Para que não fique pedra sobre pedra

Será um primeiro grande ensaio prático de incursão no passado dos ultras da correcção política ou parte de uma estratégia para enfraquecer os Estados Unidos e a coesão da sociedade americana?

Depois da remoção das estátuas dos generais Robert Lee e Stonewall Jackson, comandantes da Confederação durante a Guerra Civil de 1861-1865, Trump interrogava-se se Washington e Jefferson não seriam as próximas vítimas do revanchismo dos inquisidores da história, já que os dois founding fathers (se é que os polícias do género ainda nos permitem a designação) também tinham escravos.

Respondeu-lhe um tal Ajamu Baraka, ex-candidato à vice-presidência pelo Partido Verde, dirigindo-se também ao povo: sim, senhor Trump, Jefferson e Washington podiam e deviam ser os próximos. Se era para acabar com os símbolos da supremacia branca, porquê limitar a purga aos confederados?

Na mesma linha, o reverendo Al Sharpton (defensor de causas radicais e autor de edificantes comentários sobre judeus, mormons e outros grupos menos compatíveis coma a sua liberal forma mentis) sugeriu que, para começar, deviam cancelar-se os subsídios federais ao memorial de Thomas Jefferson. Houve também quem propusesse a mudança do nome da capital, apagando o do "escravocrata George Washington".

Este movimento começou há dois em anos em Memphis, Tennessee, com uma campanha para retirar as estátuas do presidente da Confederação, Jefferson Davis, e de Nathan Forest, um militar sulista que teria pertencido ao Ku Klux Klan. Mas havia leis no Tennessee contra a remoção de estátuas.

Dizia então quem se opunha à campanha que remover as estátuas seria um gesto "orwelliano", uma tentativa de mudar o passado e reescrever a história em tudo semelhante às dos nacionais-socialistas, que queimavam livros de autores menos convenientes ideológica e racialmente, ou às de Estaline, que mandava apagar dos retratos companheiros bolcheviques caídos em desgraça. Lembravam ainda que a seguir à guerra civil houvera um movimento de pacificação e reconstrução e que, apesar dos confrontos raciais dos anos 1960 e da destruição de Detroit em Julho de 1967, o país se achava razoavelmente reconciliado. Afinal, Lyndon Johnson assinara a Lei dos Direitos Civis em 1965 e em 2008 um afro-americano fora eleito presidente.

Mas a campanha continuara, para se vir a acirrar em Maio deste ano, com a remoção de quatro monumentos confederados em Nova Orleães, incluindo as estátuas dos generais Lee e Beauregard e do presidente Davis. Há quem diga que se trata de uma manobra destinada a espicaçar a cólera dos "brancos zangados", radicalizando-os e atirando-os para os braços dos movimentos racistas neonazis.

Contra Trump vale tudo

Depois dos esforços para conseguir o impeachment do presidente a partir da famosa "Russian Connection", alguns radicais - secundados por certa imprensa que apostou tudo na derrota de Trump - optaram por uma linha de provocação permanente, multiplicando os pedidos de remoção e os incentivos à vandalização das estátuas, não só dos generais e políticos do Sul mas também, como agora em Baltimore, do conhecido "supremacista branco" Cristóvão Colombo.

Nos inquéritos à opinião pública da Rasmussen, há 90% dos americanos que se opõem ao saneamento de Jefferson e Washington. Estes cidadãos, não só brancos mas também latinos e negros, temem que a campanha sirva para o que está a servir: agravar a divisão dos americanos ressuscitando uma causa que há 150 anos os levou à guerra civil.

De qualquer forma, a máquina infernal está montada: ao comportamento de grupos de esquerdistas radicais, como o Antifa (e dos "supremacistas negros", de que ninguém fala), respondem grupos igualmente radicais de neonazis e de racistas brancos, que se misturam de forma ostensiva nas manifestações da direita patriótica. Tudo isto é explorado por uma imprensa que faz a amálgama conveniente: nazis, racistas, KKK, nacionalistas, republicanos, conservadores, é tudo o mesmo e tudo vai dar a Trump. Daí resulta a ideia de uma América revoltada e ingovernável, onde fervilha uma resistência popular contra o presidente eleito, reencarnação do mal absoluto, réplica alaranjada mas não menos malévola do próprio Hitler.

Nós, por cá, todos bem?

Esta fúria iconoclasta não é inédita. Pode até compreender-se que, a seguir a uma mudança de regime, o povo ou os vencedores chumbem os símbolos do regime anterior. Foi assim com muitas das estátuas dos russos Lenine e Estaline na Europa Oriental; e também em Portugal, onde as poucas estátuas que havia de Salazar foram removidas ou decapitadas.

Mas que diríamos se um grupo de familiares dos Távora, de populares portuenses descendentes dos enforcados da Praça Nova do Porto e de jesuítas menos caridosos fosse agora apear ou conspurcar o Marquês de Pombal? E D. Afonso Henriques, que não era propriamente um liberal? E Nun"Álvares ou D. João II, dois ferozes nacionalistas? E os conhecidos supremacistas brancos Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque ou o esclavagista infante D. Henrique, que se puseram tão a jeito para uma futura remoção ou destruição pelos justiceiros da história?

Não é, no entanto, natural que por aqui semelhante limpeza esteja para breve; pode até ser que os nossos censores domésticos se fiquem só pelo papel, concentrados que ainda estão na descoloração e homogeneização de blocos de actividades para meninos e meninas dos 4 aos 6 anos.

A técnica da amálgama

Seja como for (e pode bem vir a ser mais grave do que imaginamos), a "guerra das estátuas" na América traz uma mensagem de revanchismo histórico que encoraja sentimentos simétricos. Já há direitistas a querer retirar a estátua de Lenine em Seattle e duas das mulheres assediadas por Bill Clinton que prometem tudo fazer para acabar com a eternização em pedra do presidente devasso em Rapid City, South Dakota. A mesma esquerda que evoca e provoca o ódio racial, potenciando a violência de grupos radicais racistas, insiste em juntar numa mesma amálgama os grupos neonazis e todos os que razoavelmente se opõem às insanas purgas de neutralização da linguagem e da história com que se entretém.

Também por cá tivemos em 1974-76 o famoso "nazi-fascismo de Salazar, Franco, Mussolini e Hitler", mas na América de hoje a técnica da amálgama ainda vai mais longe: "nazis, fascistas, racistas, supremacistas brancos, nacionalistas, conservadores, republicanos", tudo o que ouse resistir à fúria iconoclasta que se apoderou da esquerda é varrido na sequência. E do alto da sua superioridade moral, os intelectuais de serviço, tão incomodados quando os talibãs e os jihadistas dinamitaram estátuas e queimaram bibliotecas no Afeganistão ou no Sahel, ficam agora calados - quando não aplaudem.

Alan Dershowitz, professor de Direito em Harvard e conhecido arauto dos direitos civis, veio insurgir-se publicamente contra o movimento Antifa, um agrupamento de esquerda antifascista que se declara anti-racista, anti-sexista, anti-homofóbico, anticapitalista e anarquista, proclamando como método a violência e a acção directa. Dershowitz defende que os americanos progressistas e democratas não devem aplaudir os que derrubam estátuas, acrescentado que o Antifa é um movimento anti--americano e antimercado livre, uma organização radical e censória que quer silenciar os oradores no campus universitário:

"Sou liberal e penso que é, neste momento, obrigação dos liberais falar contra os radicais da ultraesquerda, tal como é obrigação dos conservadores falar contra o extremismo da extrema-direita."

É o que sempre se pede na direita à "direita civilizada", que se distancie dos seus "grunhos", nazis ou outros. Nunca se vê é a "esquerda civilizada" a pedir o mesmo aos seus muitos grunhos.

Escritor e historiador

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