França, entre a radicalidade e a ambiguidade

Depois de confirmadas, na segunda-feira, a continuação de François Fillon na campanha e a não intervenção de Alain Jupé, a equação da eleição presidencial francesa é simples: Marine Le Pen, segundo a unanimidade das análises e sondagens, passa sempre, destacada, à segunda volta. E, por enquanto, perde sempre na segunda volta contra qualquer um dos possíveis segundos classificados: Emmanuel Macron ou - cada vez menos - François Fillon.

Le Pen: ganha a primeira, perde na segunda

Ou seja, condicionados pela lógica do sistema francês a duas voltas, Macron e Fillon têm de lutar pelo segundo lugar na esperança de que, no duelo final, os sentimentos anti--Le Pen, anti-Front National, "antifascistas", cozinhem uma "união republicana" que lhes dê a vitória.

Nas sondagens dos vários institutos, Marine Le Pen na primeira volta conta entre 26% e 27,5% das intenções de voto; Macron segue-a, entre 20% e 24%; Fillon entre os 17% e os 20%. O candidato da esquerda socialista, Benoît Hamon, vem muito atrás, nos 15%. O comunista Mélenchon, a seguir a este, com 11%.

Nas simulações da 2.ª volta, Le Pen perde sempre: 55%/45% contra Fillon, 60%/40% contra Macron. Isto embora, segundo uma sondagem IFOP, 61% dos franceses achem que ela pode ser eleita. O que não quer dizer que queiram.

Antes de rebentar o caso Penelopegate (do emprego fictício da mulher de Fillon no seu tempo de deputado), os cenários pareciam relativamente estabilizados. Le Pen passava em primeiro lugar, Fillon em segundo e depois Fillon ganhava por larga margem.

Agora, os concorrentes de Le Pen lutam entre si para, na volta final, terem o benefício da "unidade antifascista", que em 2002 levou um gaullista de direita, Jacques Chirac, a ser eleito com mais de 80% dos votos contra Jean-Marie Le Pen.

A possibilidade de uma unidade de esquerda - desistência do candidato comunista Jean-Luc Mélenchon para o socialista Benoît Hamon - poderia alterar estes jogos e configurar um duelo Hamon-Le Pen. A ser assim, e dado o utopismo do programa económico de Hamon, Le Pen podia ganhar. Mas Mélenchon recusa-se a desistir.

Neste momento, considerando os embaraços de Fillon, que entretanto se mantém na corrida, e a aparente resistência da esquerda radical em unir-se numa só candidatura, o desfecho mais natural parece ser um duelo Le Pen-Macron.

Macron e a ambiguidade

Difícil encontrar duas personalidades mais diferentes. Marine Le Pen, todos sabem quem é e o que quer: é nacionalista, eurocéptica, identitária, proteccionista. Quer a política a mandar na economia e pôr travões à globalização através da preferência nacional. Aceita no máximo uma "Europa das Nações" e, pela primeira vez, declarou em entrevista ao semanário Valeurs Actuelles que a França poderia "continuar" numa "Europa de Nações Livres", isto é soberanas. Parte destas posições são de Jean-Marie Le Pen, mas em termos de valores familiares, costumes, laicismo, Marine adoptou uma linha mais progressista e republicana. E chega aos 27% das intenções de voto, passando os 40% na segunda volta.

Macron não se sabe bem o que é e o que quer. Joga, claramente, na ambiguidade, o que não deixa de estar de acordo com o seu percurso pessoal e político. Procura um centro simpático, através de uma mensagem que pretende ser original e optimista, com a nova velhíssima etiqueta de "não ser de direita nem de esquerda." Está entre a esquerda caviar e a direita dos interesses, com tiradas controversas sobre a colonização e a redução da função pública, não muito surpreendentes num homem que veio do Banco Rothschild para ministro da Economia de François Hollande.

Macron apareceu, à partida, sem programa, sem partido, sem passado. Um fenómeno à Trump, mas em vez do americano intranquilo e agressivo, guiando o white trash e as classes médias zangadas, o jovem enarca, com ares de galã de telenovela argentina, procura ser o pai e o mestre de todos os afectos, dizendo que "há do bom e do mau à esquerda e à direita (...) se só ficarmos com o que "é bom dos dois lados, a França vai dar o melhor de si mesma"".

Isto é simpático, lapalissiano e patético como mensagem política, num país onde os problemas são o terrorismo, a insegurança, o desemprego, a imigração não europeia, os conflitos interculturais. No entanto, a par disto, e procurando uma definição política para agradar à esquerda e aos eleitores magrebinos, Macron classificou a colonização francesa da Argélia de "crime contra a humanidade". E para agradar à direita afirmou, noutro contexto, que os opositores ao casamento homossexual tinham sido humilhados na presidência de Hollande.

Perante as fúrias desencadeadas pelos pieds-noirs em Toulon e pelos lobbies LGBT, acabou a pedir desculpas a uns e a outros. No meio destas confusões recebeu o apoio e a desistência do "centrista" François Bayrou.

A terceira volta

"On ne sort de l"ambiguité qu"á son detriment", dizia o cardeal de Retz, famoso por estas e outras tiradas cínico-realistas. Mas a era da ambiguidade, que reinou e dominou no Ocidente nas últimas décadas, parece estar a acabar. O destino de Macron depende do tempo que resta à ambiguidade como passaporte para o sucesso.

E não se esqueça que, em Junho, as legislativas são a terceira volta, final, do ciclo eleitoral francês. E que o Front National é, agora, o primeiro partido de França, e os republicanos e socialistas, seja qual for o resultado de Maio, saem divididos das presidenciais. Isto poderá significar, segundo alguns observadores, entre 40 e 80 lugares para a FN no futuro Parlamento. E uma enorme dificuldade para o novo presidente eleito - seja quem for - fazer governo.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG