Bom tempo no canal

Com o Mau Tempo no Canal e um monte de revistas, parti para os Açores. Quando fiz a instrução primária no Colégio do Campo da Regeneração, no Porto, aprendíamos assim, de cor e por esta ordem, as ilhas do arquipélago: São Miguel, Santa Maria, Terceira, São Jorge, Graciosa, Pico, Faial, Flores e Corvo. Tudo decorado e papagueado, de trás para a frente e da frente para trás, ao bom velho estilo da escola "fascista" que me formou e deformou, e que talvez até me tenha tornado incorrecto e incorrigível para todo o sempre.

Com vergonha confesso que, fora uma escala nas Lajes numa vinda dos Estados Unidos há muitos anos, nunca tinha posto um pé nestas "ilhas afortunadas". Desta vez, com bons amigos, num veleiro de alto currículo, navegámos no grupo central: de São Jorge para o Pico, do Pico para a Graciosa, da Graciosa para a Terceira. Um roteiro de terra e mar, entre ilhas e mares que podiam ser os dos argonautas, entre verdes e azuis e um ou outro cinzento, as muitas cores do mar, da terra, do céu, das nuvens. E às vezes, como num quadro naïf ou num livro para crianças, o branco e o vermelho do casario.

Fomos ter às Velas, capital de São Jorge, a ilha que, mais do que um dragão, parece um crocodilo adormecido. O barco ficou ali ancorado, junto à falésia. E foi dali que partimos em excursão para ver uma terra que dá muita coisa e onde há muita coisa - negócios de conservas, de queijos, de frutas e muitos lugares chamados fajãs, pequenos planaltos de origem vulcânica com nomes que nos transportam para um outro mundo: fajã do Além, fajã da Caldeira, fajã das Almas, fajã dos Ouvidos...

De São Jorge ao Pico são dez milhas náuticas, pouco mais de uma hora à vela no mar chão que, dizem os entendidos, é o mar de Verão naquelas ilhas. O Pico é uma espécie de Monte Fuji que se vê de todo o lado num dia claro, com um anel de nuvens à volta nos tempos mais húmidos. É famoso pelo vinho e pelas baleias e cachalotes. O vinho do Pico era exportado para a corte russa; presumo que há cem anos tenha ido parar aos canais do Neva ou tenha escorrido pelas gargantas do povo, quando os revolucionários saquearam as caves do Palácio de Inverno. Agora há uma marca Czar que experimentámos, cumprindo a rotina dos circuitos turísticos obrigatórios. Depois dos vinhos fomos às Lajes do Pico, ao Museu dos Baleeiros. Li o Moby Dick, de Melville, na Biblioteca dos Rapazes, pelos 12 ou 13 anos. Além do fascínio da perseguição e dos ódios e vinganças do capitão Ahab e do ferocíssimo megacachalote, calculo que não tivesse, na altura, entrado nas esotéricas dimensões trágico-marítimas e bíblico-míticas da fábula de Melville; mas quando a história, o contador e o combate têm grandeza, alguma coisa vamos pescando no som e na fúria da escrita, mesmo sem o percebermos.

Foi já mais conscientemente que aos vinte e muitos anos me empolguei a ler a odisseia da Margarida Dulmo atrás do tio Roberto e do cachalote, naquele canal de ventos e tufões, numa baleeira de homens rudes, iguais aos companheiros de Ahab.

Estes cruzamentos atlânticos não são fortuitos: Melville, que nasceu em Nova Iorque, andou embarcado pelos mares do Sul e viveu em Pittsfield, em Massachusetts, onde conheceu Hawthorne e escreveu a saga da Baleia Branca, um monstro saído de um génesis que reinventou, bem mais famoso do que as baleias e cachalotes do Pico. Mas Nemésio, que nasceu na Terceira, escreveu um romance também admirável que levei para reler nos mares e nas ilhas que o inspiraram. E a noite de Margarida no canal do Pico lembra, apesar da sua brevidade, a longa perseguição e o apocalíptico desfecho da persistente e rancorosa vingança de Ahab. Melhor, das vinganças cruzadas de Ahab e da Baleia, em que ambos se afundam nos abismos e são recebidos de braços abertos por todos os Anjos das Trevas.

Não fomos ao Faial, onde se travou a "guerra de classes" de Nemésio, entre os Dulmos e os Garcias, e onde Margarida Clark Dulmo, vogando à bolina entre um triângulo masculino - João-Roberto-André - é uma Julieta do fim da belle époque, uma filha-família que não segue o destino trágico da pequena Capuleto mas que também não tem a coragem de romper com os tabus da Malvina Tavares, da Gabriela. Margarida não salta o muro para o plebeu Garcia e a sorte e a morte dão-lhe o desfecho à paixão quase incestuosa pelo tio Roberto. Resigna-se no fim a André, o galã correcto, razoavelmente nascido, muito rico, o marido ideal para um final feliz de comédia de cinema ou de folhetim radiofónico.

Deixámos o Pico, cujos mais de dois mil metros nunca nos deixam nos dias limpos, e navegámos outra vez até São Jorge, e depois, num esticão mais, até à Graciosa, que tem a sua graça e as suas graças. As piscinas e termas do Carapacho, a lembrarem um recanto de uma Bretanha de Victor Hugo; a Furna do Enxofre, que me levou de volta ao Júlio Verne e ao Enigma da Atlântida de E.P. Jacobs; e uns burros anões, famosos mas em extinção, ou famosos porque em extinção. Ou talvez até já extintos, porque não vimos nenhum.

Da Graciosa fomos para a Terceira; desembarcámos na Vila da Praia, que depois do triunfo liberal na guerra civil passou a Praia da Vitória. Fui à procura do monumento a Nemésio, um busto que, ao contrário do que agora é costume, se parece com o representado. E lembrei-me do Nemésio do Se Bem Me Lembro, daquelas charlas de conversador de tudo e de nada, daquele fio das meadas do tempo de um "açoriano de treze gerações", orgulhosamente híbrido. Nascido ali mesmo, na Praia, em 1901, Nemésio veio para o continente em 1919, como o jovem poeta que se cruza com Margarida Dulmo no paquete, no fim de Mau Tempo do Canal.

A Terceira é a terra da heróica resistência nacional aos Filipes depois de 1580, encarnada por Ciprião de Figueiredo, o governador do prior do Crato, que primeiro derrotou os espanhóis na batalha da Salga e depois veio a morrer ali em combate, esmagado pela força dos números. De outras resistências, também contadas por Nemésio na Mocidade de Herculano, não vou agora aqui falar.

Acabámos esta volta em Angra do Heroísmo num domingo de manhã - quatro católicos à procura de missa e sempre a chegar à igreja onde a missa acabara de acabar. Mas na última tentativa, na Senhora da Conceição, o cónego Francisco Medeiros deu-nos uma lição de história e memória dos Açores, uma terra portuguesa e de Portugal que para nós, continentais, é um excelente ir para fora cá dentro.

A paisagem, a terra, as flores, a pedra, o mar, as cores e a harmonia agitada e selvagem de tudo juntam-se ali aos sabores das coisas da vida - dos vinhos, dos queijos, dos frutos, dos peixes - e, sobretudo, à verdade e hospitalidade das pessoas. Ilhas afortunadas.

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