Novas direitas europeias

O que pensar da política e do papel das ideias na política neste início de 2018, um ano de efemérides importantes, como o centenário do fim da Grande Guerra e o cinquentenário do Maio de 68, acontecimentos carregados de história e de consequências na história?

O mais interessante será talvez o regresso da política ou mesmo do político, em sentido schmittiano.

Passadas quase três décadas da queda do Muro de Berlim e das profecias de Fukuyama, anunciando o fim da história pela globalização da economia e da "democracia ocidental", voltam as questões ideológicas e, para o bem e para o mal, regressa a política como governo dos homens e o político como definidor do amigo e do inimigo.

Os novos césares

Fala-se de Trump, de Putin, de Xi Jinping, como os "novos césares" que se impõem às forças telúricas da globalização financeira, aos novos "anões de Zurique" de todas as teorias da conspiração. Estes césares surgem como há cem anos surgiram outros nas derradeiras páginas de A Decadência do Ocidente, de Spengler: como os homens carismáticos do memento, o que enfrentam as forças mais ou menos ocultas das oligarquias que governam ou querem governar o mundo.

Governam? Não podemos deixar de duvidar que assim seja, quando os vemos e identificamos em Davos, por obra e graça de Klaus Schwab, um suíço pouco importante que se tornou importante quando descobriu um modo de juntar gente muito importante e gente menos importante que paga para estar uns dias junto dos muito importantes.

Governam? No ano passado, traumatizados por Trump, glorificaram Xi Jinping como campeão da globalização; mas neste ano estiveram atentos, quase reverentes, a ouvir o diabo americano explicar-lhes que não era assim tão isolacionista mas que queria a América em primeiro lugar e que eles deviam querer o mesmo para os respectivos países. E que, entretanto, baixara os impostos para os ricos, e que era de aproveitar.

Todos estes novos césares - o americano, o russo e o chinês - levam a sério as fronteiras, recriaram o conceito de economia nacional e não parecem devotos da religião laica da correcção política.

Europa: Leste contra Oeste

É o título da capa da última edição de The Spectator, apresentando um artigo de John O"Sullivan, "The fight for Europe - It"s East vs. West". A tese de O"Sullivan, um católico conservador, é que esta "Nova Europa" política não significa, como afirmam os centristas e esquerdistas apocalípticos, a "morte da democracia", mas a emergência, por via democrática e eleitoral, de novos valores e novas forças políticas, ou de valores e forças que estavam esquecidos que tinham sido reprimidos. Os partidos instalados no sistema, com um coro interessado e alarmista de mandarins e escrevinhadores, vai rotulando estas novas forças de populistas, quando não de fascistas.

É o que acontece com os "quatro de Visegrado" - Polónia, Hungria, República Checa e Eslováquia -, todos vindos de regimes comunistas, onde existem maiorias de governo que são religiosas e conservadoras, preocupadas em manter a identidade nacional, os valores cristãos e uma economia livre mas com responsabilidade social. Em consequência disso, e por reacção a Bruxelas, proclamam-se eurocépticos, nacionalistas e culturalmente identitários. E não estão dispostos a aceitar o controlo de qualidade ideológica e democrática da UE.

Como escreve O"Sullivan, estes centro-europeus vêem-se a si mesmos como a verdadeira Europa: "Uma Europa que valoriza o Estado-nação, a família, a prudência, a religião cristã, a democracia maioritária", e que vê como ecos mais autênticos da tradição europeia. Por isso, as suas contendas com Bruxelas não são entre antieuropeus e pró-europeus mas entre duas maneiras de pensar e de interpretar a Europa e o que é ser europeu.

Esta posição é essencial para definir o futuro da política na Euro-América e representa uma mudança nos padrões ideológicos, que, até 1990, eram marcados e condicionados pela Guerra Fria e pelo dualismo Ocidente-Bloco Soviético. Este condicionamento determinava o leque político europeu, onde havia, de um lado, os partidos comunistas ligados ideologicamente (e às vezes até logisticamente) a Moscovo e, do outro, os partidos moderadamente conservadores (democratas--cristãos, liberais e conservadores stricto sensu) e moderadamente progressistas (socialistas e sociais-democratas). Nas franjas, estavam os comunistas não soviéticos e agitava-se, à esquerda e à direita, toda uma colecção de fantasias retórico-radicais, geralmente inofensivas.

Outros valores, outras direitas

Vemos hoje que não se cumpriu a profecia da globalização democrática anunciada por Fukuyama: novos problemas, novos movimentos, escaparam à bipolarização prometida entre os centros - um mais puxado à direita, outro mais puxado à esquerda. O individualismo, o economicismo e o laicismo das sociedades europeias trouxeram uma crise demográfica sem igual, ao mesmo tempo que a crise económica e social na África do Norte e a fragmentação do Médio Oriente, derivada da conflitualidade local e das intervenções exteriores, multiplicou o número de imigrantes e refugiados no território da União Europeia, pondo na primeira linha as questões identitárias. A globalização sem limites continuou a deslocalizar indústrias e empregos e a concorrência da imigração ilegal trouxe salários mais baixos. E o terrorismo jihadista surgiu entre estas levas de migrações, com ataques de grande espectacularidade.

No meio de todas estas crises, na Europa e nos Estados Unidos, os políticos do mainstream foram tendo respostas de retórica simpática e consensual mantendo, praticamente inalterada, uma mensagem panglossiana do melhor dos mundos.

As reacções vieram da esquerda, com os Podemos e os Syriza, mas foram mais fortes à direita. E foi a subida do Front National, até se tornar o partido mais votado de França, com Marine Le Pen na segunda volta a receber 34% dos sufrágios. E foi, por toda a parte, a subida dos partidos identitários, eurocépticos e conservadores em matéria de costumes. E são agora os governos dos quatro de Visegrado e da Áustria.

São novas direitas que defendem valores cristãos, nacionais, familiares, que não endeusam a economia nem se deixam assustar - ou sequer influenciar - pelos policiamentos intelectuais em vigor.

Chamam-lhes, por agora, populistas, ou até fascistas. Mas parece que eles não se importam muito com isso. Cada vez menos.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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