Um ano depois: the bad guy in Beijing

Num debate sobre o centenário da revolução soviética, discutindo porque é que a Rússia de Putin não comemora Outubro, os participantes na mesa - Raquel Varela, Ruben de Carvalho, Pacheco Pereira, Elíseo Summavielle e eu próprio - fomos mais ou menos unânimes em reconhecer que a razão principal era simples: ideologicamente, a Rússia de Putin não se identifica com os ideais internacionalistas, socialistas, utópicos, dos bolcheviques. E (aqui já não fomos tão unânimes) também não quer endossar a carga negativa do regime soviético.

Mas num ponto, levantado por Pacheco Pereira, estivemos de acordo: a política exterior e militar de Putin tem, quanto à percepção geopolítica, muito que ver não só com a URSS como com a própria Rússia czarista a partir de Nicolau I, czar muito admirado pelo presidente russo.

Este ponto é significativo: a ideologia muda radicalmente nestes três regimes - a autocracia czarista, o totalitarismo soviético e o populismo autoritário actual - mas mantêm-se os objectivos estratégicos: continuar como uma potência na Eurásia entre a Europa e a China. E hoje Putin joga nos recursos energéticos e no poder militar.

Tóquio, Seul, Pequim

Estas reflexões fazem sentido no momento em que passa o primeiro ano da presidência de Donald Trump. Este, não por puro acaso, irá passá-lo em Pequim, junto com o seu rival mais sério no concurso para o "homem mais poderoso do mundo" - Xi Jinping. Vai fazê-lo depois de se encontrar com o conservador e realista primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, com quem estabeleceu, desde o início da presidência, uma boa relação.

Os japoneses sempre se queixaram da negligência dos presidentes americanos em relação à escalada dos autocratas familiares da Coreia do Norte, na corrida para o nuclear; depois, na Coreia do Sul, o presidente terá de equacionar com o homólogo sul-coreano Moon Jue-in uma estratégia coordenada para lidar com Kim Jong-un. Seul, que está na linha da frente do risco, está também hesitante entre uma política de maior firmeza ou de mais entendimento com Pyongyang e o presidente sul-coreano quererá medir o empenho de Washington e balançá-lo com a aproximação à China.

Mas é em Pequim que está a chave - se existe - do problema. Pequim tem sido o irmão mais velho e protector da dinastia Kim; representa mais de 90% do comércio externo da Coreia do Norte, é fornecedor de mais de 90% do petróleo importado por aquela e de quase metade da alimentação da Coreia do Norte.

Embora Kim Jong-un se mostre rebelde aos conselhos e advertências dos chineses, não quer perder estes apoios. E Xi Jinping, agora confirmado como o "grande chefe", pode parar a perigosa escalada nuclear do seu inquietante protegido que, no termo do 19.º Congresso do Partido Comunista Chinês, lhe enviou uma quente mensagem congratulatória.

No primeiro aniversário da vitória, Trump vai ter, com o seu interlocutor chinês, um diálogo difícil e sensível à volta do problema norte-coreano, em que Xi Jinping pode fazer muito para encontrar soluções, e das questões de comércio e power-sharing na cena mundial.

Há mais política e economia além de Pyongyang e de Fatty Kim, como às vezes se designa o desinibido autocrata do Norte. A China afirma-se agora como um poder que pretende avançar para além do continente asiático, que estabeleceu as suas silk roads para a Eurásia, a África e as Américas, investiu no poder militar e é claramente o número dois da economia mundial.

O comércio entre Washington e Pequim vale mais de 660 biliões de dólares, mas o défice americano é mais de metade desta soma. Além disso, a China possui mais de um trilião de dólares da dívida externa americana.

Colocadas numa corrida a prazo pela supremacia mundial, as duas potências, por enquanto, olham-se com cautela e alguma ambiguidade. Curiosamente, as suas percepções geopolíticas são próximas: ambas realistas, a geopolítica determina posições, mais do que a ideologia; nacionalistas, cada uma privilegia os interesses nacionais em detrimento das ideologias "socialista" ou "liberal" que oficialmente professam; e também pelos interesses económicos, uma - a China - é globalista e a outra - os EUA - proteccionista.

Há uma América ideologicamente dividida onde, apesar do bom estado da economia, há uma clivagem funda entre os pró--Trump e anti-Trump. Uma parte destes é apoiada pelos media de referência progressistas, e pela classe intelectual, todos obcecados em conseguir que Trump não acabe o mandato. A esta América dividida opõe-se uma China autoritariamente disciplinada pelo Partido Comunista e pelo poder reforçado do seu líder.

Mas esta China tem também vulnerabilidades e assimetrias - na repartição da riqueza, na necessidade de continuar a expansão económica e no equilíbrio entre a formação de uma classe média e o controlo da sua expressão. E na própria Ásia, alguns Estados, inquietos com a hegemonia chinesa, continuarão a esperar o contrapeso do amigo americano.

Enquanto estiver discutindo com Xi, com o qual tem algumas idiossincrasias autoritárias, Trump não tirará os olhos da frente doméstica. Nesta frente, para despeito dos seus inimigos e das elites intelectuais e mediáticas, tem procurado cumprir o seu programa. E por isso o seu núcleo duro eleitoral não cede, apesar de todas as pressões nesse sentido.

Henry Kissinger interpretara o 8 de Novembro de 2016 como "in large part a reaction of Middle America to attacks on its values by intellectual and academic communities". Os partidários do presidente citam, como dados positivos deste primeiro ano, a destruição das bases territoriais do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, conseguindo manter uma coligação activa contra o terrorismo. E, mais importante popularmente, as melhorias na economia com um crescimento médio acima de 3% nos três primeiros trimestres da administração e o desemprego (4,1%) no ponto mais baixo dos últimos 16 anos. Registam-se também subidas salariais e o valor 125,9 no índice de confiança dos consumidores é o mais alto também desde Dezembro de 2000. E Wall Street subiu quase 30% desde a eleição.

O presidente Trump, como o candidato Trump, é a mais politicamente incorrecta das criaturas. Os seus tweets são às vezes contraditórios e na Casa Branca reinou, durante alguns meses a confusão, os leaks, as confrontações internas.

Mas em tudo isto é importante separar o que é a política norte-americana e os estados de espírito presidenciais. Nunca esquecendo que, mais do que Trump ganhar, foi Hillary Clinton que perdeu, ela o símbolo daquela elite narcisista e globalizante, politicamente correcta e veneradora do poder do dinheiro, aquela elite de que os americanos estavam fartos, ao ponto de escolherem o alien, o marginal, o ET, o bad guy Trump.

Escritor e historiador

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