Criminosos de guerra

Bem sei que estamos todos - ou quase todos - focados no combate à pandemia, a lutar pela vida e, ao mesmo tempo, a tentar salvar o que podemos da economia mundial. Bem sei que tudo o que enfrentamos é novo e que o desconhecido nos obriga, muitas vezes, a cometer erros. Que esses erros são humanos. Mas a forma como alguns líderes políticos têm lidado com a crise das nossas vidas devia ser considerada crime de guerra. Porque é uma guerra que estamos a travar. E porque "condenar" à morte ou à ditadura milhões de pessoas, com tamanha leviandade, só pode ser considerado criminoso.

Levante-se o réu Donald Trump. Esse génio que passou o mês de janeiro a desvalorizar o vírus e a prometer aos americanos que o país estava preparado. Que em fevereiro dizia que o vírus haveria de desaparecer milagrosamente, lá para abril, com a chegada da primavera. E que só em março começou a tomar medidas, dizendo, ainda assim, que tudo não passava de uma gripe comum, sempre com aquela postura de homem invencível que só os muito arrogantes ou os muito estúpidos conseguem fazer perdurar no tempo.

As consequências de tamanha irresponsabilidade estão à vista: os Estados Unidos são já o país do mundo com mais mortes - 25.757 na quarta-feira - e contabilizam já mais de 600 mil infetados. Perante tamanha catástrofe, Trump fez o que os cobardes sabem fazer melhor: fuga para a frente. Em ano de eleições, o presidente que achava que a reeleição estava garantida decidiu apontar o dedo noutra direção, que não a dele. Na impossibilidade de culpar os democratas, decidiu culpar a Organização Mundial de Saúde. E suspender a contribuição dos Estados Unidos para esta organização. Em plena pandemia.

Independentemente dos erros que a OMS possa ter cometido - e, seguramente cometeu - na gestão desta crise e nos ouvidos que deu à China, se isto não servir para os americanos perceberem o louco que têm na Casa Branca, não sei o que será preciso mais.

Talvez o isolamento nos dê o tempo suficiente para meditarmos todos no país e no mundo que queremos depois desta guerra

Mais a sul, no Brasil, há outro "criminoso de guerra" à solta. Chamar-lhe louco seria um insulto para quem sofre de demência, pelo que talvez seja preferível apontar-lhe os "crimes" perversos e conscientes que comete todos os dias, deixando milhões de brasileiros em risco.

Levante-se o réu Jair Bolsonaro. Por difícil que seja deixar de lado as alarvidades que diz e faz diariamente, centremos-nos nas medidas que não tomou, nos exemplos que não dá e, sobretudo, nas mensagens falsas que passa todos os dias. Contrariando os dados do seu próprio Governo - que mostram que o número de mortos e de infetados mais do que duplicou nas últimas duas semanas -, Bolsonaro veio dizer que o vírus da Covid-19 já estava a abandonar o Brasil. O presidente brasileiro insiste em ignorar todas as orientações de distanciamento social e as dúvidas sobre o real impacto desta pandemia neste país são cada vez maiores. Um grupo de investigadores brasileiros aponta para um número de infetados que pode ser 12 a 15% superior aos dados oficiais. Se isto não é um crime, não sei o que será.

Aqui mais perto, temos ainda o caso da Hungria, onde um ditador - oportunista, como são todos - se está a aproveitar desta pandemia para cumprir - e acelerar - um desígnio antigo.

Levante-se o réu, Viktor Orbán. Ao abrigo do estado de emergência, o Presidente húngaro tem aproveitado para cumprir vários objetivos: silenciar a imprensa, aniquilar a oposição e eternizar-se no poder. E sim, a Hungria faz parte da União Europeia. A verdade sobre o que se passa neste país só a história a poderá contar por inteiro, mas é possível, desde já, perceber como os direitos, liberdades e garantias de um país europeu, no século XXI, estão a ser mais condicionados do que em qualquer estado de emergência provocado por uma pandemia. Crimes disfarçados por uma guerra que é de todos e que tem várias vítimas. Umas infetadas. Outras afetadas.

Talvez o isolamento nos dê o tempo suficiente para meditarmos todos no país e no mundo que queremos depois desta guerra. Sabendo nós que, depois desta pandemia, dificilmente o antes se vai repetir, talvez possamos todos pensar melhor nas escolhas que fazemos. Nos "salvadores" que lá por fora, como cá por dentro, nos tentam enganar e embalar com discursos salvíficos, cheios de frases feitas e bacocas.

Talvez este seja um bom momento para aprendermos alguma coisa com os Estados Unidos, com o Brasil ou com a Hungria, e compreendermos melhor o que significa ter oportunistas disfarçados de populistas no poder. Porque eles também andam por cá, a tentar furar. A alimentar-se do medo que todos temos desta pandemia, para nos assustar com notícias falsas e a tentar dar nas vistas, quais crianças a fazer birra só para chamar à atenção.

Talvez esta seja uma boa oportunidade para percebermos o valor que uma democracia madura tem. E como está nas nossas mãos defendê-la dos que a querem destruir em função de um projeto que tem tanto de pessoal como de mesquinho. Em tempos de guerra também se cometem crimes. E, vencida a guerra, os criminosos têm de ser identificados e punidos.

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