Ladrões de Bicicletas: a realidade a preto e branco

Os tempos de decadência, de confusão e pobreza de ideias trazem-nos fatalmente - e às vezes perigosamente - a nostalgia de outros tempos.

A primeira vez que vi os Ladrões de Bicicletas foi numas termas em Entre-os-Rios, teria uns 6 anos. Não sei que marcas então me deixou, porque o fui vendo ao longo dos anos, mas algumas terá deixado. O que vemos e fazemos na infância reveste-se de uma luz, de um impressivo preto e branco que depois vamos dourando ou denegrindo.

Mas os perigos e as armadilhas da nostalgia, tantas vezes doentio caminho para a autocontemplação narcisista, autocomiseração ou fuga à realidade, não nos podem fechar à fecunda nostalgia estética e ética que vem da comunhão com obras - livros e filmes - que marcaram e marcam as nossas vidas. Obras que nos arrancam do quotidiano para o cimo de um monte - "lugares onde sopra o Espírito", diziam S. Paulo e S. João da Cruz ou o agnóstico Maurice Barrès - não para fugir à realidade mas para alcançar um longe ou distância que nos confrontem com o essencial.

Foi essa a nostalgia que senti ao ver, pela quarta ou quinta vez, Ladri di Biciclette, de Vittorio de Sica e Cesare Zavattini. Convidou-me um amigo que, para recordar um pai cinéfilo, resolveu levar ao cinema um grupo de familiares e amigos; um filho que quis voltar a "ir ao cinema com o pai" e que fôssemos com ele. Percebi bem o sentido da memória e do gesto. Há uns anos morreu um amigo meu, realizador de cinema, e além de lhe rezar por alma, também fui ao cinema, por ele e com ele, ver o último filme que tinha rodado.

Ladrões de Bicicletas é, muito apropriadamente, um filme de pai e filho; um desses tratados sobre a condição humana, a fragilidade do heroísmo e a irmandade na pobreza e na queda, que nos confrontam com encontros e desencontros - entre pais e filhos, ladrões e heróis, rótulos e verdades fundas, dignidade e humilhação, culpa e perdão.

Sob a luz mágica do preto e branco, Ladrões de Bicicletas leva-nos numa viagem poética e trágica pela Roma dos anos de chumbo - ainda com a devastação dos bombardeamentos aliados e as feridas abertas de uma guerra perdida, seguida de guerra civil. É o périplo de um homem e do filho pequeno em busca de uma bicicleta roubada, que, para o protagonista, Antonio Ricci, é condição de acesso à dignidade e ao pão de cada dia e que por isso assume as proporções de um graal.

O neo-realismo traz nomes sagrados - De Sica, Rosselini, Visconti, Fellini. Na sua admirável memória do cinema italiano - Viaggio in Italia, My Voyage to Italy (1999) -, Martin Scorsese passa por todos com a ternura e admiração de um filho ou discípulo grato. De Sica, Rosselini e Visconti já tinham feito filmes no tempo do fascismo. Entre 1942-43, antes da trilogia pós-guerra (Roma Cittá Aperta, Paisá e Germania Anno Zero), Rosselini produzira uma trilogia bélica (La Nave Bianca, Un Pilota Ritorna e L"Uomo della Croce) e Visconti dirigira Ossessione, (adaptado do romance de James McCain O Carteiro Toca sempre Duas Vezes, 1934). De Sica era actor desde 1932 e estreara-se a realizador em 1939. Este filme é de 1948 e estreou-se em Portugal em 1950.

De Sica foi um dos pioneiros do tema da relação entre homens e filhos homens, relação feita de reservas, pudores, silêncios e incompreensões, mas também de comunhão, de ternura e de cumplicidade.

Como o Kid do Charlot, o filho pequeno do protagonista de De Sica, o desempregado Antonio Ricci, segue o pai na demanda, tentando seguir-lhe as pisadas, sempre em passo de corrida, sempre olhando para cima, sempre sondando o pai-herói na aventura da procura e na tragédia. Só na queda, com o pai no chão, acusado por todos, o vai olhar pela primeira vez de cima para baixo, num pranto desnorteado.

A história começa numa periferia de habitações sociais, de casas populares inauguradas nos anos 1930, na zona de Val Melaina, bem longe da Roma imperial e festiva do vinténio mussoliniano, da cidade aberta e dilacerada de Rosselini ou da Roma recriada por Felini. Ali, na agência de emprego, Antonio (Lamberto Maggiorani) consegue um lugar de colador de cartazes para o qual é exigida uma bicicleta. A mulher decide empenhar os lençóis para levantar a bicicleta de Antonio do prego. Na casa de penhores, os lençóis dos pobres e dos aflitos amontoam-se até ao tecto.

O novo local de trabalho do orgulhoso colador de cartazes, a quem é dada a dignidade de uma farda, um boné e um escadote, fica já no centro histórico, esquina da Via del Corso com a Via Montecatini. Mas Antonio é roubado a colar o primeiro cartaz (uma Rita Hayworth gigantesca e sedutora, em Gilda) e persegue o ladrão pelo cruzamento da Via Francesco Crispi com a Via del Tritone até lhe perder o rasto no túnel. Depois, começa a busca, primeiro com a patética ajuda dos amigos no mercado informal da Piazza Vittorio, onde se vendem bicicletas às peças, depois num outro mercado, em Porta Portese. É lá que Antonio descobre o ladrão a falar com um velho. O ladrão foge e pai e filho correm atrás do velho até à Igreja Santi Nereo e Achilleo, perto das Termas de Caracalla, já na periferia. Na sacristia da igreja, há um serviço voluntário de barbearia para antes da missa e sopa dos pobres depois, servida por cavalheiros e senhoras da sociedade, todos de impecáveis aventais brancos. Bruno cobiça a sopa mas segue com o pai na perseguição. O velho denuncia o ladrão e diz-lhe onde mora. Entretanto, Antonio perde o filho de vista e corre desesperado pela margem do Tibre, sob a Ponte Duca d"Aosta, perto da Ara Pacis, pensando que se poderá ter afogado.

E da periferia voltamos ao centro histórico para as cenas finais: Antonio, já com o filho, encontra o jovem ladrão que foge e se esconde numa casa de alterne no Vicollo delle Capannelle, entre prostitutas em intervalo de almoço. Escapa-se depois para casa da mãe, no Vicollo della Paglia, onde entra atrás dele. Olha em volta e ouve a mãe do larápio: a casa é tão pobre como a dele e a miséria é a mesma. Os vizinhos do ladrão protegem-no e Antonio é expulso pela força, mas resolve não apresentar queixa à polícia.

É domingo. Derrotado e desolado, Antonio Ricci e o cada vez mais angustiado Bruno vão ter ao Estádio Nacional, onde, no fim do jogo, milhares de bicicletas estacionadas são recolhidas pelos adeptos eufóricos. No bulício alegre do fim da tarde, a solidão e a tragédia de Antonio tornam-se mais densas. E vem a tentação: bem próximo, encostada a uma porta, no cruzamento da Via Flaminia com a Via Pitro di Cortona, está uma bicicleta. Aparentemente o dono está longe. Pronto a ceder à tentação, Antonio dá a Bruno dinheiro para o eléctrico e manda-o para casa. Julgando-se longe do olhar do filho, rouba a bicicleta e desata a pedalar; mas o dono volta subitamente: "Ladrão! Ladrão!", e todos se precipitam na perseguição do novo ladrão de bicicletas. Deitam-no ao chão e quando estão quase a linchá-lo param ao choro do pequeno Bruno, que, tendo perdido o eléctrico, se deixara ficar para trás. Levam então Antonio para a esquadra, mas a vítima, um homem maduro com ar de pequeno burguês, vendo o desesperado choro do filho, não apresenta queixa contra o pai e manda-o em paz.

Bruno segue para casa ao lado do pai, num silêncio denso. Caminham devagar, a par e passo, e o pai dá-lhe a mão, numa cumplicidade de depois da queda, num encontro além quedas e desencontros feito já de compreensão, perdão e autoperdão.

Ladrões de Bicicletas é uma memória de muitas coisas e um monumento vivo a outras - ao cinema italiano e aos seus grandes, a Roma, cidade única, e aos romanos destes anos, em que a "doce vida" de uns servia de álibi à vida amarga da maioria. Mas é, sobretudo, um hino à condição humana na sua crueldade e injustiça, no orgulho e preconceito mas também na generosidade e sede de comunhão, na humildade e entrega - e na demanda da verdade funda das pessoas e das coisas. Uma história e um filme únicos. Um lugar onde "sopra o vento" ou onde, na distância de um luminoso preto e branco, todos nos vemos naquele filho e naquele pai.

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