Populismos e nacionalismos

O chamado "populismo" não é propriamente "um fantasma que paira sobre a Europa", glosando as palavras de Marx e Engels sobre o comunismo em 1848. Ou só o será na medida em que a designação vem dos que, estando no poder ou fazendo parte do "sistema", se sentem prejudicados ou ameaçados por um fenómeno que se está a tornar popular.

Mas é de um fenómeno complexo e díspar que agora se trata, variando de país para país ou de sociedade para sociedade. Entre os votantes de Donald Trump, do Podemos, da CinqueStelle, do Front National não haverá muito em comum, além de estarem contra o mainstream, o centro estabelecido, e de as suas posições terem apoio entre os eleitores, isto é, serem populares.

Nos chamados populismos de direita ou à direita, o elemento nacional é decisivo. Por isso têm agendas distintas naquilo que consideram prioritário, nos valores e nos inimigos. Se a retórica internacionalista se quer igual em todo o lado - ainda que os diferentes internacionalismos quase sempre ocultem interesses nacionais, de classe ou privados - os nacionalismos são declaradamente e por definição diferentes consoante o contexto, a situação, a relação de poder na "ordem internacional" e a tradição.

Assim, fazer a amálgama dos nacionalismos não é legítimo nem intelectualmente honesto. Mas há quem a faça por interesse ideológico, erguendo como exemplo e modelo dominante o nacionalismo da Alemanha do Terceiro Reich e como contra-modelo um qualquer mundo sem fronteiras, de paz, amor, igualdade e fraternidade entre os cidadãos de todos os géneros e os povos de todas as raças e religiões. A partir daí, esta retórica internacionalista (à qual estranhamente não se aplica o pejorativo epíteto de populista) entra em delírio, qualificando como atributos de todo o nacionalismo, o racismo, a xenofobia, a guerra, os campos de concentração, todos os horrores.

O nacionalismo tem muitas variantes e qualificativos: há o nacionalismo revolucionário e republicano da Revolução Francesa, um nacionalismo que começa por ser defensivo e que depois passa à ofensiva, continuando no nacionalismo também liberal e anti-imperial da Primavera das Nações, na Europa de 1848.

1870: O nacionalismo vira à direita

Mas em 1870-71, depois da derrota da França às mãos dos prussianos, surgia entre os vencidos uma reflexão sobre o sentido e o conteúdo ideológico desse nacionalismo. Olhando a derrota de França e procurando as suas causas, a nova geração de pensadores nacionalistas - de Maurice Barrés a Charles Maurras, de Taine a Renan - vai acabar por evoluir para posições orgânicas e conservadoras. A derrota levara-os a pensar que a Alemanha - a Alemanha reunificada pela Prússia e por Bismarck - com os seus valores autoritários, conservadores, orgânicos, conseguira um modelo político--ideológico superior ao da França.

O nacionalismo conservador nasceu aqui e foi sistematizado pela Action Française e exportado para o resto da Europa, sobretudo para a Europa Latina. Salazar foi um dos influenciados.

Este nacionalismo tinha pouco de populista; era mais elitista, reaccionário, orgânico, desconfiado do individualismo e das massas. Já o fascismo, que é fundado em 1919 e chega ao poder por via revolucionária em 1922, traz um forte elemento populista ou popular, mobilizado por causas de tipo irredentista - como a ocupação de Fiume e das cidades da costa adriática - e pela retórica anti-plutocrática e antivaticanista. Neste sentido, o fascismo - e as suas versões europeia e sul-americanas - foi populista e popular.

Os novos nacionalismos

O pós-guerra e a crise do mundo eurocêntrico confirmou ou criou os nacionalismos das periferias - chinês, indiano, indonésio, africano.

Se os nacionalismos da velha Europa ressuscitavam a glória das nações, corrigiam fronteiras, apelavam à memória e à História, os neonacionalismos das áreas imperiais procuravam descobrir e inventar as suas "nações", mobilizando-as em nome da revolta contra o jugo colonial. Para criar e libertar a nação, tinham de a ressuscitar ou inventar. E assim, entre os finais da década de 1950 e os meados da década de 1970 surgiram dezenas de novos Estados que integraram a sociedade das nações, inscrevendo-se e sendo apoiados pela ONU.

Depois, na Europa Oriental e nos Balcãs, com a decomposição e fim do Império Soviético, vieram os nacionalismos pós-totalitários, saídos da libertação da tutela comunista. Também por isso, sobretudo nos Balcãs, assumiram características identitárias e digladiaram-se entre si em sangrentas guerras civis como na ex-Jugoslávia.

Querer equiparar todos estes nacionalismos ou colocá-los sob um denominador comum de reprovação e damnatio memoriae, equiparando-os ao nacional-socialismo, não ajuda muito a perceber a realidade.

Do mesmo modo, não faz muito sentido falar de "populismo" como uma categoria genérica ou como um movimento com uma identificação ideológica única e comum. Os populismos são diferentes, uns são "de esquerda", outros "de direita"; há populismos nacionalistas e há populismos internacionalistas; como há nacionalismos populistas e nacionalismos elitistas ou conservadores.

O que hoje é comum a todos é o facto de serem populares e de contestarem as forças políticas tradicionais, acusando-as de terem confiscado o poder ao povo. No entanto, apesar destes e de outros traços semelhantes - a contestação ao sistema partidário tradicional e à globalização sem limites, a defesa das identidades nacionais, algum caudilhismo e alguma deriva autoritária -, o que por agora mais os aproxima é precisamente a amálgama em que os seus inimigos procuram encerrá-los.

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