"Meninas" e "meninos" do meu Porto

Lisboa, 2017. Aconteceu numa caixa de supermercado, a primeira vez que senti a falta do meu Porto. A "menina" não me lançou uma nota qualquer sobre o tempo que fazia lá fora (muito chuvoso, para um mês como maio) nem comentou a promoção de papel de cozinha que eu estava a aproveitar. Um a um, cada artigo ia acionando o bip na leitura de código de barras da caixa, à medida que eu enchia o meu saco e pensava como aquela "menina" (como chamamos lá no meu norte, quer a "menina" tenho 8 ou 80 anos) jamais saberia sequer de que cor eram os meus cabelos. Nunca levantou a cabeça e eu nunca lhe soube a cor dos olhos.

O momento repetiu-se. Mas lá, no meu Porto, não é nada assim - perdoem-me. Lá, qualquer balcão - seja de loja, restaurante, café ou rulote - tem um abraço do outro lado. Umas vezes quente: "Bom dia, menina! Vai um cafezinho?" Outras mais grosseiro: "Oh, vai-me à loja!", se avançamos com um disparate. E eu juro que o café sabe melhor só por nos sabermos de cor: a pressa, o penteado diferente naquele dia e o olhar mais ou menos alegre. Não importa quão boçal possa terminar a fonética do "dia" no "bom dia".

O Porto é mãe, que nos manda tirar os pés do sofá e nos cozinha canja numa noite de gripe. Lisboa não. Lisboa dá palmadas nas costas e primeiro desconfia. O Porto não pede licença e chego a temer não ter tanta poesia para o quão bem lhe caem todas as estações. Lisboa, que não deixa de ter a sua simpatia - mais selecionada e recôndita, é certo -, nem pede licença. Equaciona os custos e os ganhos dos abraços e, se acontecem, duvida sempre. Por isso, faz frio na capital, mesmo com mais dias de sol e menos dias de quispo. O inverno não lhe cai bem, porque não nos sabem de cor, aquelas "meninas" e "meninos" dos supermercados, cafés e lojas. Mas uma coisa Lisboa tem: dá-nos o fado e a poesia toda para entender e saudar o Porto. "Menina", tenho cabelos escuros.

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