com 10% da lotação para começar e garantia de distanciamento.

Se isto é uma maratona, temos de chegar até à vacina com lucidez e algum equilíbrio social. A covid não pode ser também uma doença mental coletiva. Precisamos de um plano para gerirmos a nossa vida e de um SNS a responder. Estamos a conseguir aguentar até agora. Mais um esforço e temos a vacina.

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