O pai da criança é ele

Em sessão na câmara da semana passada, os deputados brasileiros enterraram de vez o (não) tema do voto auditável, trazido para a atualidade por Jair Bolsonaro com dois objetivos. O de curto prazo era desviar a atenção da comissão parlamentar de inquérito que, enquanto investigava no Senado Federal a negligência criminosa do governo no combate à pandemia, descobriu também uma teia de corrupção na aquisição de vacinas falsas, envolvendo coronéis, reverendos e outros resíduos que orbitam o bolsonarismo. E o de longo prazo, que é ir preparando terreno para a contestação dos resultados das urnas em 2022, numa versão tropicaliente das cenas burlescas protagonizadas por Trump e os seus trumpistas amestrados, em janeiro, no Capitólio.

Mas o enterro do voto auditável, por ironia, levantou da tumba outro cadáver político - Aécio Neves. Entre a modernidade, o voto eletrónico e as trevas, a desconfiança oportunista da sua fiabilidade, o candidato presidencial derrotado em 2014 por Dilma Rousseff absteve-se, contrariando a indicação da direção do seu partido, o PSDB.

Não surpreende: afinal, em 2014, o então candidato a presidente, amuado, resolveu contestar os resultados da eleição que liderava a 30 minutos do fim da contagem mas que acabaria por perder para Dilma Rousseff.

E perdeu, diga-se de passagem, por pura incompetência pessoal - nem em Minas Gerais, que havia governado por oito anos, foi o mais votado, o que gerou o mortal slogan do PT "Quem conhece bem Aécio vota Dilma".

Essa derrota, tangencial e angustiante para a direita, foi o embrião do impeachment, clamado nas ruas por uma população de verde e amarelo a pedir "o fim da corrupção" mas cozinhado nos bastidores por dois expoentes dessa mesma corrupção, Eduardo Cunha e Michel Temer.

Aécio apostou todas as fichas no projeto de Cunha e Temer, certo de que em 2018 a presidência, desta vez, lhe cairia no colo.

Em vez disso, como se sabe, caiu no colo do mais despreparado dos políticos brasileiros. E quem foi o pai desse "bebé de Rosemary" chamado Bolsonaro? Ele mesmo: o neto de Tancredo Neves.

Senão vejamos: à direita, culpa-se o PT pela tragédia bolsonarista - alega-se que se não fosse a rejeição que o partido de Lula e companhia acumulou, não teria chegado ao poder um deputado tão incapaz. Bom, mas se houve alguém que quase impediu Bolsonaro de chegar ao Planalto foi o PT que, com Fernando Haddad, chegou a 45% dos votos.

E à esquerda culpa-se a Lava-Jato - argumenta-se que colocou todos os políticos, os bons e os maus, no mesmo saco, possibilitando a ascensão do pior. Bom, mas o parcial Sérgio Moro fez os possíveis, conforme constatado nas trocas de mensagens com os procuradores tornadas públicas anos depois, para preservar o PSDB, de Aécio, dos constrangimentos da operação.

Apesar de ter recebido o Planalto de bandeja da dupla Cunha-Temer, primeiro, e de Moro, depois, ao ser apanhado nas malhas da corrupção a pedir um empréstimo de milhões a um corrupto contumaz que tinha o curioso hábito de gravar conversas com políticos, Aécio cometeu um suicídio político. E levou junto para a forca o seu partido: o PSDB perdeu 46 milhões de votos (eletrónicos e bem contadinhos) de 2014 para 2018, todos eles para o bolsonarismo que assola o país.

E hoje o PSDB está tão fraco, tão fraco que nem consegue fazer respeitar a disciplina partidária dos seus militantes, como o politicamente falecido Aécio.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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