A marcha forçada de Emmanuel Macron

As recentes eleições francesas em quatro etapas, duas voltas presidenciais e duas voltas legislativas, merecem uma correcta reflexão que traz alguma incorrecção política.

As presidenciais eram, desde o princípio, um referendo anti-Le Pen. Sabia-se que Marine passaria à segunda volta e que se iria formar contra ela uma "frente republicana" ou uma "coligação antifascista". Não ficavam, por isso, muitas dúvidas de que para se ser eleito presidente da França em 7 de Maio de 2017 era preciso passar com ela e contra ela à segunda volta.

As primárias dos partidos baralharam as coisas. Em democracia, como terá observado Winston Churchill, que sabia destas coisas por inteligência e experiência, os verdadeiros inimigos estão dentro de casa, do próprio partido. Nos outros partidos só há adversários. Assim, os inimigos de Juppé e Sarkozy encarregaram-se de levar Fillon à vitória, com o apoio dos conservadores católicos. E Fillon contra Marine ganhava. Só que Fillon insistiu demais na vida austera e honrada e a sua prática não era bem essa. Os socialistas também fizeram primárias e afastaram Manuel Valls, um socialista liberal com experiência governativa e perfil centrista e assimilável, escolhendo Bernard Hannon, um esquerdista do PS. Hannon foi a votos pelo partido mas a maioria dos seus potenciais eleitores foi-se passando para Mélenchon, que era igualmente radical esquerdista mas mais agressivo.

Marine, Macron e Mélenchon não se submeteram a primárias. A líder da FN era a líder da FN; Macron inventou o "Em Marcha!" e Mélenchon La France Insoumise.

Os erros de casting de republicanos e socialistas levaram Macron a sair à frente na primeira volta e a ser a alternativa a Marine na segunda. A líder da Frente Nacional, que fizera uma longa marcha para a desdiabolização do partido, perdeu o referendo. Todas as forças políticas, dos direitistas Fillon e Sarkozy aos comunistas, aconselharam directa ou indirectamente o voto em Macron. Marine também não conduziu bem o debate, enredando-se numa discussão técnica sobre o euro que não era, definitivamente, a sua área de especialidade.

As legislativas, como tem sucedido na França da V República, seguiram muito as presidenciais. O Em Marcha! de Macron, beneficiando da derrota presidencial dos grandes partidos - socialista e republicano -, do sistema de duas voltas e da sua posição "centrista", cilindrou as oposições e atingiu a maioria absoluta. Só que de tudo isto resultou um Parlamento democraticamente exótico, nos limites do absurdo.

O absentismo dos eleitores foi o factor mais impressionante, com 57% de abstenções na segunda volta das legislativas. Nunca tal se houvera visto, nem mesmo em eleições europeias, regionais ou cantonais. O facto é que os votantes dos "extremos" - que segundo a eleição presidencial eram quase metade dos eleitores - não tinham na segunda volta grandes escolhas. Um partido - Frente Nacional - cuja candidata presidencial tivera em 7 de Maio mais de dez milhões de votos, um terço do eleitorado, acabava com oito deputados num Parlamento de 577. Com os votos de cerca de 15% dos eleitores inscritos, o candidato Macron e o seu Em Marcha! dominam agora em absoluto o executivo e a Assembleia.

A França passou então a ser apresentada como grande reversão dos movimentos nacionais populares ou populistas. Apontar a eleição britânica como um anti-Brexit é, no mínimo, abusivo, já que dificilmente se poderá qualificar o trotskista renovado Corbyn como um entusiasta da Europa Unida.

Mas não há milagres políticos e, se é verdade que Emmanuel Macron, filho dilecto do sistema - ENA, Banco Rotschild, Partido Socialista, governo de Hollande -, conseguiu a admirável prestidigitação de aparecer como um outsider, lavado nas águas do Jordão, também é certo que vai ter pela frente os problemas que afligem a França nas duas últimas décadas:

1. Um Estado e um sector público sobredimensionados e com privilégios que a economia do país não pode continuar a pagar.

2. Uma imigração norte-africana de onde vão saindo regularmente novas gerações desenraizadas e ressentidas e dificilmente integráveis.

3. Uma esquerda pós-comunista e pós-marxista, mas sensível, como noutras paragens, a um discurso trotskista-leninista que um demagogo teimoso como Mélenchon soube renovar.

4. Uma força nacionalista identitária e popular que conseguiu mais de dez milhões de votos na segunda volta das presidenciais - apesar da demonização intensiva levada a cabo pelas elites e pelos media.

5. Um terrorismo intermitente mas persistente, que recruta suicidas ocasionais mas que não descansa.

A aposta de Macron na renovação do eixo Paris-Berlim e da carta da Europa Unida é uma aposta pesada e contra-corrente, num tempo em que o nacionalismo identitário e a contestação de uma União Europeia dominada pela chanceler Merkel se tornam extremamente populares à direita e à esquerda.

Por último, os escândalos financeiros e as confusões que levaram já alguns ministros do novo gabinete a pedir a demissão mostram que o que está em marcha pode, afinal, ser mais do mesmo.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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