O perigo da normalização

Nem tudo na vida é tão simples quanto a divisão que a política normalmente faz entre direita e esquerda. Há momentos em que temos mesmo de escolher entre o que é certo e o que é errado. Entre a democracia e o retrocesso civilizacional. Portugal vive, por estes dias, um desses momentos decisivos. Onde cada partido, cada responsável político e cada um de nós tem que assumir claramente o que é, o que defende e o que quer para o seu país.

Um dos maiores equívocos que vivemos neste momento, é o de acharmos que o populismo é a principal ameaça que o país enfrenta. Não é. O populismo é apenas a face mais visível daquilo que pode vir a transformar-se num retrocesso democrático e civilizacional. Até porque, quem julga que o populismo só chegou ao Parlamento português nas últimas eleições legislativas, engana-se. Ele sempre lá esteve, mais ou menos disfarçado, mais ou menos percetível aos olhos da opinião pública, e não é novo. Susana Salgado, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, definiu-o como uma ideologia que "não é marcante", que "pode ser de esquerda ou de direita" e que, na realidade, não passa de "um vazio que é preenchido no momento, de acordo com as necessidades". Ora, não é preciso pensar muito para nos lembrarmos de vários protagonistas políticos que passaram pelo Parlamento nos últimos anos e que encaixam que nem uma luva neste perfil.

Pensar, por isso, que André Ventura é o primeiro dos populistas a chegar ao Parlamento, das duas uma: ou é falta de memória ou é desconhecimento sobre o que significa ser populista. Até porque, à esquerda, por exemplo, Joacine Katar Moreira tem-se esforçado bastante para demonstrar que o populismo não é, de facto, um exclusivo da direita política.

A grande novidade não é essa. O que é verdadeiramente novo - e muito preocupante - é que, à boleia do populismo, penetraram nas nossas instituições democráticas o racismo, a xenofobia, o cheiro bafiento a um nacionalismo retrógrado e, sobretudo, o discurso violento e intolerante. André Ventura e os seus seguidores - muitos deles estão a transferir-se do PNR - serão o caso mais óbvio e mediático. Mas ele não está sozinho. Longe disso.

Há menos de duas semanas, o CDS elegeu os novos órgãos sociais do partido para os próximos dois anos. A coreografia própria dos congressos eletivos fez com que um pseudo-candidato à liderança, Abel Matos Santos, acabasse na direção de Francisco Rodrigues dos Santos, o novo presidente. Ora, Abel Matos Santos é o rosto mais visível da Tendência Esperança e Movimento (TEM), uma fação do CDS ultraconservadora, que nunca conseguiu fazer vingar as suas posições dentro do partido, muito menos no país.

A chegada de Abel Matos Santos à direção do partido - depois de, "simpaticamente", ter desistido para Francisco Rodrigues dos Santos -, abria, finalmente, uma porta a esta ala ultraconservadora, mas permitia, também, um escrutínio muito maior. E foi isso que o jornal Expresso fez: uma compilação de várias posições públicas do novo vogal da comissão executiva do CDS, ao longo dos anos, sobre os mais diversos assuntos. Admirador confesso de Salazar - a quem dá vivas -, Abel Matos Santos olha com nostalgia para os tempos da ditadura, elogia a PIDE, considera o 25 de abril um golpe de Estado e Aristides de Sousa Mendes, o cônsul que ficou na história por ter salvo milhares de judeus do holocausto, um "agiota de judeus".

A tentativa de vitimização - do próprio e da direção do partido - perante estas notícias vem nos livros. Mas não esconde uma outra tentativa, bem mais perigosa, de normalização de uma personagem que defende um Portugal antissemita e muito mais próximo dos tempos da velha senhora. E é bom que se diga que esta tentativa teve a conivência do novo presidente do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, que há muito conhecia - como o próprio reconheceu - as posições do homem que decidiu levar para a direção do partido. E, já agora, a bênção dos militantes centristas que votaram neste novo executivo.

Não é muito diferente da normalização a que temos vindo a assistir por parte de vários responsáveis do PSD que se recusam a traçar linhas vermelhas com o Chega de André Ventura, receosos que estão de um dia poderem vir a precisar dele para voltar a governar. Dirão alguns que esta normalização também aconteceu à esquerda, com partidos que já defenderam ditaduras de esquerda - e pelas quais, no mínimo, ainda nutrem alguma simpatia -, que têm uma visão muito própria da história e hoje são parte integrante da governação do país. Talvez. Mas não me lembro de ver nenhum partido à esquerda a assumir posições xenófobas, racistas ou misóginas. Não me lembro de ver o PCP ou o BE darem vivas a Salazar, a elogiar a PIDE ou a assumirem posições antissemitas.

Não admira, por isso, que os saudosos do fascismo estejam todos a aparecer, agora que começam a sentir-se representados. Não admira que se estejam novamente a cavar trincheiras que julgávamos já estarem tapadas, que todos deem por adquirido o crescimento do Chega em próximas eleições ou que o CDS se tenha encostado à direita, na expectativa de disputar este eleitorado. Todas estas movimentações podem até ser naturais, dada a forma como os partidos democráticos e moderados falharam com as pessoas nas últimas décadas. Mas nada disto pode ser normalizável. É a sobrevivência da democracia que está em causa.

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