Opinião da Direção

Cho Yeongmoo

A onda coreana está bem presente em Portugal

Cheguei a Lisboa há três meses. Os meus amigos felicitaram-me pela minha nomeação como embaixador em Portugal e fiquei verdadeiramente surpreendido com a quantidade de coisas que sabiam sobre Portugal. Conheciam as obras de José Saramago, recomendaram o filme Comboio Nocturno Para Lisboa, falaram do clima maravilhoso. Lembravam-se também das incríveis iguarias, de variados vinhos de grande qualidade e, sobretudo, da simpatia das pessoas.

Cho Yeongmoo
Viriato Soromenho Marques

A bioeconomia no planeta oceano

A II Conferência da ONU sobre os Oceanos revelou a inexistência de santuários livres dos impactos negativos da economia humana. A existência de uma pesca de arrasto, recebendo subsídios públicos, responsável pelo empobrecimento, ou total destruição, de 50 milhões de Km2 (quase 10% de toda a superfície da Terra!), e libertando tanto carbono para a atmosfera como o do transporte aéreo, seria suficiente para demonstrar que existe uma brutal assimetria entre o poderio destrutivo da tecnologia e a anemia das instituições políticas e jurídicas, incapazes de romperem a sua cumplicidade com os interesses económicos que governam o mundo. Apesar de tudo, valeu a pena. Percebemos como a ONU é hoje uma frágil vela esfarrapada, tentando não naufragar sob os impetuosos ventos do futuro. Mas não me atrevo a sugerir que não ter vela alguma fosse preferível à rasgada vela da ONU...

Viriato Soromenho-Marques 
Raúl M. Braga Pires

A NATO no Magrebe/Sahel (depuração)

Na continuação do artigo que publicámos esta semana sob o título NATO no Magrebe/sahel: uma questão de sobrevivência, uma possibilidade, e sendo públicos o acordado e decidido na Cimeira NATO de Madrid, que terminou ontem e que se pode resumir à aprovação das candidaturas da Finlândia e da Suécia e a um novo conceito estratégico, que define a Rússia como "a maior e mais directa ameaça à segurança da Aliança Atlântica", quando no conceito estratégico anterior se definia (a Rússia) enquanto parceiro estratégico, termina com o limbo da indefinição do inimigo objectivo, desde o fim da guerra fria. Desde 1991 até ontem o Ocidente/NATO andou meio perdido no "nevoeiro do consumo", desde o imperativo de estancar o tribalismo eslavo, sem aspas, na ex-Jugoslávia (1991-2001), passando pela "guerra humanitária de Clinton" (Somália, 1993), até à intervenção humanitária, também sem aspas, na Líbia (2011). A Rússia, para muitos "economicamente falida e militarmente obsoleta", como respondeu um colega de curso num exame oral, com chumbo garantido dada a leitura, volta a recentrar o já esquecido e quase científico poder centrípeto da hinterlândia. Moscovo, no centro da Eurásia (a maior massa de terra do planeta), com mapas nas paredes das salas de aula que não deixam dúvidas sobre a sua centralidade, nunca escondeu a sua vontade e poder de sucção da periferia. Por isso mesmo veem no Cabo da Roca a "cabeça da Europa" e não as "nádegas", como nós!

Raul M. Braga Pires
Miguel Romão

Ainda Jéssica, por todos nós

Na passada semana, aqui, neste mesmo espaço, escrevi um texto em que responsabilizava o Ministério Público (MP) por uma eventual ausência da sua intervenção devida, a propósito do processo judicial de que a pequena Jéssica, de 3 anos ao momento da sua morte, era o motivo. Parece que afinal, ao contrário das informações tornadas públicas no momento em que escrevi, não houve a suposta dormência administrativa que antevia nesse meu texto, por parte do Ministério Público de Setúbal. Ainda bem. Penitencio-me, portanto, e apresento as minhas desculpas pela atribuição direta de responsabilidades que fiz ao MP, com os elementos, públicos, de que eu e os demais dispúnhamos, à data em que escrevi. Acredito naturalmente, também, que haja procuradores do MP a tentar fazer o melhor que podem e sabem, dentro daquelas que são as suas responsabilidades e possibilidades. E as falhas de comunicação pública da sua estrutura hierárquica não os devem diminuir pessoalmente, como eu terei feito.

Miguel Romão
Sebastião Bugalho

Fazer de nós parvos

Pelas nove da manhã de ontem, o deputado Carlos Pereira (PS) dizia à TSF que a construção de uma pista suplementar ao aeroporto de Lisboa no Montijo era "uma relevante tomada de decisão" da parte do governo. Pelas 09.45, o gabinete do primeiro-ministro, que estava em Madrid, emitiu um comunicado desautorizando essa decisão do ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, e determinando a revogação do respetivo despacho. À mesma hora, fonte próxima de António Costa fazia chegar à imprensa que o chefe de governo "desconhecia" o dito. Em Madrid, na Cimeira da NATO, o primeiro-ministro recusava falar sobre o caso por estar "fora do país". Pelo meio-dia, o líder parlamentar do PS afirmava que "não sabia nem tinha de saber" da decisão do governo que, coincidentemente, o seu deputado Carlos Pereira defendera horas antes. Ao mesmo tempo, Mariana Vieira da Silva, ministra responsável pela coordenação política do governo, negava qualquer comentário sobre a ausência de Pedro Nuno da reunião do Conselho de Ministros, limitando-se a reforçar que o despacho do ministro tinha ordem de revogação. Horas depois, o próprio Pedro Nuno viria pedir desculpa pelo "erro de comunicação", assumir que o despacho estava já revogado e revelar que a solução ("o procedimento e objetivo definido") presente no despacho era do conhecimento do governo. À tarde, António Costa saudaria o recuo do ministro, abrindo ao mesmo tempo espaço para outras soluções que não a do Montijo, conforme as ideias, imagine-se, de Luís Montenegro, e contrariamente, pasme-se, aos tais deputados que haviam defendido a iniciativa de Pedro Nuno Santos, seu ministro.

Sebastião Bugalho
Rosália Amorim

Manter os adversários por perto

"Um erro de articulação política e de comunicação" terá agitado a relação entre António Costa, Pedro Nuno Santos, Luís Montenegro e Marcelo Rebelo de Sousa. Mas a explicação do ministro das Infraestruturas convence pouco ou nada. Não passaria pela cabeça de nenhum ministro anunciar uma decisão desta dimensão - a estratégia para o novo aeroporto de Lisboa, compreendendo, para já, três localizações e um investimento de seis mil milhões de euros, sem contar ainda com as acessibilidades - em nome de todo o governo e sem falar com o chefe do Executivo.

Rosália Amorim
Rosália Amorim

Um erro ou um teatro que pode sair caro a Pedro Nuno Santos?

O primeiro-ministro anda em campanha pela Europa. Poderá sonhar com um lugar importante no exterior e estar menos focado na política interna. A coordenação do governo, que à partida estará a cargo da ministra Mariana Vieira da Silva, poderá não estar a funcionamento no seu pleno. Se estivesse a funcionar não teríamos um ministro, Pedro Nuno Santos, a anunciar uma decisão estratégica e de longo prazo para o país e, logo no dia seguinte, o primeiro-ministro a dar um passo atrás.

Rosália Amorim
Javier Solana

A segurança europeia após a Cimeira da NATO em Madrid

No final de junho, 25 anos depois de Madrid ter sido a última sede da Cimeira da NATO, a capital espanhola volta a ser palco de um novo capítulo da segurança europeia. E a Europa, na sua maioria, terá de ser a protagonista. Em última análise, o próximo encontro da Aliança deve ajudar-nos, europeus, a intensificar e assumir as nossas responsabilidades no que diz respeito à segurança do nosso continente. Essa é a melhor e mais necessária contribuição que a Europa pode dar para o futuro da NATO.

Javier Solana
Pedro Marques

Regresso ao passado

Odia 6 de janeiro de 2021 foi o clímax da Presidência de Donald Trump. Confrontado com a sua derrota nas urnas, Trump insistiu na narrativa falsa sobre eleições fraudulentas, mobilizou e incentivou os seus mais fervorosos apoiantes a invadir o capitólio nos EUA. Foi uma tentativa desesperada de impedir a transição de poder, que bem reflete os seus quatro anos de instabilidade, polarização e desrespeito pelas mais básicas normas de convivência democrática.

Pedro Marques
Rute Candeias

Todos a bordo

Há problemáticas ambientais no que concerne ao oceano que estão longe de se resolverem e que exigem medidas efetivas e assertivas. Falamos do lixo marinho, da insustentável exploração dos recursos marinhos e da, já tão conhecida, crise climática, que está a ter impactos profundos nestes ecossistemas devido, sobretudo, ao aquecimento e à acidificação da água do mar. São porventura temas já muito falados e estudados, e até banalizados, mas infelizmente a situação é grave.

Rute Candeias
Bernardo Ivo Cruz

Em Lisboa reaprendemos a olhar para os oceanos

No final da década de 80 do século passado a então primeira-ministra da Noruega, Gro Brundtland, coordenou a publicação de um relatório intitulado O Nosso Futuro Comum, no qual faz a ligação entre as alterações climáticas e o desenvolvimento. É nesse mesmo texto que surge o agora corriqueiro termo "desenvolvimento sustentável". Se o mundo tivesse dado ouvidos às preocupações que o relatório identificou, teríamos tido tempo para dar resposta aos desafios que temos coletivamente pela frente. Não ouvimos e agora o tempo é pouco para o muito que temos de fazer.

Bernardo Ivo Cruz
Rosália Amorim

Aeroportos 3 - PSD 0

Mais de 50 anos depois e após várias localizações estudadas para o novo aeroporto de Lisboa, eis que surge uma rápida e determinada opção política: jogar com três aeroportos para a Grande Lisboa nas próximas duas décadas. O já existente, Humberto Delgado, na Portela, será melhorado para evitar manter o caos durante muito mais tempo e depois descontinuado; o segundo, o do Montijo, é para avançar já, mas com caráter provisório; o terceiro, em Alcochete, é (de novo) a aposta certeira para responder ao médio e longo prazo, no entender do Executivo de António Costa, e estará pronto em 2035.

Rosália Amorim
Carlos Rosa

O cérebro informático tem, ou não, lado direito?

Abolition of Man é a primeira banda desenhada criada com recurso à inteligência artificial e parece ser o prenúncio de que as profissões ligadas às artes visuais estão a caminhar para o abismo. Por exemplo, a ilustração que vêm ali em baixo na página, daqui por uns tempos será criada por um ser mecânico, 100% digital e inteiramente racional. Ou seja, uma máquina inteligente que tem o lado esquerdo do seu cérebro de tal forma expandido e desenvolvido que abdicou da sua parte direita, a parte da criatividade, da emoção e da subjetividade. É caso para dizer que a intuição e a imaginação foram, ou estão a caminhar, para o seu fim.

Carlos Rosa
Mirko Stefanovic

Cimeira europeia em Bruxelas

A última Cimeira Europeia em Bruxelas, que incluiu líderes dos países dos Balcãs Ocidentais, foi uma das reuniões mais dominadas pela política na história recente. A Ucrânia e a Moldávia obtiveram o estatuto de candidatos à adesão à União Europeia, o que foi um sinal muito importante do apoio que a UE está a dar à Ucrânia na sua guerra com a Rússia. Também é um sinal de que a UE está a voltar a sua atenção para a região das ex-repúblicas da URSS, o que pode ser um sinal bastante forte para os líderes russos durante a atual crise.

Mirko Stefanovic
Jorge Costa Oliveira

O futuro da RAE de Hong Kong e da GBA

No passado dia 9 de Junho, a Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Hong Kong e duas outras associações de Hong Kong organizaram em Lisboa um seminário alusivo aos 25 anos da Região Administrativa Especial (RAE) de Hong Kong e o seu futuro, incidindo, no seu devir próximo, no facto de ser uma das cidades-charneira da Área da Grande Baía (GBA, na sigla inglesa). A GBA é uma das principais megalópoles que o governo chinês está a criar e abrange as RAE de Hong Kong e de Macau, e 9 áreas urbanas da Província de Guangdong, com especial relevo para Guangzhou e Shenzhen; tem uma área total de c. 56.100 km2, uma população de 86 milhões de habitantes e um PIB global de 1,587 biliões de euros (um pouco maior que o da Rússia). A GBA foi a primeira megalópole a ter um "Plano de Desenvolvimento" aprovado, mencionando os objetivos da área mega-metropolitana e o papel de cada uma das áreas urbanas que a integram.

Jorge Costa Oliveira
José Ribeiro e Castro

Requiem pelo século XXI

O arrastamento da guerra é inquietante. Augura o pior. Qualquer guerra em desenvolvimento contém o risco de explodir para o indizível. E a arrogância bélica do Kremlin põe a Europa e o mundo diante de enorme perigo. Não podemos diminuir a gravidade de invadir um vizinho, atacado e bombardeado com crueldade. Nem podemos ignorar as vezes em que insinuou a ameaça nuclear, por trás da qual julga proteger-se, e fez ameaças directas a Suécia e Finlândia, membros da União Europeia.

José Ribeiro e Castro
Virginijus Sinkevičius

Os esforços necessários para melhorar a governação internacional dos oceanos

A primeira Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos teve lugar em Nova Iorque há cinco anos e foi um importante passo em frente para lançar o debate sobre esta matéria. Colocou em evidência o mau estado dos oceanos e tentou consciencializar o mundo sobre o impacto das atividades humanas nesta degradação. Durante essa conferência, a comunidade internacional comprometeu-se a tomar medidas decisivas para que os oceanos sejam limpos, saudáveis, produtivos e resilientes, o mais tardar até 2030.

Virginijus Sinkevicius
Joana Petiz

O SNS já rebentou, segue-se a Educação

Dois terços das crianças do 2.º ano erraram ou nem sequer conseguiram responder ao que lhes perguntavam. Até podem saber juntar as letras e ver ali palavras, mas pouco entendem do que estão a ler e as dificuldades que têm para se exprimir por escrito são dramáticas. É apenas a ponta de um imensamente destrutivo icebergue, que representa (também) os estragos de dois anos de covid numa área fundamental para o futuro do país. E que nem toda a boa vontade dos professores pôde impedir, entre escolhos antigos e a flagrante falta de meios para tentar evitar novo naufrágio: os computadores que ainda vão chegar, a internet que não é certa, o desprezo a que quem ensina foi votado por um governo que ainda finge acreditar que atribuir mais uns milhões no orçamento (que nunca chegam) resolve problemas. Mas poucochinhos, que as contas têm de se manter certas e os tempos não estão para brincar, como ainda ontem avisou Christine Lagarde.

Joana Petiz
Afonso Camões

Carapaus de corrida

Com as suas "Vinte mil léguas submarinas", Júlio Verne leva-nos 150 anos de avanço. Por cá, o mar continua a ser a grandiosa promessa, diante da qual meio mundo ainda nem sequer se atreve a molhar os pés. Em clima de guerra, que no plano económico já é global, e na mesma semana em que se realizam duas outras grandes cimeiras - G7 e Nato - Lisboa acolhe por estes dias a Conferência dos Oceanos, uma iniciativa das Nações Unidas com forte impulso da diplomacia portuguesa. Trata-se de um apelo à ação, exortando os líderes mundiais a aumentarem a ambição, a mobilizarem parcerias e dilatarem o investimento em soluções baseadas na natureza para reverter o declínio na saúde dos oceanos.

Afonso Camões
João Melo

O que será dos BRICs?

A grande imprensa ocidental, ocupada, ao invés de fazer jornalismo, em participar do esforço de guerra para, alegadamente, salvar a democracia na Ucrânia, não lhe deu a devida importância, mas nos passados dias 23 e 24 de junho estiveram reunidos em Pequim os representantes dos cinco países que compõem os BRICs: China, Índia, Rússia, África do Sul e Brasil. Penso não ser preciso realçar a importância dessa reunião num momento em que está em causa a possível reorganização geopolítica do planeta.

João Melo