Fogo e fúria

Na manhã de sábado tinha no e-mail e no WhatsApp quase uma dezena de versões de Fire and Fury, livro-bomba de Michael Wolff que, com a primeira edição de 650 mil exemplares, parece querer abalar a administração Trump. No domingo duplicaram as chegadas.

Livros, jornais e crises

Qual a consequência dos livros na política? A longo prazo, não há dúvida: os livros de enciclopedistas e ilustrados reflectiram e criaram a mudança de mentalidades que conduziu à crise do Ancien Régime e à Revolução de 89; os escritos de Marx e Engels abriram caminho ao socialismo revolucionário que viria abalar a velha ordem europeia e Mein Kampf codificou um evangelho nacionalista rácico na Alemanha de Weimar. Por cá, coisas como a poesia panfletária de Junqueiro e o Marquês da Bacalhoa de António de Albuquerque, campanha difamatória dos Braganças, criaram o ambiente para o Regicídio; e o Portugal e o Futuro, volume de duvidosa consistência na guineização do problema ultramarino, serviu de detonador e legitimador do 25 de Abril entre as Forças Armadas e as classes médias.

A política americana é muito sensível ao poder dos media, o "quarto poder". A partir dos Pentagon Papers e Watergate, os media, sobretudo grandes diários de opinião da costa leste como The Washington Post e The New York Times, não só fazem a cabeça dos leitores como a realidade. Ao contrário do que vai acontecendo com os social media, os relatos destes são lidos como réplicas fotográficas ou estenográficas do acontecido. No entanto, estes media americanos mais "sérios" também têm agendas políticas e ideológicas, amam e odeiam presidentes e administrações: gostavam de Kennedy e por isso encobriram a vida airada na Casa Branca; odiavam Nixon e deram cabo dele; pintaram Reagan como cowboy que ia lançar o mundo no holocausto nuclear, mas o seu modo de ser acabou por moderá-los; gostavam dos Clinton e protegeram-nos no impeachment; preferiram Obama a W. Bush. Com Trump foi e é diferente. É odiado até à paranóia e responde--lhes à medida. É uma guerra sem prisioneiros.

Alta bisbilhotice

Ao contrário destes jornais, o livro de Wolff nem sequer se pode reclamar de "jornalismo sério" e, mesmo que quisesse, o The Washington Post e o NYT, arqui-inimigos de Trump, eles mesmos, já se encarregaram de desacreditar as suas credenciais.

Li à pressão e em versão virtual o Fire and Fury. É uma narrativa que assenta no pressuposto, que as mais de 300 páginas vão confirmando, de que Donald Trump é uma criatura - e um presidente - aberrante, narcisista, que não lê nada nem ouve ninguém. Mais: que nunca quis ser presidente; que os principais colaboradores o consideram infantil e idiota, vive isolado no mundo virtual com apoio de um lobby familiar e uma pequena corte de oportunistas.

Diz Wolff que Fire and Fury se baseia em contactos privilegiados na candidatura Trump e na Casa Branca e "mais de 200 entrevistas", no entanto, sem notas nem fontes, não pode aspirar a mais que alta bisbilhotice e fofoca de corredor. Muitos citados já o desmentiram. A repórter do NYT Maggie Haberman encontra no livro erros factuais e até a descrição imprecisa de uma peça do seu jornal. Além disso, não há grande novidade nos factos, certos ou errados, e opiniões transcritas. Nada que não tenha sido noticiado, analisado e criticado nos media.

Mas se também não é novidade que a alta bisbilhotice rende, a eficácia de Fire and Fury veio sobretudo do alvoroço de Trump, que, ao querer impedir legalmente a publicação, lhe fez a melhor publicidade.

Há porém um ponto de interesse que ressalta: o conflito interno no universo Trump - não entre eleitores mas na equipa e elites dirigentes. Um conflito entre republicanos conservadores e moderados tradicionais que passaram a apoiá-lo, sobretudo desde a nomeação ou até depois de ter sido eleito, e o seu núcleo duro, mais nacional-popular ou populista do que conservador.

A divisão no campo Trump

Entre os conservadores há figuras do GOP, como Jeff Sessions, o actual procurador-geral, ou Edwin J. Feulner, ex-presidente da Heritage. No núcleo nacional-populista está sobretudo o "ideólogo" e "estratega" Steve Bannon. E no meio, movendo-se entre tudo e todos, está o círculo familiar com Jared Kushner-Ivanka Trump à cabeça. Diz Wolff que Jared, depois de um tempo de entendimento pessoal e estratégico, entrou em confronto com Bannon.

O nacionalismo político e económico anti-imigração, o proteccionismo e o desenvolvimentismo de Bannon entraram muitas vezes em conflito com o GOP tradicional economicamente liberal e globalizador. Bannon foi em grande parte responsável pelo conteúdo ideológico e a estratégia de Trump, dirigida a um núcleo de votantes brancos de meia-idade, rurais e populistas, zangados com a globalização e a desregulação financeira desenfreadas que teriam atirado a América e os americanos para a segunda linha.

Mais do que fazer Trump ganhar, os estrategas - e Bannon entre todos - acharam que o caminho era mostrar Hillary no seu cínico e malévolo esplendor para que os eleitores conservadores e de zonas deprimidas, vendo-a como era, vissem no controverso milionário de Queens a única alternativa para barrar a candidata democrata à Casa Branca.

Para Bannon, Trump era perfeito para encarnar o seu trumpismo e Hillary tudo aquilo de que as classes médias e as classes trabalhadoras brancas estavam fartas. Os e-mails perdidos, a Fundação Clinton, doadores, discursos pagos pelos grandes de Wall Street, problemas com o FBI, tudo foi usado nos dias finais da campanha, insistindo territorialmente no Rust Belt e politicamente na defesa do americano médio e da América contra elites desnacionalizadas, progressistas e globalizadas.

Mas, se a estratégia foi vencedora, a ideologia que a sustenta entra em colisão com as ideias e posições dos republicanos tradicionais, do líder da Câmara dos Representantes Paul Ryan e do Senado Mitch McConnell a grandes doadores como os irmãos Koch. Depois da trégua, a linha populista capitaneada por Bannon passou a ter de medir forças com Jared, Ivanka e o grosso das elites do próprio GOP. Jared - sempre muito próximo do núcleo dos "ricos" -, terá entrado em conflito aberto com Bannon no Verão. Bannon achou mais cómodo, em Agosto, deixar a Casa Branca e voltar à Breitbart. Já antes Trump insistira que não tinha "estratega" e que o era ele próprio.

À medida que ia completando o governo, queria parecer mais "presidente". A equipa governamental seleccionanda entre militares profissionais, como o secretário da Defesa, Mathis, executivos das grandes empresas e bancos, como o secretário de Estado Tillerson, e o do Tesouro Mnuchin, aproximava-se cada vez mais do centro de gravidade republicano. No entanto, Bannon, ainda que fora da Casa Branca, continuava em contacto com o presidente e a ser ouvido por ele. E empenhado em construir, através da Breitbart, um contra-poder que se pudesse bater com os liberais e sobretudo a imprensa liberal.

Economia e política sob fogo

Terá Bannon, despeitado, chegado a pronunciar frases assassinas sobre o casal Kushner-Ivanka ("burra como um cepo" ou dumb as a brick) e falado com russos do "traidor" Trump Jr.? Trump parece ter acreditado nessa parte do livro, dada a fúria contra o antigo "estratega", que não se inibiu de exibir em público. Bannon já tinha ficado fragilizado com a eleição de Alabama, a 12 de Dezembro, quando o candidato republicano por ele apoiado, Roy Moore, perdeu para o democrata Doug Jones. Nas primárias republicanas, Moore vence Luther Strange, apoiado por Trump. A derrota de Moore por 22 mil votos num estado tradicionalmente republicano punha em causa a estreita vantagem dos republicanos no Senado e ajudou à perda de prestígio de Bannon. A ruptura concretizou-se agora com Trump a referir-se ao "estratega" como sloppy Steve, irmanando-o em cognome e tom à crooked Hillary.

É uma clivagem séria; mas tocará a base social de apoio do presidente? E esta agitação afectará o núcleo duro dos apoiantes de Trump, que se tem mantido intocado?

Bannon desculpou-se (alguns dizem que o fez para segurar os financiadores da Breitbart e a continuidade do lobby). Ainda assim, sublinhou que o seu "apoio ao presidente e sua agenda permanecia inabalável"; que "o presidente Trump fora o único candidato capaz de enfrentar o Clinton apparatus"; e ele, Bannon, "o único capaz de orquestrar uma campanha global de difusão da mensagem de Trump e do trumpismo". E que continuava empenhado no esforço presidencial "to make America great again". Trump não quis saber. Não quer saber. Porque a verdade é que, se a política está dividida e crítica, há muito que a economia americana não estava tão bem. O crescimento aponta os 3%; o desemprego está em 4,1%, o mais baixo desde 2000; o desemprego entre afro-americanos caiu para 6,8%, também recorde. Ao mesmo tempo, os índices da bolsa ultrapassaram, neste janeiro, máximos históricos, tendo subido no primeiro ano da administração Trump mais de 30%.

Por ora, ninguém fala deste crescimento. O pícaro fogo e a pícara fúria ateados pelo livro de Wolff conseguiram afastar Trump da economia e do responsável pelo alinhamento político que lhe garantiu a vitória - e servir às massas o reality show de uma Casa Branca em desvario.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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