Ganhaste Zé. E nós ganhámos contigo

Estávamos lá todos por ele. Uns a fingir que não sabiam do segredo mais mal guardado do rock nacional, outros a não querer perceber o que Tim dissera no Expresso desse sábado - tinham feito toda a digressão sem saber se o Zé Pedro a aguentaria até final. Nessa noite, no Coliseu de Lisboa, vimos todos que estava doente, muito fraco, a lutar para aguentar a guitarra pendurada aos ombros, para acompanhar as músicas que há décadas temperava com riffs, com o rock n’roll que fez dos Xutos a maior banda do país. Nessa noite, o Coliseu não encheu pelos Xutos. Nessa noite, gritou-se pelo Zé. E o Zé agradeceu. No palco levantou-se para a vénia, no dia seguinte avisou o Mundo que sim, que enfrentava a luta da vida, que ia lutar e que era para ganhar. Ganhou. Da última visita ao Coliseu não guardarei nenhuma imagem. Apenas os gritos de quem, como eu, chamava por ele. Para sempre, ficarei com a imagem do cabelo desgrenhado, do lenço vermelho amarrado à perna, dos pulsos cheios de pulseiras e, consoante a década, dos dedos enfeitados com anéis, sempre poisados na guitarra essa, naturalmente, descaída até perto dos joelhos - bem no sítio onde dita a etiqueta do rock. Por cá foi ele quem a escreveu. Fez o país saltar, cantar, fez-nos sorrir, quanto mais não fosse por contágio. O Zé Pedro estava sempre a rir e sempre a ganhar. Ganhou fãs em todo o lado, esgotou estádios, coliseus e arenas, ganhou até na despedida - de frente para um Coliseu cheio por ele. E nós, os fãs e os outros, ganhámos também. Ganhámos os hinos de que todos sabemos as letras, ganhámos horas de punhos cerrados em cruz, ganhámos a maior banda que por cá alguma vez tínhamos visto, ganhámos rock num país cronicamente aborrecido, ganhámos atitude, ganhámos vontade de sorrir. Hoje não será fácil, mas amanhã voltaremos a carregar no play e a lembrar-nos do sorriso do Zé. Ganhaste, mas vais fazer falta.

Jornalista

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