Novo aeroporto? Jamais

Haverá vários fatores que ajudam a explicar o atraso do país em termos económicos e sociais. Décadas de estagnação ou de crescimentos medíocres, salários miseráveis, serviços públicos que não respondem às mais básicas necessidades das populações. Enfim, a lista dos atrasos - muitas vezes dos retrocessos - é infindável. Mas poucos fatores resumem tão bem este problema como o calculismo político. E o processo do novo aeroporto de Lisboa é um óptimo exemplo.

De manhã bem cedo, começaram a chegar os convidados à Gare Marítima de Alcântara, para o grande evento. Comunicação social em peso, representantes das companhias áreas, especialistas em aviação, os mais altos dignitários dos organismos públicos, toda a gente vestida de gala para assistir a um espetáculo de cor, luz e som, à boa maneira socrática, onde seria revelado ao país o desenho do novo aeroporto internacional de Lisboa. Os estudos estavam todos feitos, os prós e contras todos pesados e a decisão política estava tomada. O novo aeroporto iria ser construído na OTA. Só que não.

As críticas à decisão do Governo de José Sócrates, em 2007, soaram tão alto e foram tão audíveis que o ministro Mário Lino foi obrigado a engolir o seu "jamais" à margem sul e a mudar para lá o projeto. Afinal, era mesmo no "deserto" que o aeroporto devia ser construído. Agora é que o Governo tinha mesmo a certeza. Tinha acabado de encomendar mais uns estudos - desta vez ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil - e já não restavam dúvidas. O melhor sítio para construir um aeroporto era o campo de tiro de Alcochete. E com ele vinha também uma nova travessia sobre o Tejo - "suponha que dinamitam uma ponte", havia dito uns meses antes Almeida Santos, quando o PS ainda defendia a OTA - e, claro, a alta velocidade. Primeiro a OTA, depois Alcochete. Siga. Agora é que é. Só que não.

Às dúvidas sobre a localização do aeroporto começavam a juntar-se outras: sobre a real necessidade de construir um novo aeroporto. Seria mesmo necessário? A Portela estaria mesmo à beira da ruptura? Não seria esta mais uma das obras faraónicas de José Sócrates?

No meio desta discussão chegou a crise financeira mundial. O PSD, que já tinha defendido tudo em dobro - novo aeroporto e várias linhas de alta velocidade -, passou a ser a voz da razão e o defensor das contas públicas. Mais do que a localização ou a necessidade de termos um novo aeroporto, a discussão passou a ser se o país tinha reais capacidades para investimentos desta envergadura. A troika estava a chegar. Sócrates recuou. E o novo aeroporto foi para a gaveta. Tal como a alta velocidade e a terceira travessia do Tejo.

Ironicamente, foi o PSD de Pedro Passos Coelho que voltou a abrir essa gaveta, quase quatro anos depois. O país não tinha enriquecido de um momento para o outro - bem pelo contrário -, mas a evidência de que o aeroporto da Portela estava rapidamente a caminhar para o limite da sua capacidade impunha-se. Para não parecer que José Sócrates tinha razão, fazem-se obras na Portela e escolhe-se outra localização para um aeroporto complementar. E é assim que o novo aeroporto passa a ser no Montijo.

Mais estudos, mais avaliações, mais dinheiro dos contribuintes deitado à rua. A mesma rua para onde Passos Coelho foi atirado por António Costa com a formação da famosa geringonça. Ora, o atual primeiro-ministro tinha dois problemas com este tema: um de coerência e outro de mero calculismo político. Se fosse coerente, António Costa teria que defender a construção do novo aeroporto de Lisboa em Alcochete. Mas isso significaria ressuscitar o "fantasma" político de José Sócrates que, entretanto, se tornou numa espécie de ativo tóxico para o PS. E, assim, o primeiro-ministro - que, quando era presidente da Câmara, achava um disparate ter um aeroporto no centro da cidade - optou pela solução Portela + Montijo.

Aqui chegados, o Governo parece disposto a tudo para não perder a face. Até a mudar a lei, quando ela não lhe convém. O PSD opta pela posição confortável de não se comprometer com nada. Não está contra o Montijo, mas também não descarta Alcochete. E a esquerda, que ainda não digeriu o fim da geringonça, vai minando, como pode e o mais que pode, o processo.

Não sei, honestamente, qual é a melhor localização para o novo aeroporto. Nem tenho de saber. É para isso que existem organismos públicos com técnicos qualificados e em quem temos de confiar. Sei, pelos números que são públicos, que o aeroporto da Portela está à beira do esgotamento e, pelo senso comum, que o melhor sítio para se ter um aeroporto não é no meio de uma cidade. Sei que esta discussão em Portugal leva mais de 50 anos, desde 1969, quando Marcello Caetano e Américo Tomás decidiram que era preciso construir um novo aeroporto no Montijo e alargar o atual. E que, em pouco mais de meio século, o país já gastou milhares de euros num aeroporto que não existe e ninguém sabe se "jamais" vai existir.

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