Cancro do Pulmão: não adie o diagnóstico

No Dia Mundial do Pulmão, que se assinala esta sexta-feira (25 de setembro), importa lembrar que o cancro do pulmão - designação que engloba um espectro de tumores com diferentes abordagens terapêuticas e prognósticos - continua a ser a principal causa de morte por cancro em Portugal. Este tipo de cancro apresenta-se em terceiro lugar em incidência global, uma tendência que não deixa de crescer.

Tendo em conta que, em 2018, tivemos cerca de 5200 novos casos de cancro do pulmão em Portugal e que cerca de 80% se encontravam em estádios que não podem ser submetidos a cirurgia, rapidamente nos apercebemos da dificuldade em efetuar um diagnóstico atempado e precoce que possa conduzir a terapêuticas com intuito curativo.

Se é verdade que não é fácil o diagnóstico precoce, porque o tumor cursa muitas vezes até uma fase tardia sem sintomas, não é menos verdade que os rastreios epidemiológicos em massa ainda não estão instituídos na rotina como noutros tumores, nomeadamente mama, útero e colorretal, por várias razões, nomeadamente na relação entre custo e benefício.

Por outro lado, sabemos também que, para além destas dificuldades, registou-se uma redução acentuada na procura dos cuidados de saúde devido à situação de pandemia que se vive no mundo. Muitas pessoas têm vindo a desvalorizar sinais de alerta com receio de ir ao hospital e adiam assim o diagnóstico de doenças que tardiamente diagnosticadas podem ser irreversíveis ou mesmo fatais, como é o caso do cancro do pulmão.

Na minha prática clínica tenho verificado em doentes que me têm procurado nos últimos tempos duas situações: por um lado, os que efetuaram exames no início do ano, mas que por medo de se exporem ao novo coronavírus, não procuraram os serviços de saúde; por outro lado, aqueles que, apesar de sintomáticos, desvalorizaram os sintomas e recorreram ao médico muito mais tarde, algumas vezes numa fase da doença mais avançada, em que o timing cirúrgico ou de uma outra terapêutica mais radical ficou ultrapassado. Nestes casos, as terapêuticas definidas foram bastante mais conservadoras e sem o mesmo intuito curativo.

Estamos a falar do cancro do pulmão, um tumor altamente agressivo onde o adiamento de poucas semanas pode fazer a diferença no tratamento do doente, que pode passar de um estádio mais precoce para um mais avançado, com perda de oportunidade de terapêuticas mais radicais.

Por outro lado, convém lembrar que nem todos os tumores do pulmão se comportam da mesma forma. Temos tumores que possuem características distintas, com comportamentos e agressividades também diferentes e oportunidades de vários tipos de terapêuticas que lhes conferem diferentes sobrevidas.

Aproxima-se um inverno desafiante a vários níveis - com a chegada da gripe sazonal e de uma possível segunda vaga do novo coronavírus - pelo que as pessoas devem ser sensibilizadas e alertadas para a necessidade de não adiar a ida ao médico, bem como para a importância de manterem as suas rotinas de vigilância e prevenção. Principalmente as pessoas que pertencem a grupos de risco, grandes fumadores (mais de 30 maços por ano ou ex-fumadores há menos de 15 anos), com idades compreendidas entre os 45 a 50 anos até 75; doentes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica; fibrose pulmonar; exposição ambiental/ocupacional, radioterapia prévia e risco genético ou familiar, devem procurar agora o seu médico. Todos os médicos, nomeadamente de medicina geral e familiar - que melhor do que ninguém conhecem os seus doentes e agregados familiares - devem orientar e encaminhar os doentes consoante as suas necessidades.

A nossa mensagem para os doentes com suspeita ou diagnóstico de cancro do pulmão é de que não deixem de procurar os serviços de saúde e o seu médico, uma vez que todos os procedimentos e circuitos dos hospitais nesta fase de pandemia estão pensados e organizados para garantir a segurança dos doentes durante as consultas, exames e tratamentos que venham a ter de realizar.

Existe uma enorme preocupação em todos os grupos profissionais na manutenção dos melhores cuidados aos doentes, garantindo que sejam cumpridas as normas da Direção-Geral da Saúde, fazendo dos hospitais instituições onde os doentes se devem sentir em segurança.

Pneumologista Coordenadora Norte da CUF Oncologia e da Unidade de Cancro do Pulmão do Hospital CUF Porto

Mais Notícias