França - os intelectuais e as eleições

Emmanuel Todd, o historiador que em 1976 previu o fim da União Soviética, considerou, ainda antes da eleições: "Eleger Macron hoje é eleger Marine Le Pen à primeira volta em 2022"

Talvez o maior escritor francês vivo - para mim pelo menos -, Michel Houellebecq, nas vésperas da eleição presidencial, deu uma entrevista ao programa Carte Blanche, na France 2, onde no seu estilo bem diferente da pompa arrogante e correcta dos literatos seus compatriotas falou descontraído sobre o momento político.

Reconheceu que agora "faz parte da elite mundialista" e que não conhece, e tem pena de não conhecer, a França da periferia que votou Marine Le Pen. Para ele, a França está dividida em quatro - a de Marine Le Pen, a de Jean-Luc Mélenchon, a de Emmanuel Macron e a de François Fillon. E acrescentou - "Sou demasiadamente rico para votar Le Pen ou Mélenchon e não sou um "filho de família" para votar Fillon". Então e Macron, por exclusão de partes, como a maioria dos eleitores do presidente eleito? Também não. Macron não passa de "uma terapia de grupo para a conversão ao optimismo". No domingo o autor de Soumission não votou.

O humorista humanista

Não foi esta a linha da intelectualidade politicamente alinhada. Os antifascistas, que em França, como em quase toda a Europa, têm a particular característica de terem assistido de bancada ao fascismo ou até de terem nascido e crescido sem ele, estavam particularmente vigilantes nas duas semanas entre as duas voltas e entraram em fúria quando Nicolas Dupont-Aignan se aliou a Marine. Um deles, o cómico Gilles Lellouche, chamou com grande elegância ao gaullista: Espèce de grosse merde.

Outro humorista humanista, Stéphane Guillon, não encontrou melhor forma de se insurgir contra Dupond-Aignan e a sua aliança com Le Pen do que ironizar com a morte recente da mãe do líder do Debout la France, madame Gala Dupont-Aignan:

"Ele perdeu a mãezinha há dois dias, por isso respeitei a ocasião. A minha mãe teria feito a mesma coisa se eu me tivesse aliado a Marine Le Pen, declarando que ia ser seu primeiro-ministro e que queria trabalhar com ela. Acho que a minha mãe também se teria deixado morrer como madame Dupond-Aignan."

Votar Macron sem ilusões

Tudo isto se enquadrou no combate da intelectualidade humanista contra o "perigo fascista representado pela "peste loura", Marine Le Pen". Um dos inevitáveis animadores destes núcleos antifascistas foi o eterno BHL, Bernard-Henri Lévy. Ele e outros notáveis intelectuais desmultiplicaram-se em grupos e abaixo-assinados como o "Apelo do mundo da cultura contra o FN" ou o "Vota Macron, pela República, sem ilusões". Destes apelos constava tudo o que de mau e diabólico produzira a humanidade - a OAS, Vichy, Hitler, a Inquisição, a escravatura....

Outros intelectuais, como o filósofo Michel Onfray e o historiador e geógrafo Emmanuel Todd, assumiram posições diferentes. Onfray, que é um dos autores mais lidos da França contemporânea, não hesitou em dizer que Macron era une lessive sortie des cabinets du capital. E destacou alguns dos seus confrades antifascistas reunidos no voto útil contra o Front National: "o belicista BHL", o "plagiador Jacques Attali", "Alain Minc, plagiador do precedente", Bernard Kouchner, "saco de arroz entre os médicos e médico entre os sacos de arroz" e "Daniel Cohn-Bendit, pedófilo do século passado".

Le Pen em 2022

Emmanuel Todd, o historiador que em 1976 previu o fim da União Soviética, mostrou-se tranquilamente pessimista:

"Estamos em plena desagregação do sistema. A eleição é uma pura comédia. A constituição da V República faz, em teoria, do presidente um monarca. Na realidade, a França está na zona euro, nós já não controlamos a nossa moeda, perdemos o controlo do orçamento e do deficit e, na hora da globalização, o nosso presidente já não tem poder algum. A França está prisioneira de uma zona euro cujo patrão é a Alemanha."

Declarando antes da eleição que nunca poderia votar Le Pen, ("Voter FN, c"est voter xénophobe [...] Mais, pour moi, voter Macron c"est l"acceptation de la servitude"), rejeitou também Mélenchon "um homem de esquerda, corajoso quanto à questão alemã", mas "irrealista em geopolítica", a querer sair da NATO, sem perceber que "se queremos escapar a Berlim, temos de nos apoiar em Washington".

E quatro dias antes do 7 de Maio concluía:

"Se gostaram de Hollande, vão adorar Macron; é o poulain, o filho espiritual, o herdeiro, o continuador natural... Eleger Macron hoje é eleger Marine Le Pen à primeira volta em 2022."

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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