O favor que Ana Gomes pode fazer a Marcelo, a António Costa e ao país

Ana Gomes disputaria ainda com André Ventura uma parte do eleitorado abstencionista, que precisa de se voltar a rever em alguém e já não acredita em gente que fala baixinho.

As próximas eleições presidenciais são mais importantes do que se imagina. Por um lado, o contexto económico - agravado agora com a crise do Covid-19, de consequências ainda imprevisíveis - ameaça inverter um ciclo de crescimento que nunca foi propriamente sustentável. Por outro, o contexto político é cada vez mais incerto, nesta nova realidade pós geringonça, em que a governação deixou de ser feita ano a ano e passou a ser feita dia a dia, com uma total ausência de visão estratégica para o país. E, não tenhamos ilusões, todas as brechas que se abrirem serão preenchidas pelos oportunistas anti-sistema que agora fazem parte do sistema.

A Presidência da República vai, por isso, ganhar uma centralidade ainda maior e não é, por isso, nada irrelevante perceber que legitimidade política é que os eleitores atribuem ao próximo chefe de Estado.

A grande pergunta, no entanto, sobre as próximas presidenciais não é se Marcelo consegue mais de 70% dos votos, uma meta muito difícil de alcançar. É saber que percentagem consegue o oportunista político André Ventura. O que, por um lado, significa perguntar quanto valem, eleitoralmente, em Portugal, os racistas, os xenófobos, os misóginos, os incoerentes, os desinformados que fazem da desinformação um ofício e os saudosos do salazarismo. Mas, por outro, saber também quanto vale uma parte do eleitorado constituído por verdadeiros democratas que, não encaixando no pior dos perfis de Ventura, estão tão insatisfeitos com o regime que veem no candidato do Chega uma espécie de voz profética, anti-sistema, capaz de abanar o status quo. E esta fatia parece ser muito maior do que imaginamos.

Deste ponto de vista, André Ventura é uma espécie de candidato catch all, que abraça um largo espectro do eleitorado, da direita à esquerda. O que só o torna ainda mais perigoso, se a sua vacuidade não for colocada a nu, como fez, e muito bem, o jornal Observador na semana passada. Politicamente, Marcelo Rebelo de Sousa - "o populista bom", como já vários lhe chamaram - tem sido um dos poucos antídotos para este vírus, não só pelo contributo que deu nestes quatro anos de mandato para reconciliar o País, mas, sobretudo, na abordagem inteligente que faz a esta nova realidade política com que estamos confrontados. O discurso do Presidente nos 30 anos do Público mostra bem como Marcelo percebeu que, quando se trava um combate na lama, dificilmente se sai de lá limpo. E a lama é o habitat natural dos oportunistas disfarçados de populistas. O problema é que, num contexto eleitoral, isto pode não ser suficiente.

É aqui que Ana Gomes, uma das vozes mais críticas do regime, pode ter um papel importante. Não sendo eu propriamente um fã do estilo, uma eventual candidatura da socialista dividiria, estou em crer, muito mais o eleitorado de André Ventura do que o de Marcelo Rebelo de Sousa. Ana Gomes arregimentaria os "rabujos do sistema" que andam há anos - muitas vezes com razão - a pregar sozinhos. Gente que desacreditou na justiça, na política e nos políticos tal como eles se movem. Gente que sofre na pele as injustiças de um país ainda muito desigual. Gente que precisa de manifestar o seu protesto através da mais poderosas das armas - o voto -, mas para quem isso não significa uma defesa de retrocessos civilizacionais e democráticos.

Ana Gomes disputaria ainda com André Ventura uma parte do eleitorado abstencionista, que precisa de se voltar a rever em alguém e já não acredita em gente que fala baixinho. E, ao contrário do que se possa pensar, esses eleitores que andam perdidos, entre a abstenção e as redes sociais, não estão só à direita, também estão à esquerda. E muitos, quase por uma questão de princípio, nunca votariam em Marcelo Rebelo de Sousa.

Mas uma eventual candidatura de Ana Gomes às próximas presidenciais pode representar ainda um enorme favor a António Costa. Depois da triste figura que o PS fez há quatro anos (com dois candidatos da área socialista), o secretário-geral do PS confronta-se, em 2021, com um problema ainda mais bicudo: quem é que vai querer chegar-se à frente para defrontar o magnânimo Marcelo, sobretudo depois de tantos ilustres socialistas já terem dito publicamente que votariam no atual presidente? Pode o PS apoiar politicamente Marcelo, com todas as consequências que esse apoio poderia ter internamente, dividindo ainda mais um partido que já anda a pensar na era pós Costa?

Ana Gomes pode ser a solução PH neutro de que o secretário-geral do PS tanto gosta. Se António Costa decidir - como parece estar inclinado - não ter candidato próprio, Ana Gomes ganha o espaço de que precisa para avançar. E Costa, sem se comprometer, passa a ter uma candidata da família política do PS - que não escolheu, nem nunca escolheria - em quem os socialistas que não gostam de Marcelo, mas também nunca votariam no candidato do PCP ou do Bloco de Esquerda, poderiam votar. Quem sabe, até, se o próprio Bloco de Esquerda não apoia também Ana Gomes, só para irritar mais um bocadinho António Costa.

Ana Gomes, seria, por isso, uma espécie de três em um: resolveria um problema a António Costa, permitiria a Marcelo poupar-se no combate político com André Ventura e, cada voto que roubasse ao líder do Chega, seria um favor que estaria a fazer ao país. Não votaria nela, mas gostava muito que se candidatasse.

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