Jerusalém

Jerusalém" é um poema de William Blake, belo e esotérico, como quase tudo o que Blake nos deixou em palavras e imagens. Começa com uma interrogação:

And did those feet in ancient time

Walk upon England"s mountains green

Teria o Cordeiro de Deus, entre os 12 e os 30 anos, anos mudos ou perdidos nos Evangelhos, pisado o verde chão de Inglaterra pela mão de José de Arimateia?

O poema faz parte do prefácio a Milton: a Poem in Two Books, que integra os Prophetic Books de Blake, um texto fragmentado e de difícil interpretação, muito ligado à mitologia pessoal do poeta, uma espécie de saga, em que Jerusalém é, ao mesmo tempo, uma cidade e uma mulher, uma cidade concreta e uma cidade ideal, Jerusalém e Nova Jerusalém. O poema, escrito em 1808, foi musicado em 1916 por Sir Hubert Parry e tornou-se uma espécie de hino informal de Inglaterra, a Nova Jerusalém que Blake queria ver edificada sobre os "Satanic mills" da nefasta revolução industrial inglesa.

E este é só um dos passos em volta do enigma de Jerusalém, lugar sagrado e mítico, por excelência, cidade do rei David, da paixão e morte de Cristo e da viagem nocturna e da ascensão do profeta Maomé ao céu.

É a cidade sagrada que David conquistou e onde Salomão edificou o Templo e que depois - na narrativa bíblica do Livro de Samuel e do Livro dos Profetas - foi sitiada, conquistada, saqueada por assírios e caldeus. Já historicamente, foi cercada e tomada por Tito, ocupada pelos muçulmanos, conquistada pelos cruzados, que ali estabeleceram um reino efémero, o "reino dos Céus" (evocado no filme de Riddley Scott), e outra vez retomada por Saladino e negociada pelo grande Frederico II de Hohenstaufen, na sua cruzada diplomática.

Dormiu depois no império turco, até que um general compatriota de Blake, Allenby, a ocupou em 1918. Desde então, esteve no centro do drama médio oriental, de judeus e árabes; dividida até 1967 entre um sector Oeste israelita e judeu e um sector Leste jordano e árabe. Foi então ocupada na totalidade pelos israelitas. Hoje tem 850 mil habitantes, um terço dos quais são palestinianos pobres e marginalizados, concentrados na parte oriental.

"Se me esquecer de ti, Jerusalém, fique ressequida a minha mão direita!" Salmo 137 (136)

Donald Trump não a esqueceu, mas não sei se a lembrou da melhor maneira, ao decidir, na semana passada, que os Estados Unidos iriam mudar a Embaixada de Telavive para Jerusalém. Era uma promessa que os seus três predecessores (Clinton, Bush e Obama) também tinham feito em campanha, pensando no lóbi judeu e no eleitorado evangélico, mas de que depois se tinham "esquecido".

Ora Trump, que tem vindo a tentar cumprir todas promessas, as boas e as más, decidiu cumprir mais esta, num acto que parece contraproducente perante os dados e os factos da equação política médio oriental e a sua própria política para a região. É que o presidente americano, além de ter afirmado e confirmado o seu interesse em aplicar-se na paz na região, para onde enviou o genro Jared Kushner, de uma família de judeus ortodoxos e ricos de Nova Iorque, parecia ter outra ideia: reforçar o eixo com os sauditas, os egípcios, os jordanos e alguns Estados dos Emiratos para um plano de pacificação.

O plano começava com a reconciliação no centro da Autoridade Nacional Palestiniana do governo de Abbas com o Hammas, que foi, aparentemente, mediada com sucesso pelos egípcios. Depois, deveria avançar-se para o esquema dos dois Estados independentes, acabando com bantustões árabes e colonatos israelitas, o que era, em boa lógica, a mais racional das soluções. Mas nem sempre a razão domina.

Na decisão de Trump pesou mais a política interna e a preocupação primeira de satisfazer e manter o núcleo duro dos seus apoiantes, como os cristãos evangélicos; tanto que, na declaração, quis ter a seu lado o vice--presidente Pence, o homem que fez a ligação com os grupos religiosos conservadores, para quem Trump não é, ou pelo menos não era até 2016, um modelo de virtudes. Mas do ponto de vista externo e de uma realpolitik de objectivos - e os Estados Unidos não podem abandonar um Médio Oriente que a invasão do Iraque por George W. Bush e a política errática de Obama ajudaram a partir e a degradar - a América não ganha muito com a "boa-nova"... Além da cólera dos palestinianos e da condenação da maioria dos países europeus e do próprio Papa Francisco, deixa os aliados das monarquias sunitas e do Egipto numa situação muito embaraçosa, eles que disputam com o Irão xiita a hegemonia da zona.

Também os judeus americanos estão divididos: enquanto os grupos de direita, como o Republican Jewish Coalition e a Zionist Organization of America, o Simon Wiesenthal Center e a International Fellowship of Christians and Jews aplaudiram incondicionalmente a decisão, as organizações mais ao centro ou mais à esquerda, como a Union for Reform Judaism, o Jewish Democratic Council of America, o grupo J Street e o New Israel Fund, puseram reservas ao tempo escolhido ou condenaram--na declaradamente, considerando--a perigosa para a paz na região.

Tentando uma síntese entre estas tendências, o rabi Rick Jacobs, presidente da União para a Reforma do Judaísmo, comentou: "Apesar de partilharmos a convicção do presidente de que a embaixada dos Estados Unidos deve, no tempo certo, ser transferida de Telavive para Jerusalém, não podemos apoiar a sua decisão de anunciar esse movimento agora sem um plano integral de paz."

Para o senador judeu Bernie Sanders, o rival democrata de Hillary Clinton na nomeação presidencial, a decisão "vai minar dramaticamente as perspectivas para uma paz israelo-palestiniana e vai seriamente, ou mesmo irremediavelmente, prejudicar a capacidade americana para a mediar".

O Patriarca Teófilo III da Igreja Ortodoxa Grega fala em "dano irreparável" para a pacificação do Médio Oriente e o Papa Francisco pede "sabedoria e prudência", lembrando que Jerusalém é uma cidade única, sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos.

Na frente política, chineses, russos e europeus mostraram-se, em geral, críticos, e o presidente turco, Erdogan, chegou até a invocar a possibilidade de um corte de relações diplomáticas com Israel.

Perante a violência desencadeada pelos palestinianos e os clamores mundiais, só posso concluir, com o Papa Francisco, que aqui Trump foi pouco sábio - e muito pouco prudente.

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