O regime e a revolução 

A morte de Otelo Saraiva de Carvalho provocou uma reação social não menos livre de consequências políticas. A direita e a esquerda digladiaram-se no seu torneio de lutos, organizações terroristas e espadeiradas, como se fossem panfletos e não vidas humanas que a ação de Otelo houvesse refeito ou desfeito. O regime, à semelhança do que acontecera com Marcelino da Mata, refugiou-se num cortês equilibrismo de boas-vontades. Luto nacional, não. Presença no velório, sim. Palavras de simpatia, evidentemente. Mas bola para a frente se fizerem favor, que as polémicas quotidianas sempre são de clivagem mais cómoda do que as pontuais, ainda que significativas, controvérsias oriundas da História.

Se alguém julgava que o cinquentenário do 25 de Abril não reabriria feridas - e exporia cicatrizes há tanto e tão bem ocultadas -, o engano ficou desmentido. Que as revoluções, pela sua natureza de verve e extremo, não possuam unanimidade no aplaudido, só surpreenderá os incautos. Mas o que as memórias coletivas do período revolucionário abriram não foi somente uma porta de divergência sobre o que aconteceu - sobre o passado -, foi também uma séria discordância sobre o caminho a que esse passado nos levou, isto é, o presente.

Olhando à volta e revisitando a discussão, facilmente se detecta uma insatisfação distinta, mas igualmente poderosa, sobre a democracia de hoje, sobre o estado do regime, sobre a República, agora à beira da meia-idade, enterrando sucessivamente os seus fundadores num misto de mitologia ignorante e conveniente pressa. A esquerda, como se viu com a elevação de Otelo, saliva pela dita "democracia popular", cuja impopularidade nas urnas é das únicas continuidades nestes 47 anos. Um saudosismo das plataformas "do proletariado", cuja amnésia em torno dos seus crimes contra a humanidade roça o branqueamento.

Não entender que essa nostalgia por aquilo que não chegou a acontecer em Portugal - e que nunca chegou a resultar no mundo - é estruturalmente incompatível com o nosso sistema constitucional, plural, parlamentar, representa igual tangente ao cinismo. Quando ouvimos um candidato autárquico do Bloco de Esquerda, ex-operacional das FP-25, não revelar arrependimento algum pelo homicídio de uma criança num berço, esse cinismo converte-se em desumanidade.

A direita, por sua vez, enfrenta um prenúncio algo irónico. Se criticar Otelo pela sua oposição à democracia liberal, defende o regime democrático em vigor. E se louva a democracia em vigor está a engrandecer um regime onde ela própria, a direita, se tornou eleitoralmente residual, culturalmente minoritária e politicamente irrelevante. Ou somos uma democracia que vale a pena proteger ou somos um regime comparável à Venezuela e tudo mais. As duas ao mesmo tempo, mais do que uma incoerência, seria uma impossibilidade.

Há, claro, uma direita já não partidária da Terceira República (ou, como preferia Pulido Valente, da Segunda). É a direita que reclama uma "Quarta República", ao lado de André Ventura, que a carrega como programa e bandeira. Uma "nova Constituição", com menos poder no parlamento e mais liberdades na Presidência. Um novo regime, com menos partidos e, segundo apregoam, menos direitos para minorias. O tal novo país, exclusivo a "pessoas de bem".

Como, para tal, necessitaria de dois terços da Assembleia da República, a Quarta República do Chega parece mais um sonho propagandístico do que uma ameaça real. A única maneira de concretizar essa mudança seria, no fundo, uma revolução. Um "novo 25 de Abril", como Ventura não se cansa de repetir. Otelo, pelos vistos, não foi prova suficiente de que os momentos revolucionários possuem a particularidade de colocar o homem errado na hora certa, e que tudo o que daí provém facilmente foge das mãos que, a princípio, acreditaram ordenar o tempo e o modo.

Os tolos, afinal, são a nossa maior continuidade.

Colunista

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