O vírus que deu vida ao jornalismo mas ameaça matá-lo

Sabem o que é viver um sonho e um pesadelo ao mesmo tempo? É ser jornalista por estes dias. É estar preocupado com a saúde dos que nos são próximos e sentir, em simultâneo, a mesma adrenalina e o mesmo espírito de missão que um dia nos levou a escolher esta profissão. É querer agarrar o vento com as mãos e não desistir até conseguirmos cumprir esse desígnio impossível.

Deixem-me falar-vos de jornalismo em tempos de crise. Permitam-me que vos fale dos milhares de profissionais que, nas últimas semanas, abdicaram da família, dos amigos, dos horários de trabalho e das folgas, colocando em risco, muitas vezes, a própria vida, para dar cumprimento a um juramento que nunca fizeram em público, mas que repetem para si próprios todos os dias. Perdoem-me os que possam olhar para este texto como um mero exercício de egoísmo, mas ele pretende ser exatamente o contrário: um alerta de quem ainda acredita que uma democracia não pode ser inteira sem jornalismo.

Bem sei que a lista de prioridades da humanidade está bastante preenchida por estes dias: salvar vidas, salvar a economia, salvar o Estado de direito. O que será de nós se não soubermos fazer tudo isto ao mesmo tempo? O que sobrará do mundo se não perceber que esta é uma missão de todos e não de cada um por si? Mas é, precisamente, nesta equação que o jornalismo tem um papel fundamental.

O ministro da Economia dizia esta semana na TSF que, em democracia, a Comunicação Social tem um papel tão essencial quanto o do Serviço Nacional de Saúde, das forças de segurança ou da segurança social. Tem razão. E, se há momento que o prova, é esta crise que estamos a viver.

Na linha da frente do combate a este vírus estão governantes, profissionais de saúde, forças de segurança, milhares de anónimos no apoio a grupos de risco e jornalistas. Nacionais e regionais. É por isso que, se sabemos hoje o que está a acontecer à nossa volta - por exemplo, nos hospitais, cá dentro e lá fora - é porque o jornalismo está a cumprir a sua missão. Se, à hora incerta da notícia, ficamos a saber quantos morreram, quantos se salvaram ou que cuidados devemos ter daqui para a frente, é porque está lá um jornalista. E não há, posso garantir-vos, nesta linha da frente, um único anónimo daqueles que se escondem atrás de um perfil falso nas redes sociais, porque esses continuam entretidos, no seu isolamento social, a espalhar notícias falsas.

O último mês foi, no entanto, de uma ironia suprema. Nunca como agora os orgãos de comunicação social tiveram tanta audiência. E nunca como agora estiveram tão perto da morte. É que, ao contrário da esmagadora maioria das empresas, os jornais, as rádios e as televisões não foram forçados a fechar por causa do vírus. Pelo contrário, eles estão obrigados a continuar "abertos", a produzir informação e entretenimento, porque é essa a sua missão. Mas como podem os órgãos de comunicação social sobreviver se o resto das empresas estão paradas, sem capacidade para investir? Quem vai querer fazer publicidade quando o país que está fechado em casa, sem consumir? Como pode um jornal vender jornais, se os quiosques estão fechados ou sem clientes?

A resposta, não tendo contornos fáceis nem definitivos, tem de forçosamente ser dada. Sem ignorarmos que muito desta crise na comunicação social não começa nem acaba na pandemia que estamos a viver, e tem muitas culpas próprias que ainda estão por assumir. E mesmo acreditando - como eu acredito - que uma comunicação social livre e independente não pode viver na dependência do Estado. Mas este é, verdadeiramente, um momento excecional das nossas vidas. É um momento de emergência para um dos pilares da nossa democracia e tem de ser encarado como tal.

E agora as perguntas: onde tem andado a ministra com a tutela da Comunicação Social nas últimas semanas, porque ainda ninguém a viu ou ouviu? À parte de uma "declaração de amor" à comunicação social do ministro da Economia, nenhuma das medidas anunciadas até agora para preservar as empresas e os postos de trabalho foi direcionada para os média. Pode um órgão de comunicação social recorrer ao lay-off, se os jornalistas são agora mais precisos do que nunca? Podem os jornais, as rádios e as televisões endividar-se ainda mais, quando já tinham níveis de endividamento altíssimos? A resposta é não.

Ninguém está a pedir esmolas. Apenas a lembrar o óbvio: o jornalismo custa dinheiro e é executado por jornalistas que têm o direito de receber pelo seu trabalho. Tal como qualquer outra profissão. O jornalismo tem de ser pago - por quem o consome, mas também por quem tem a obrigação de o preservar. E o Estado tem essa obrigação. Uma das formas de o fazer é pagando pela publicidade institucional que faz ou beneficiando fiscalmente as empresas de comunicação social pelo serviço público que prestam, todos os dias. Agora, mais do que nunca. Porque, se demorar muito, talvez já não haja, no final, muito mais para salvar, para além dos órgãos de comunicação social do Estado.

Mais Notícias