Um clarinete chorando 'Delicadeza'

Um velho e saudoso amigo instalou-se, certa vez, num hotel da Praça Nova, no Mindelo. Acordou da sesta revigorante ao som de Amapola. Ao afastar as cortinas, viu a orquestra tocando no coreto em redor do qual gente vestida de domingo passeava vagarosamente. Num primeiro instante, pensou que tinha morrido e que entrara no paraíso.

Esta é a praça em que terá sido instalado, nas últimas horas, o busto do grande saxofonista e clarinetista Luís Morais, como é vontade do ministro Abraão Vicente, que acabo de ver, no jornal digital A Semana, acocorado e sorridente, junto ao bronze esculpido por Domingos Luísa, o criador da Cesária de três metros posta à entrada do aeroporto. O ministro cabo-verdiano da Cultura e das Indústrias Criativas quer o mesmo destino para o busto do compositor Manuel d"Novas.

É uma magnífica decisão. Luís Morais tocou na Praça Nova desde que, em adolescente, integrou a banda do Mindelo, regida pelo professor Reis. Foi lá que Baltazar Lopes, chegado de São Nicolau, fez vaguear Chiquinho, seu juvenil alter ego. Manuel d'Novas nasceu em Santo Antão mas era tão mindelense como Tito Paris ou como a formidável Hermínia que vi cantar no Café Lisboa e que, estranhamente, só gravou um disco, Coraçon Leve, após o empenho de Vasco Martins. Manuel d'Novas foi mindelense até ao último suspiro, no Monte Sossego, onde nasceu o poeta e diplomata Corsino Fortes. Lembro-me de ouvir o autor de Pão&Fonema contar que, quando estreava um filme, os rapazes do grupo juntavam moedas para o bilhete. Um ia ver o filme e os outros esperavam na Praça para ouvir a história.

A Praça Nova tem um histórico de sobressaltos com estátuas e com bustos. O do marquês de Sá da Bandeira andou, tal como o de Camões, em bolandas, não obstante o papel decisivo que teve na abolição da escravatura nas colónias. Foi ele que mudou o nome da antiga Vila Leopoldina, celebrando os bravos de outro Mindelo.

O autor do novo busto da Praça Nova quis perpetuar o saxofone, em vez do clarinete que Luís Morais tanto amava. Mas, lembrando os fins de tarde em volta do coreto, a minha ideia de paraíso pede um clarinete chorando Delicadeza. Luís Morais continua dando Novidades de Mindelo.


Jornalista. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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