O sistema já tremeu

Em mais uma fulgurante demonstração de bizarria política, o PSD apresentou uma série de cartazes na cidade de Lisboa com o rosto da sua candidata à Câmara Municipal da Amadora. Tirando o facto de os sociais-democratas liderarem uma coligação à autarquia da capital que nada tem a ver com Suzana Garcia e do genuíno absurdo que representa o mesmo partido fazer campanha no mesmo concelho com rostos, mensagens e objetivos diferentes, algo sobressai no meio da asneirada. Suzana Garcia anuncia que "O Sistema Vai Tremer" no dia 26 de setembro das eleições locais. Colocar outdoors contra esse "sistema" diante do Parlamento, em clara tentativa de intimidação institucional, é um descarado copy/ paste das táticas de comunicação de André Ventura, que quase monopolizou os arredores de São Bento no que concerne a propaganda. Ora, para uma mulher que foi à televisão manifestar a preferência pelo extermínio do Chega, do Bloco e afins, a inspiração venturesca, acompanhada pela tal conversa antissistema, arrisca fazê-la passar por inverdadeira. Mas, rezam os cartazes de Suzana, "O Sistema Vai Tremer"; independentemente de o PSD, por quem dá a cara, ser um partido fundador desse sistema.

O modo como Rui Rio permite, patrocina ou relativiza este acumular de disparates é, em suma, só mais uma demissão das funções que nunca realmente desempenhou. Líder da oposição, candidato a primeiro-ministro, presidente do PSD. Nunca foi a primeira, falhou e foi derrotado na segunda, raramente exerceu a última. Depois de subverter os equilíbrios constitucionais do regime, sendo complacente com um governo que exigia escrutínio democrático e negligente perante a ascensão populista à sua direita, Rio chega as autárquicas com o PSD transformado num espetáculo de variedades. Além de escolher candidatos autárquicos com base em sondagens, as mesmas que açoita e vilipendia quando a si dizem respeito, permitiu que o seu partido, que tanto tentou redefinir ideologicamente após Passos Coelho, fosse tomado por um bando de aves raras que é tanto do PSD como eu, caro leitor, sou maoísta. No distrito de Lisboa, como comentava humoradamente Luís Paixão Martins há dias, os sociais-democratas converteram-se num partido-cabide: qualquer um se pendura. Suzana Garcia, versão Chega em lata laranja, é o expoente disso. Mas não é preciso olhar muito mais longe para encontrar outros exemplos.

A promessa da advogada vem, então, um pouco atrasada, mais vestida de bandeira do que da constatação que é. O "sistema" não vai "tremer" nas autárquicas. O sistema já treme, e por todo o lado, há bastante tempo. Sem estabilidade governativa na incumbência, sem visão comum à esquerda, sem personalidades à direita, a república fratura-se a ritmo suficientemente suave para a maioria ignorar, a minoria aproveitar e nenhuma das duas o evitar. Na economia, as consequências do fim das moratórias e das imparidades que estas criarão na banca abrirão ainda mais essas brechas. Este fim de semana, no congresso do último partido nacional que resta ao regime, o PS, não se proferiu uma palavra sobre nada disto. Ao que parece, estão ocupados com eles próprios.

Colunista.

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