O sentido da vida. 4. A morte e a esperança

1 A morte é o choque mortal com o sentido. Ela é a barreira inultrapassável, definitiva. Significativamente, os antropólogos são unânimes em reconhecer na sepultura, portanto, na consciência da morte e na procura de transcendê-la, o sinal decisivo, indesmentível, de que, na história gigantesca da evolução, estamos em presença do ser humano, de alguém, da pessoa. Essa consciência é sempre acompanhada da religião e, de um modo ou outro, da filosofia, como reconhece a história, de Platão - a filosofia é "o exercício de morrer e estar morto" - a Schopenhauer, que via na morte a "musa da filosofia", ou Martin Heidegger.

Perante a morte, quando tudo desaba e se afunda, erguem-se, mais dramáticas, esmagadoras, as perguntas essenciais: Donde vimos?, Para onde vamos? Qual o sentido de tudo? O que vale a existência? Perguntas inevitáveis para todos, pois, como dizia Ernst Bloch, no regresso a casa após o funeral de um amigo, nem mesmo o maior capitalista pensa apenas na sua conta no banco. Aí está a razão por que, para conhecer uma sociedade, talvez mais importante do que saber como é que nela se vive, é saber como é que nela se morre e se trata os mortos. A maior prova do profundo mal-estar da nossa sociedade é que teve de fazer da morte um tabu. As nossas sociedades tecnocientíficas, da competição, do hedonismo, da ausência da religião, para serem o que são, foram as primeiras na História a colocar o seu fundamento sobre a negação da morte. E não se pense que isso acontece porque ela já não é problema. É o contrário: de tal modo é problema, o único problema para o qual uma sociedade que se julgava omnipotente não tem solução, que a solução que resta é: disso não se fala. Mas de uma sociedade que é incapaz de integrar a morte não se pode dizer que está sã. Evidentemente, não se trata de lidar com a morte de forma paralisante - não se pode esquecer que a morte foi muitas vezes utilizada de modo terrífico até pela Igreja, para dominar as consciências -, mas de modo sadio. Para se viver melhor, intensamente, com dignidade, livres, apreciar o milagre estonteante do ser e de ser, um rosto, o mistério do seu olhar... Sem a morte, não haveria ética, pois nunca seríamos obrigados à urgência da decisão: é a tomada de consciência da morte que nos revela o milagre da existência e o valor de cada instante da vida e a sua densidade íntima e definitiva, é ela que nos coloca perante a exigência da "existência autêntica" por oposição à "existência inautêntica", como reflectiu Martin Heidegger. Em presença da morte, conquistamos a liberdade sem mentira... E é numa existência autêntica, que é uma vida amada e amante, que pode nascer a esperança fundada da Vida que não morre. Nas situações-limite, o Homem é posto em confronto com o apelo e a fé possível no Sentido último, que os crentes invocam como Deus.

2 Andamos frequentemente, talvez a maior parte do tempo, distraídos em relação ao essencial. Mas um dia chega a morte e é o confronto com o abismo sem fundo. "Ai que me roubam o meu eu!", gritava Unamuno perante a morte. Frente àquele "nunca mais para sempre" neste mundo (Vladimir Jankélévitch), ninguém fica indiferente, tudo estremece. E agora?, e depois?

Se na morte formos engolidos pelo nada, onde está o Sentido último da existência?, que valor tem a distinção entre bem e mal, justo e injusto, digno e indigno?, onde assenta a dignidade do Homem, que é pessoa e não coisa? Se tudo se afunda no nada, já tudo é nada. Que valeram todos os combates, todas as lutas, toda a generosidade, toda a abnegação, todo o amor? O grande filósofo J. G. Fichte perguntava, voltando atrás no tempo: ... os meus tetravós nasceram, cresceram, amaram, tiveram filhos, morreram; os meus trisavós nasceram, cresceram, amaram, tiveram filhos, morreram; os meus bisavós nasceram, cresceram, amaram, tiveram filhos, morreram; os meus avós nasceram, cresceram, amaram, tiveram filhos, morreram... A vida é isto?

O Homem é por natureza o ser do transcendimento: nunca se contenta com o dado e está sempre para lá de si e de toda a meta alcançada. Vive um desnível insuperável entre o que realiza e a aspiração inesgotável a realizar-se sempre mais. Por isso, vai caminhando de sentido em sentido, mas só encontrará satisfação total no Bem Sumo enquanto Sentido de todos os sentidos, isto é, o Sentido definitivo e plenificante. Mas ele não pode realizar por si esse Sentido, que só por graça lhe pode ser dado. A História lê-se do fim para o princípio, de tal modo que só no fim, na morte, poderíamos saber quem somos, mas já lá não estamos. Assim, só Deus, no final, pela graça da plenitude da Vida, nos dirá quem somos e o que somos para Ele e Ele para nós. Esta é a promessa da Vida eterna. "Eu sou a Ressurreição e a Vida", disse Jesus. "Santa esperança!", dizia Péguy.>

Ludwig Wittgenstein escreveu que "acreditar em Deus significa ver que a vida tem um sentido". Lá no mais íntimo, os crentes sabem que é assim. E se na hora da morte nos fosse revelado que não há Deus? Não me arrependeria por ter acreditado. Porque, como disse o filósofo
A. Valensin, o mal não estaria em nós por termos acreditado, mas em Deus, que, devendo existir, não existe. É uma espécie de argumento ontológico moral, à maneira de Simone Weil, a filósofa mística: não se arrependeria, pois "Deus é o Bem", que não nos será tirado. E há uma dívida da História para com as vítimas inocentes; sem Deus, quem pagaria essa dívida?

Padre e professor de Filosofia.Escreve de acordo com a antiga ortografia

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