França: a voz do povo

1 Desta vez as sondagens acertaram, apesar das margens de erro envolvidas numa corrida que levava à frente quatro candidatos relativamente próximos. Mas os favoritos, Emanuel Macron e Marine Le Pen, ficaram à frente - e pela ordem que se previa.

2 Também como se esperava, o eleitorado rejeitou os dois grandes partidos do sistema - os socialistas do PS e os direitistas de Os Republicanos. Benoît Hamon sofreu uma derrota humilhante mas normal: ideologicamente aproximava-se de Jean-Luc Mélenchon em muitas coisas e como Mélenchon era mais do que ele e vinha de fora, o eleitorado de Hamon foi-se esvaziando à esquerda para Mélenchon e à direita, em voto útil, para Macron.

3 Socialistas e republicanos, que dominam a Assembleia Nacional com 491 deputados (cerca de 90%), não conseguiram levar os seus candidatos à segunda volta e, juntos, ficaram-se por 26% do eleitorado. Assim, os dois partidos saem das presidenciais divididos e em mau estado: os republicanos entre Fillon, Juppé e Sarkozy: os socialistas com uns míseros 6%, resultado vergonhoso para quem tem a maioria absoluta no Parlamento.

Em contrapartida, os dois candidatos que passaram com 45% dos votos, Macron e Marine, têm, ela, dois deputados e ele, nenhum. A situação só se vai esclarecer nas eleições de Junho - a "terceira volta".

4 Ainda que Hamon e o PS sejam os grandes derrotados, François Fillon não lhes fica atrás. Tinha tudo para ganhar - um programa de direita conservadora, reformista, católica, suficientemente eurocauteloso para não afastar os eurocépticos mas sem rupturas para não incomodar o sistema. Dava aquele tom de direita moderada e pró-mercado que lhe permitia o apoio dos conservadores e dos centristas inquietos com as derivas radicais. Mas comprometeu tudo com o caso "empregos-fantasma". Um político conservador que prega a honestidade e pede austeridade não pode ter desses pecados na bagagem. Os correligionários culpam-no da derrota de Os Republicanos e, para completar o serviço, acabou a apelar ao voto em Macron.

5 Mais coerente, Jean-Luc Mélenchon anunciou que ia consultar os partidários sobre o que fazer em relação à segunda volta. Não se mostrando "dono dos votos", como Hamon e Fillon, remeteu, por agora, para a consciência dos eleitores a decisão de 7 de Maio.

6 Mas o mais interessante e importante talvez não se decida no dia 7. Macron, o europeísta e globalista, vai servir de candidato de recurso a todos aqueles que temem o desconhecido e a "extrema-direita". Como escreve Rui Ramos no Observador, Macron "é apenas o cartaz de ocasião, calculado para agradar ao eleitorado, da elite dos diplomados das grandes escolas que dominam o regime. Não é de direita nem de esquerda". Será que chega? É capaz de chegar, pois todo o sistema vai fazer frente contra Marine Le Pen, como fizeram em 2002 contra o pai Le Pen. Só que agora não é bem a mesma coisa: os cenários mudaram e as pessoas também. Depois do brexit e de Donald Trump, depois da crise financeira de 2007-2008, com o Daesh no Norte de África e às portas e dentro da Europa, o discurso rigorosamente ao centro do "nem sim nem não" já não serve. Vai passar como mal menor mas já não serve.

7 O que pode Marine Le Pen ir buscar aos eleitores dos outros candidatos? Os eleitores do gaullista, soberanista e eurocéptico Dupont-Aignan não estarão longe do programa da FN em termos de Europa. Também parte do eleitorado de Fillon - conservador tradicional e patriota - poderá votar Le Pen; todos os outros já passaram, ou vão passar, para Macron. E muitos, talvez a maioria, vão abster-se.

8 Quanto aos eleitores de Mélenchon, também é natural que se dividam: o eurocepticismo e a defesa do Estado social podem empurrá-los para a candidata do Front National; enquanto um reflexo ideológico de "antifascismo" empurrará outros para o voto útil em Macron: "Rassemblons--nous pour lui barrer la route", titula o L"Humanité, o jornal do PCF.

9 Lógica curiosa, a dos comunistas: segundo as conclusões pós-eleitorais do Instituto BVA, Marine teve a melhor votação entre os operários (45%), os eleitores de baixos rendimentos (30%) e é a mais votada na geração dos 35-49 anos (27%). Defende o Estado social e o seu n.º 2, Florian Philippot, é um homossexual assumido. Será este o perfil de um partido "reaccionário" ou de "extrema-direita"?

10 As ideologias voltaram e estão a perturbar um tempo e um modelo políticos que tinham por referência única a "gestão integrada" das finanças e da economia dos povos, uma gestão feita em Bruxelas e em Frankfurt por especialistas em ligações mais ou menos abertas, mais ou menos discretas, com os governos e os políticos do sistema.

O povo - que é constitucionalmente o detentor da soberania - vai tentando fazer-se ouvir nas eleições. Por enquanto.

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