A guerra americana de concessão

O mundo estremece com alguma ansiedade, em longas semanas e escuras noites de outono. Dúvidas, suspeitas e outros tantos fait divers abundam na nação mais plural do globo, em que todos põe os olhos por diferentes razões e onde o resultado só é oficializado depois de ratificado.

Silêncio, barulho, silêncio. O presidente tem a palavra, a sua arma mais poderosa, escudada por outras ainda mais radioativas. É o discurso do rei que não gagueja e que nada lhe fica encravado. Fraude, sabotagem, golpe, nomes entre tantos adjetivos terríficos. O amargo de boca é vociferado. Trump põe em causa o procedimento eleitoral e a legitimidade de uma eleição que não seja a sua.

Comecemos por reconhecer o óbvio: o candidato, seja ele de que cor e credo for, tem o direito de contestar o sufrágio. São luxos de um Estado de Direito Democrático, onde a separação de poderes se efetiva por freios e contrapesos. Em caso de irregularidades, recorre-se ao poder judicial, para que Montesquieu não se esteja a saracotear na sepultura em que pernoita desde 1755.

Perante tamanho terramoto, recorde-se o passado desmemoriado. Recuamos 12 anos, um presente longínquo. Noite fria de novembro, o Partido Republicano perde expressivamente a corrida pela Casa Branca, em que pouco haveria a contestar perante a vitória esmagadora de Obama. John McCain, Senador e Senhor, usa da palavra. As mesmas que ecoam hoje nas nossas mentes cansadas e corações acelerados, não por ter perdido eleições, mas por não perder a sua integridade. Make America McCain Again!

Perder uma eleição não significa perder a voz e muito menos corresponde a um juramento de submissão, é um reconhecimento de respeito pelos ideais democráticos e pela vontade popular. As eleições sempre despertaram a ganância e outros atributos menos dignos que já derrubaram presidentes.

Lembremos então uma das figuras mais controversas de Washington, um homem que tinha tanto medo de perder que resolveu patentear a expressão Watergate no léxico americano. Richard Nixon, político de muitas eleições, que cai num dos maiores escândalos que abalaram a Casa Branca, foi também o candidato que perdendo para Kennedy por uma margem mínima, prescindiu de uma batalha intensa, para não dividir e diminuir o seu povo numa altura decisiva. Não tinha que o fazer, nem é exigível a Trump que o faça.

Por falar em Kennedy, esse menino bonito que como o irmão perdeu a vida de forma catastrófica, por pessoas que não respeitavam as suas ideias. Ao enfrentar uma das batalhas mais desgastantes da vida, uma dura doença que lhe atrofiou muitos planos, escreve a obra Retratos de Coragem, um Pulitzer que evoca feitos heróicos de políticos americanos que remaram contra a maré e que carece de nova leitura.

Hoje, neste ano atípico, não precisamos de coragem ou heroísmo, daqueles republicanos que se reuniram na noite de vitória de 2016, traçando um plano de escape para o seu partido, esses mesmo que um ano depois estariam num megaevento na Casa Branca, acobardados e acorrentados a elogiar o seu comandante supremo. Trump desinfetou com a sua lixívia milagrosa o partido Republicano. Os do sistema tradicional não hesitarão agora em se distanciar do seu estilo e das suas ambições, como se nada tivesse ocorrido em quatro anos - ou se calhar até não, dado que Trump teve um resultado histórico.

Uma verdade inconveniente é também a atitude de Al Gore, que, apesar de contestar a contagem na Flórida, não quis ainda aquecer mais o mau ambiente nas ruas, nem prejudicar o clima de confiança dos americanos. O sistema tem falhas provadas ao longo da história, assim como defeitos tem a coerência discursiva de muitos interlocutores. Respeitar a democracia é respeitar os resultados, os vencedores, mas também ter deferência pelos muitos milhões que votaram no candidato derrotado. Cada voto é sagrado e traduz o funcionamento da soberania popular.

Biden terá que ter paciência de ancião e não confinar uma nação à divisão. Aspiremos a que neste mês, algumas ações tragam graças a este povo polarizado, estando certos de que, nesta terra, o General Inverno nunca exercerá o comando, pois burros e elefantes preferem ambientes mais calorosos, mesmo que resfriados. O procedimento segue com ou sem fé dos seus grandes eleitores e só em mês dos reis teremos novo presidente.

A integridade deixará sempre saudade. Que neste censo se verifique algum bom senso!

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