Como é possível testar-se toda a gente menos os médicos e enfermeiros?

A comissária europeia da Saúde, Stella Kiryakides, disse ontem com total clareza que estamos a viver os dias decisivos para conseguir aguentar a pandemia dentro de controlo na Europa. Porque, tudo indica, a situação de contágio é de tal forma grave (sobretudo por via dos assintomáticos) que ninguém sabe ao certo o que pode acontecer nos hospitais. França bateu ontem o recorde, com mil pessoas internadas nas unidades de cuidados intensivos (UCI), e o Reino Unido está no mesmo caminho. Madrid está já no limite da capacidade de resposta nas UCI. A curva de internamentos na Europa não para de crescer. A espiral é fortíssima, quase exponencial. Ninguém consegue avançar um antídoto, até porque o confinamento também mata.

Neste contexto grave, retomo uma perplexidade: estamos a testar mais de 20 mil pessoas por dia em Portugal. Procuramos de linhas ativas de contágio e assintomáticos por todo o lado. No futebol, por exemplo, testam-se os intervenientes todas as semanas. Nas universidades começam a surgir testes aleatórios (por exemplo, em Coimbra) para evitar a propagação silenciosa. Mas... e nos hospitais... não se testa ninguém?

Médicos, enfermeiros e restante pessoal de apoio vivem diariamente nas instalações onde as situações mais graves desaguam. Ora, como é possível não se testarem os profissionais de saúde e a comunidade hospitalar?

Não há nenhuma explicação lógica para algo assim. Exceto uma: o Ministério da Saúde não querer correr o risco de ter menos profissionais a trabalhar - preferindo que eles tenham covid, mas estejam presentes. É até difícil escrever isto mas, por mais voltas que se dê, não se consegue encontrar uma outra razão. E isso é sinistro.

Factos: em mais de 20 mil testes diários não há dinheiro para testar as equipas hospitalares uma vez por mês (ou quinzenalmente)? Não pode ser esta a razão.

Uma outra hipótese: o Governo tem sido pressionadíssimo para diminuir as listas de espera dos doentes não-covid dado que os meses de confinamento aumentaram significativamente as mortes não rastreadas. Em Portugal a média de óbitos é superior a 300 casos diários, mas o primeiro semestre trouxe mais de cinco mil óbitos extra (mesmo tendo já em conta os 1500 covid à data do fim de junho).

Assim sendo, médicos ou enfermeiros testados com diagnóstico positivo (mesmo que assintomáticos) significam equipas em risco, adiamento de cirurgias, mais colapsos nas consultas e nos serviços.

Para não contratar mais equipas em redundância, o Ministério da Saúde prefere não saber se aqueles profissionais estão em condições de manterem o atendimento. E assim se chega ao Outono sem um processo claro sobre quem já teve covid e quem não teve - informação essencial para esses profissionais e as suas famílias, quase todas elas inseridas em comunidades profissionais e escolares.

O Ministério da Saúde, em nome da eficácia, rigor e exemplo, não pode deixar de testar os seus profissionais - e, aliás, impor o mesmo critério aos hospitais privados.

Durante a primeira vaga, os portugueses fugiram dos hospitais com a noção de que é o local onde há a maior probabilidade de se contrair covid. Essa ideia não nasceu agora, mas nos anos antecedentes, por via da disseminação muito frequente de infeções hospitalares. Foi-se estabelecendo a ideia de que se vai ao hospital como uma doença e corre-se o risco de se trazer outra.

Sem um novo patamar de confiança nas equipas e nas instalações do SNS, as pessoas continuarão a evitar a ida aos serviços de saúde públicos durante a pandemia. Por causa disso morrerão mais, como aconteceu na primeira vaga.

O Ministério da Saúde tem de tornar claro para os portugueses de que há um processo de higienização rigoroso dos hospitais e de que o pessoal médico está "limpo". Ir ao hospital tem de ser seguro. Esta comunicação é decisiva. Seis meses depois do início desta pandemia, estarmos ainda neste ponto, é absolutamente lamentável. E isto paga-se com vidas.

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