G20: as "Nações Unidas dos ricos" em novo ciclo

1 O G20 é um exercício típico de um tempo de mudança e volatilidade na ordem internacional. Depois da primeira década do pós-Guerra Fria, uma década de clara expansão do modelo liberal democrático e da hegemonia norte-americana; depois do ataque da Al-Qaeda aos Estados Unidos e da vaga conflitual e securitária decorrente, com a fragmentação do Médio Oriente e a expansão do terrorismo jihadista, entrámos num novo ciclo.

2 Este novo ciclo começou na Primavera de 2016, com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, os mais velhos Estados constitucionais do mundo, a restaurarem uma linha nacionalista, proteccionista e identitária, tendência que também se fez sentir no continente europeu, onde os partidos nacionalistas e eurocépticos não pararam de crescer.

3 Outra característica do tempo é o reforço das tendências autoritárias, personalizadas em líderes como Putin e Erdogan. Também na Hungria e na Polónia se levantaram barreiras às políticas de emigração da União Europeia, sob as críticas e as acusações do mainstream mediático às forças "populistas" e aos partidos identitários que contrariavam Bruxelas, e a todos os que na Europa Central e de Leste têm vindo a contribuir para o decréscimo acelerado do "índice democrático".

4 Numa época de acentuada volatilidade ideológica e económica, os poderes dos Estados variam também rapidamente. Perante a proverbial inoperância das Nações Unidas, que aumenta e aumentará com o aumento do número de membros e correspondente fragmentação, um clube como o G20 - versão aumentada do G7 ou G8 - não pode querer ser um sucedâneo do utópico "governo mundial", nem mesmo um directório ou sequer um "clube de notáveis" do tipo "Nações Unidas dos ricos". De resto, desenvolvem-se dentro do grupo as mesmas contradições - ideológicas, geopolíticas, geoeconómicas - que afectam o resto do mundo: democráticos versus autoritários; globalistas versus nacionalistas; ricos versus remediados.

5 Por isso, o G20 só pode servir para os encontros bilaterais e as agendas próprias dos que lá vão.

Foi o que aconteceu em Hamburgo: Putin pôde esclarecer cara a cara a sua relação com Donald Trump. Os dois "homens-fortes" discutiram muita coisa, a começar pelo folhetim do envolvimento da Rússia nas eleições americanas. Que Rússia? O governo? Os serviços? Hackers da sociedade civil? Dedicaram duas horas a isto.

Claro que Putin negou qualquer envolvimento. E Trump, que em Varsóvia apelara à identidade, à unidade e à "vontade de sobrevivência" do Ocidente, parece ter aceitado como boas as declarações de Putin, passando à negociação da decisão bilateral de um cessar-fogo parcial na Síria. Putin também usou a passagem por Hamburgo para divulgar no Handelsblatt um apelo aos empresários alemães em favor do comércio livre e contra as sanções que a América e a União Europeia impõem à Rússia (e que pretendem agravar) por causa da sua política na Ucrânia e no Báltico.

6 Estas assembleias ad hoc dos países ricos são um lugar de networking para os seus líderes políticos, uma espécie de Davos institucional. Têm também servido para que os militantes das esquerdas utópicas exprimam a profundidade das suas convicções democráticas e pacíficas. Desta vez, numa escalada de violência sem precedentes, os manifestantes incendiaram automóveis e casas, saquearam lojas e atiraram pedras e cocktails molotov contra a polícia, ferindo mais de 200 agentes. "Bem-vindos ao inferno", era o slogan dos activistas, enquanto ateavam as chamas.

Os grandes alvos dos manifestantes eram Trump, Putin e Erdogan e também a globalização e o domínio da política pela economia - curiosamente, as mesmíssimas coisas contra as quais lutam os três visados.

Escritor e historiador

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