Os "bons" e os "maus" de Homeland: as novas temporadas da colonização subtil

Depois de Narcos e de El Chapo, vi, por atacado, as seis temporadas de Homeland. Fui descobrindo, entretanto, que, com excepção dos da sexta e última temporada disponível (já saiu a sétima mas ainda não está na Netflix), já tinha visto alguns dos episódios, mas tal como as empolgantes peripécias destas séries se esquecem bem, também se revêem bem.

O mote tinha sido dado pelo interminável 24 (com o torturadíssimo Keith Sutherland e aquele cronómetro lá em cima a tictaquear, a incitar-nos a ver só mais uma hora, só mais um episódio, com uma urgência de bomba por desarmar), e grande parte destas sagas norte-americanas altamente populares continuam a focar-se na guerra dos Estados Unidos e das agências americanas de inteligência e contrainteligência, principalmente da CIA, contra o novo terror jihadista. Por isso a CIA, "a Agência", acaba por ser aqui o viveiro de onde saem os heróis - e também alguns vilões.

O "mundo das sombras" nos écrans

A cultura literária e fílmica do moderno entertainment está marcada por este "mundo das sombras" que John le Carré e Len Deighton, entre muitos outros, nos foram revelando ou sugerindo em títulos que marcaram as últimas gerações. O cinema e a televisão trabalharam as suas histórias em imagens: grande parte da obra de Le Carré foi adaptada ao cinema e, em 1974, a BBC fez de Tinker Tailor Soldier Spy uma magnífica minissérie, com Alec Guinness como George Smiley, papel que retomaria em Smiley"s People. Mais tarde, aparecia outra excelente adaptação de The Perfect Spy. A trilogia Berlin Game, Mexico Set, London Match, de Len Deighton, também foi adaptada em 1988 pela Granada Television e, embora renegada depois pelo autor da história, teve alguns bons episódios.

Os norte-americanos herdaram dos ingleses a ficcionalização interessada da história, da sua história, remota e recente, e elevaram-na à enésima potência. E numa época em que só o passado imediato parece interessar, as suas séries populares têm-se descentrado do Vietname para passarem a centrar-se na luta antiterrorista pós-11 de Setembro - com os problemas políticos, policiais e operacionais, e também éticos e morais, que levanta.

Que fazer quando se sabe que uma bomba está a horas ou a minutos de rebentar e que há cúmplices detidos que podem ter informação crítica? Que métodos usar para lhes extorquir a verdade? Há limites? Que limites? Estes temas, que os escolásticos e Maquiavel e os seus discípulos já discutiam, voltam a estar hoje na ordem do dia.

Uma polis democrática como os Estados Unidos convive mal com a razão de Estado que, como império, visível ou invisível, terá sempre de usar. E mais ainda numa era de informação total e fragmentada, em que a opinião de todos sobre tudo conta para a verdade ou para a confusão da verdade.

Homeland, nas suas diferentes temporadas, vai desfiando fases e episódios da luta contra a nova ameaça terrorista: primeiro a chegada de Nicholas Brody (Damian Lewis), o fuzileiro que foi feito prisioneiro pelos terroristas da Al-Qaeda e que possivelmente foi convertido ou "virado" por eles. Carrie Mathison (Claire Danes), a bipolar operacional da Agência, fluente em árabe e que serviu no Iraque, persegue Brody, convencida de que ele é o agente da Al-Qaeda que de facto é. Brody acaba, aparentemente, por se redimir, mas volta depois a ser o suspeito número um do ataque à Agência com que termina a segunda temporada.

Islamofobia

Outras temporadas se vão seguindo, em Washington, em Islamabad, em Berlim, em Nova Iorque. Há um grupo de personagens que também continua - Carrie; Peter Quinn (Rupert Friend), um operacional e natural born killer; Saul Berenson (Mandy Patinkin), o good cop, director interino da Agência; e o "mau da fita", o tenebroso Dar Adal (F. Murray Abraham), o bad cop da CIA.

A série foi acusada de islamofobia por apresentar os muçulmanos como potenciais terroristas e por mostrá-los geralmente como "feios, porcos e maus". Não há dúvida de que a imagem de algumas destas personagens, como o chefe Abu Nazir e os responsáveis iranianos, é muito pouco simpática e que os muçulmanos que depois aparecem na terceira temporada - em que o número dois da Segurança de Teerão é chantageado e "virado" por Carrie e Saul - não são propriamente modelos de virtudes. O mesmo se diga do Paquistão, um país que, durante décadas, tem sido um aliado-chave dos Estados Unidos na região, e que na quarta temporada, passada em Islamabad, onde Carrie chega como chefe de missão, é apresentado como um covil de dúplices malfeitores.

A intriga parte da já muito noticiada e explorada imagem negativa do ISI - Inter-Services Intelligence - que, nos anos oitenta do século passado, foi o grande apoiante dos guerrilheiros anticomunistas do Afeganistão, em colaboração com a CIA e com o financiamento dos sauditas. À volta do ISI - acusado de apoiar e manter ligações com movimentos radicais e terroristas, como os talibãs - teceu-se uma imagem de ambiguidade intencional e dolosa que se consolidou quando da morte de Bin Laden, a residir perto de uma academia militar paquistanesa.

O próprio governo paquistanês reagiu fortemente à série, em que o seu serviço de inteligência militar aparece como cúmplice dos terroristas islâmicos que por ali circulam à vontade, com o beneplácito de alguns sectores do governo e da inteligência militar. Queixou-se também de que as filmagens exteriores (rodadas em Cape Town) continham graves erros topográficos e davam uma imagem negativa e injusta de Islamabad, que, segundo um porta-voz da Embaixada do Paquistão em Washington, era retratada na quarta temporada de Homeland como "um recanto do inferno, uma zona de guerra" onde "os tiroteios, as bombas e os cadáveres aos montes" eram habituais.

Nos episódios em que Carrie, a Drone Queen, ordena um ataque que mata dezenas de civis inocentes que festejam um casamento para apanhar um chefe terrorista que lá estaria, a "má da fita" é uma bela agente do ISI, Tasneem Qureshi, que manipula os colegas e chantageia o marido da embaixadora americana. A ambiguidade é também dominante no comportamento dos políticos e militares de Islamabad, acabando a embaixada americana por ser atacada pelos terroristas e abandonada.

Outro argumento para a islamofobia da série é que Saul, o good cop, é de origem judaica, enquanto o bad cop, o omnipresente director das black operations da CIA, Dar Adal, tem um nome de raiz árabe - Dar significa Cúpula, ou também Paraíso, no Corão.

A vingança contra este "facciosismo anti-islâmico", sobretudo anti-iraniano, veio pela mão de um grupo de artistas de rua, um grupo de graffiters árabes contratados para emprestar realismo à quinta temporada de Homeland. Fizeram-no de forma hiper-realista, denunciando a série como racista nos slogans que pintaram nos muros do cenário do campo de refugiados sírio, dirigido pelo Hezbolah. E os produtores norte-americanos de Homeland, ignorando o árabe, não deram por isso e deixaram passar.

Já na sexta temporada - como forma de compensação ou porque a série é realmente subtil e independente -, cabe aos israelitas a vez de serem os "maus da fita". Aqui, a comunidade de inteligência, através do tenebroso Dar Adal, mancomunado com os agentes da Mossad israelita, conspira claramente para levar os EUA a denunciar os acordos de limitação nuclear com o Irão e a escalar contra Teerão. A presidente - talvez antecipando a "administração Hillary" que muitos anteviam já na Casa Branca, mas mais à esquerda e menos establishment do que a senhora Clinton - quer claramente sair do domínio do Deep State, personificado por Adal, pela Agência e pelos chefes militares, todos em conspiração contra as ideias pacifistas da nova presidente. Carrie, Saul (judeu americano, mas leal à América e não a Israel) e Quinn (agora diminuído, mas quase tão invulnerável como o Frankenstein) tentam desmontar a conspiração e conseguem salvar a presidente eleita de um atentado em que os próprios serviços e os militares estão envolvidos. Aqui os maus israelitas, de conluio com os americanos maus que tentam proteger-se ao mais alto nível, não hesitam em tentar assassinar a presidente eleita.

Ficção e propaganda

Independentemente da qualidade e da maior ou menor subtileza destas séries, nós, portugueses, sabemos o que é ser maltratados na ficção. Na série The Tudors, passada na primeira metade do século XVI mas dando continuidade, em 2007, a uma lenda negra anticatólica de séculos destinada a promover a suposta superioridade civilizacional dos ingleses, uma esplendorosa e sofisticadérrima irmã de Henrique VIII casa com um rei português historicamente inexistente. Como não podia deixar de ser, o rei é velho, coxo, promíscuo, feio, desdentado, sujo e analfabeto e dirige-se em espanhol a uma corte de homens rudes e arraçados e de velhas bruxas; uma corte que inclui o cardeal pérfido e obscurantista do costume.

No entanto, ao contrário do Paquistão, Portugal não reagiu oficialmente. E os artistas portugueses contratados, se os houve, não se lembraram de sabotar a série in loco, como os árabes dos graffiti em Homeland.

Talvez devêssemos reagir como os paquistaneses, e pedir aos produtores de The Tudors (que não se coibiram de denegrir e primitivizar um reino então no apogeu da sua história) uma indemnização pelos danos causados à reputação e bom nome do país.

A ficção, e sobretudo estas ficções, nunca são inocentes, e o soft power da colonização cultural é um poder real - e um poder que, muitas vezes, é organizado, ou pelo menos orquestrado, nacionalmente.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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