O monarca das sombras

A passagem de um ano - de um aniversário nosso ou de um novo ano do calendário - traz sempre propósitos de passarmos a fazer ou a não fazer isto ou aquilo. Talvez porque nos fascinem os números, queremos usá-los como marcos de arrependimento, de mudança ou de redenção, atribuindo-lhes poderes e sentidos mágicos.

Tal como na confissão e no acto de contrição (nos propósitos firmes de emenda mais urgentes e transcendentes que vamos fazendo, sabendo que o ouvinte directo, o confessor, ou remoto, o próprio Deus, passam misericordiosamente por cima da certeza de que a fraca condição humana nos pode voltar a deixar cair em tentação) esperamos, nestes outros propósitos mais mundanos, que o novo ano nos traga a graça de poder recomeçar e de poder mudar.

Por isso na Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2018, renovei um projecto sempre afirmado e sempre esquecido: o de assentar todos os livros que leia e todos os filmes que veja. Este propósito faz parte de um mais abrangente: ir escrevendo um diário, não tanto íntimo, mas mais uma agenda melhorada, com breves relatos das pessoas que vejo, dos acontecimentos em que participo e do que vou lendo e vendo nos livros e nos filmes. Tenho dezenas de cadernos destes, tipo Moleskine, de todas as qualidades, tamanhos, cores e feitios, começados ao longo dos anos. Três, quatro dias, às vezes meio mês, é o que me duram as anotações.

Sem querer fazer do Diário de Notícias o meu Moleskine de 2018, anoto aqui que o primeiro livro que li este ano (acabei-o na manhã de 1 de Janeiro) foi O Monarca das Sombras, de Javier Cercas. Cercas, de que li o famoso Soldados de Salamina, volta aqui a um tema que o ocupa, de forma quase obsessiva: a Guerra Civil de Espanha.

É uma obsessão para Cercas como foi e continua a ser para muita gente. Não sei se por ter sido "a última guerra romântica", ou pelo menos a última guerra em que muitos românticos ou idealistas foram lutar, como voluntários, por valores, ideias, convicções, razões, causas que, para eles, eram mais importantes do que a vida, que punham em jogo na mesa de póquer sintético que são as grandes batalhas. Por isso partiram, sem ninguém os obrigar. E muitos morreram como o herói do novo romance de Cercas, na batalha do Ebro.

Eu também fui obcecado pela Guerra Civil Espanhola. A história da Guerra Civil do Brasillach e de Bardèche deve ter sido dos primeiros livros sem figuras que li, numa tarde de Verão, no sótão da casa de um grande amigo.

Mais tarde passei à ficção. A maioria dos escritores estrangeiros - Hemingway, Malraux, Erico Verissimo, Arthur Koestler, Jean Paul Sartre, Gustav Regler (o "Malraux alemão"), Max Aub - esteve com a Frente Popular, ou pôs os seus heróis do lado republicano ou comunista. Como, ao contrário, fizeram Robert Brasillach e Drieu La Rochelle.

Os espanhóis dividiram-se mais: na direita há a trilogia de José María Gironella, Los Cipreses Creen en Dios, Un Millón de Muertos e Ha Estallado la paz, publicada entre 1953 e 1966 e que li ainda antes do 25 de Abril. Só mais tarde li o belíssimo Madrid, de Corte a Checa, de Agustín de Foxá, e os romances de Rafael Garcia Serrano, autor de La Fiel Infantería e Eugenio o Proclamación de la Primavera, um escritor navarro na linha de Jünger que a democracia transformou num "escritor maldito".

Durante o franquismo e depois, publicaram-se muitas dezenas de títulos de ficção sobre a guerra: desde Réquiem por um Campesino Español, de Ramón J. Sender, a San Camilo, 1936, de Camilo José Cela, e os livros de Arturo Barea, José Luis Sampedro, Francisco Ayala, Ana Maria Matute, António Ferrer, Angel Maria de Lera, Juan Marsé, Jesus Torbado, Martin Vigil, Juan Eduardo Zuñiga, Julio Llamazares, Francisco Umbral e Manuel Fernández Álvarez.

Em O Monarca das Sombras, Javier Cercas retoma o tema da guerra civil, usando um estilo de investigação ficcionada ou de creative non fiction que iniciara em Soldados de Salamina. Este último centrava-se na figura do escritor falangista Rafael Sánchez Mazas que, preso em Barcelona, escapou ao fuzilamento graças a um soldado comunista que decidiu poupá-lo. Agora trata-se de um antepassado, tio-avô de Cercas, Manuel Mena, natural de Ibahernando, na Estremadura, que morreu na Guerra Civil do lado dos nacionalistas e foi consagrado como herói pela família e pela comunidade.

Cercas vai investigar essa lenda familiar e nós com ele. Comecemos pelo título e pela razão do título:

"O monarca das sombras" é a autodesignação de Aquiles na Odisseia, quando Ulisses o visita nos infernos, no reino dos mortos. Aquiles é o grande herói antigo, o guerreiro que morre jovem em combate. Pelo contrário, Ulisses é um outro tipo de herói, o herói sábio, corajoso mas prudente, que procura escapar e vencer todos os perigos porque quer viver, porque quer voltar a Ítaca e a Penélope, a Telémaco, à pátria, à mulher amada e à família. E volta, vence os Pretendentes e morre velho.

Cercas, ao contar a história do seu tio-avô, Manuel Mena, falangista voluntário e alferes de uma Companhia de "Regulares" marroquinos, cuja lenda faz dele um Aquiles, quer descobrir - e acaba por redescobrir - o como e o porquê dessa lenda familiar.

A história desta descoberta constitui a essência do romance, uma peregrinação pela Espanha da monarquia democrática até ao passado da guerra civil, uma peregrinação bem contada, bem escrita, que envolve o autor, a família e os amigos do autor, retratos de hoje e de há muito tempo.

A conclusão - se há uma conclusão - é que a natureza dos homens e das coisas não muda. E que talvez Manuel Mena não estivesse, nos seus últimos dias, possuído da ira do Aquiles da Ilíada; talvez estivesse antes, como o Aquiles "monarca das sombras" da Odisseia, invadido por uma nostalgia da vida e das coisas da vida, de uma vida normal e longa, depois da agitação e da aventura.

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