O que nos aproxima e nos separa da Irlanda

As previsões de crescimento da Irlanda - 14,6% neste ano, segundo a Comissão Europeia - deram origem a múltiplas teorias e leituras, que vão desde o "milagre" económico em contexto de Covid-19 à tese de que o seu produto interno bruto (PIB) resulta apenas da presença no seu território de um contingente significativo de multinacionais, atraídas por uma política fiscal agressiva em termos de captação de investimento estrangeiro.

Não sendo economista, tenho, ainda assim, alguma experiência das políticas irlandesas, tendo sido, ainda na década de 1990, avaliadora da Entreprise Ireland, uma agência estatal para o desenvolvimento das empresas, muito orientada para a inovação e para a formação avançada.

Desse trabalho feito pelos irlandeses resulta muito do que hoje os separa de países como Portugal, ao qual a mesma Comissão Europeia aponta um crescimento do PIB de 4,5% neste ano.

Os incentivos fiscais concedidos pela Irlanda às empresas são seguramente competitivos. Tal como o é o facto de a língua oficial ser o Inglês. Mas estas mais-valias não justificam por si a permanência das multinacionais no país quando, atualmente, não faltam concorrentes a oferecer condições mais vantajosas. Nem explicam porque as próprias empresas irlandesas têm prosperado em contextos onde outras estão a sofrer.

A Irlanda não goza de um estatuto especial que a torne imune às crises. Em 2020, no contexto do primeiro grande impacto da pandemia de Covid-19, fechou o quarto trimestre com taxas de desemprego próximas dos 20%, que, entretanto, já conseguiu baixar para valores inferiores ao português. Na sequência do Brexit, sofreu como poucos. De resto, há dias, a Comissão Europeia aprovou a atribuição de 920,4 milhões de euros ao país, ao abrigo da Reserva de Ajustamento ao Brexit, com a comissária europeia Elisa Ferreira a explicar precisamente que, "dentro da UE, são as pessoas na Irlanda que mais estão a sentir" o impacto da saída britânica.

O que aquele país tem vindo a demonstrar é uma enorme resiliência independentemente das conjunturas. E essa resulta de todo um ecossistema voltado para a inovação que foi cuidadosamente delineado e tem vindo a ser aplicado, de forma consistente, pelo menos desde a crise das dívidas soberanas do início deste século.

Quem quiser conhecer o segredo do suposto "milagre" irlandês deve ler o relatório "Ireland 2040", supervisionado pela então vice-primeira-ministra, Frances Fitzgerald, minha atual colega deputada no Parlamento Europeu, a qual tive o prazer de acolher, em março deste ano, numa iniciativa do Instituto Sá Carneiro e do Conselho Estratégico Nacional do PSD sobre o papel da inovação no desenvolvimento económico.

Deste ecossistema irlandês fazem parte a simplicidade, estabilidade e transparência das políticas públicas, nomeadamente em matéria fiscal; o foco em criar condições de atratividade para o investimento estrangeiro, com particular atenção para as novas tecnologias, TIC e Bioengenharias; e, como elemento central, uma política de décadas de investimento nas qualificações da população, as quais oferecem às empresas, mais do que um incentivo pontual para investir, uma razão para ficar.
Portugal também tem vindo a fazer, sobretudo desde a década de 1990, uma forte aposta nas qualificações, que deve continuar a reforçar. E esse é um motivo de esperança. Até porque essa é porventura a tarefa mais difícil e lenta de alcançar por qualquer país que ambiciona ser mais competitivo.

Mas a verdade é que, no nosso caso, os benefícios desse esforço ainda não estão a ser plenamente aproveitados pela economia e pelas empresas. E não estão porque nos falta criar as restantes condições para a inovação. Aquelas que a Irlanda soube atempadamente identificar e implementar.

Não temos de copiar a Irlanda. Mas podemos olhar para ela e, definitivamente, aprender com os nossos próprios erros.


Eurodeputada

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