O outono da ordem global

O fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) criou a esperança de conseguir, com a criação da ONU e da UNESCO, apoiar a utopia que prometia uma ordem jurídica global e em paz. A relação entre o passado guardado pela história e a definição do esperado futuro implicou não esquecer os milhões de mortos nos combates e demais atrocidades presentes na experiência dos que assumiram reinventar a governança, destacando-se em resposta uma espécie de santos laicos, já na última idade, como foram Gandhi e Mandela, pilares da liberdade, e no Ocidente, no qual se professava o fim da supremacia colonial, também vendo assumir a governança por homens que, apesar da vida de longos anos, tinham a inspiração de que se ocupara Vieira, já passados séculos.

Lembram Konrad Adenauer quando já tinha 73 anos; Churchill que aos 66 anos fora chamado para salvar a Grã-Bretanha e a Europa da agressão nazi (1940-1945), voltando ao poder com 77 anos (1951-1955); Alcide de Gasperi, assumindo o governo de Itália em 1945, com 64 anos; Robert Schuman, primeiro-ministro de França (1947) com 61 anos. Sem eles não teríamos União Europeia, e com ela a pacificação das cóleras internas do inquietante extinto passado. Infelizmente, o voo dos cisnes brancos, que animava Ortega, foi, no século sem bússola em que 2020 está findo, substituída largamente pela chegada dos cisnes negros, incluindo a relação do ponto de partida fixado ou pelos costumes criados ou antes pelas leis imperativas, não acolhendo o sentido de Vieira ao concluir que "Deus fez o homem para a eternidade e não para o tempo".

Acontece que a evolução por vezes faz da vida ativa um "tempo breve", que a realidade articula com o "tempo longo" mas vazio dos que desconhecem o vigor das comunidades de afetos, a responsabilidade ética intergeracional, o respeito pela vida, vivida, enriquecida pela experiência, debilitada pela natureza mas apoiada na generosidade dos valores, se chegar à época cruel da sobrevivência isolada... No isolamento da sobrevivência, que é uma dor terminal, não é a estatística, é então o amor ao próximo que tem o seu dever. Estes reparos são lembrados de antigas evidências que encontram relevo em duas pequenas citações; primeiro do capitão Donald Hankey, morto em combate em 1918, que deixou esta imagem da guerra de 1914-1918: "Quando vemos os mortos, com os membros esmagados e mutilados, não podemos deixar de sentir repulsa pela guerra. É fácil falar de glória e de heroísmo quando se está longe dela"; a de Paul-Henry Spaak, na Assembleia Geral da ONU, quando o conflito da guerra fria o fez dirigir-se à URSS: "Sabeis qual é a base da nossa política? É o medo, o medo de vós, o medo da vossa política, o medo do vosso governo."

A utopia da ONU, que pregou a igualdade de etnias, de culturas, de religiões, sem distinguir etnias que fossem excluídas do poder, mas tendo apenas as cautelas da avaliação da capacidade e saber, que fortalecem a democracia e a paz global, foi como que submetida a conflitos e dependências, que fazem que esse século sem bússola reduza a utopia ao risco de não conservar a vigência dos seus princípios no mundo atingido por severos reveses.

Não foi a circunstância inesperada da pandemia a única oferecida causa de desatenção quanto aos conflitos, económicos, étnicos, culturais, militares, ou necessariamente de procura da definição de fronteiras estaduais, e, visivelmente, com crescente gravidade nos países exemplos, entre os quais se destacou a experiência que os EUA ainda estão a viver.

Entre agressões sem limites de valores, Trump, e o democrático (e católico) vencedor Biden, não é a juventude que os separa, é possuir, ou não possuir, o princípio da justiça natural e dos valores expressos pela Declaração de Direitos, a ser omitida em vigor, e navegar sem bússola no sentido de obter pragmaticamente o poder, como esteve a proceder inquietantemente Trump.

Uma das experiências da paz da guerra de 1939-1945 foi não hesitar com a retroatividade das leis e a criação de tribunais para os aplicar aos violadores da justiça natural na guerra que tinham perdido. A multiplicação dos conflitos, ou com forças armadas em combate ou pelo método terrorista, implica que a questão dramática para todos os povos, não se aplicando o castigo da Torre de Babel, é se a utopia da ONU e os deveres da UNESCO resistirão com o modelo proposto sobre a validade imperativa dos seus princípios do "mundo único", e "a Terra casa comum dos homens", princípios repetidamente assumidos pelo verbo, mas sem ouvidos atentos às vozes imperativas.

O tempo vai acompanhando a evolução dos riscos, que frequentemente apenas são reconhecidos depois de serem inevitáveis. Depois de terminar o atual conflito global da pandemia, a reconstrução da ordem global vai ter uma exigência inevitável de repor os valores com autenticidade. Colocando um ponto final no outono da ordem global em que temos vivido.

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