O trumpismo em Biden

Com 78 anos de vida, 36 de carreira no Senado e dois mandatos como vice-presidente, a probabilidade de Joe Biden chegar à Casa Branca sem se contradizer era nula. Sendo a incoerência uma das inevitabilidades da política, ainda menos evitável será para um homem que começou tão jovem e que continua a trabalhar bem para lá dos limites de quem lhe antecedeu. Reagan era mais novo (77) quando deixou a Sala Oval do que Biden quanto assumiu o cargo, em janeiro passado. Seria, por isso, injusto confrontar excessivamente o atual presidente com o modo como a sua opinião acerca do Afeganistão foi flutuando, em público e em privado, a favor e contra, nas últimas duas décadas.

Em 2002, no início da invasão e no calor do pós-11/9, o então senador do Delaware apelava ao seu próprio partido para "não ter medo da expressão nation-building", advertindo que o julgamento da História se abateria sobre uma América que o receasse. Em 2021, na sua primeira intervenção após a queda de Cabul, salientou que "o objetivo nunca foi o nation-building". Em 2010, numa conversa com o diplomata Richard Holbrooke postumamente publicada em livro (Our Man, The End Of The American Century, 2019), Biden, à data vice-presidente, olhava para o Afeganistão assim: "Que se foda. Não temos de nos preocupar com isso. Fizemos isso no Vietname, o Nixon e o Kissinger lá se safaram. Não vou enviar o meu rapaz para lá em nome de direitos das mulheres, não é para isso que eles lá estão, não funciona assim"; algo mais próximo (e mais coloquial) do que tem afirmado recentemente.

O problema de Biden não é, portanto, o choque que a passagem do tempo provoca nas suas posições. O problema de Biden não é ser desmentido pelo que defendeu há vinte anos como senador ou há dez anos como vice-presidente. O problema de Biden é estar a ser desmentido ao segundo, ao momento, contradizendo-se não apenas a si mesmo mas à realidade que está a acontecer, em direto, diante de todos, no Afeganistão. A sua conferência de imprensa, há dias, foi um exemplo flagrante disso.
Biden declarou que "a Al Qaeda já não existe no Afeganistão", o que, mesmo que enfraquecida e dispersada, é falso. Horas antes, um dos terroristas mais procurados do planeta liderava as orações numa mesquita em Cabul e reunia com as forças talibãs. As suas relações com a Al Qaeda são conhecidas.

Biden afirmou também que "não há indicação que cidadãos americanos não consigam chegar ao aeroporto", isto é, regressar a casa - problema que tem sido exposto exaustivamente por repórteres no terreno, que testemunham a violência talibã nos check-points montados em torno de Cabul. A ideia, igualmente inverdadeira, de que "Estados Unidos recuperaram o controlo do aeroporto" Hamid Karzai é desmentida pelas imagens que nos chegam do caos que lá se vive. A promessa de que "todos os afegãos que colaboraram com os Estados Unidos serão ajudados" é manifestamente difícil de cumprir, não tendo o governo norte-americano registos oficiais de quem foram, ao longo de 20 anos, esses afegãos.

A inverdade final de Biden, rapidamente retificada por via jornalística, veio na forma de garantia que "todos os aliados europeus apoiaram esta retirada" - uma mentira não só exposta pelas críticas que Biden sofreu nos últimos dias pela Europa fora, como pelo incumprimento da promessa que havia feito na última reunião do G7, em junho, acerca da estabilidade e segurança de Cabul, assegurada por forças norte-americanas após a retirada. Ora, estabilidade e segurança dificilmente serão as palavras para descrever Cabul nesta hora.

A América precisava de um presidente que lhe devolvesse credibilidade aos olhos do mundo e factualidade ao discurso político.

Não o tem.

Colunista

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