O nosso Trajano e a nossa tragédia

Um antigo mestre disse-me uma vez que os maus livros ficam velhos ao fim de um mês enquanto os grandes livros continuam novos passados mil anos. Dá-se o caso de Marguerite Yourcenar ser autora dos que encaixam na segunda categoria. Ninguém diria que a escritora francesa perderia o seu tempo a escrever sobre Rui Rio, coisa que de facto não fez, mas podemos vislumbrar nas suas Memórias de Adriano algumas pistas sobre o destino e a circunstância do líder da oposição, nascido seis anos após a publicação da obra-prima de Yourcenar. Ela, que dedicou meia-vida à ficção biográfica daquele imperador romano, manteve somente uma frase do seu primeiro rascunho: "Meu caro Marco". Sendo que o destinatário da carta com que Adriano se despede do mundo é o seu sucessor, Marco Aurélio, também nós, neste texto, falaremos dos dilemas em torno do futuro herdeiro de Rui Rio, e das vicissitudes evidentes que circundam o próprio.

Como Adriano -‒ isto é, Yourcenar -‒ começa pelo princípio, e Rio se encontra quase diante do fim, é na sua luta para chegar ao poder que nos podemos situar de momento. Adriano, ainda então jovem, disputa a sucessão a Trajano com rivais de longa-data, senadores instalados e generais algo exóticos. Trajano, o velho e belicoso incumbente, será o nosso Rio. Adriano, no PSD, já todos percebemos quem vai ser, mesmo que ninguém arrisque nomeá-lo prematuramente, evitando a exposição de posicionamentos e o fornecimento de desculpas ou motivações a quem de saída. Mas pesquemos nas páginas de Yourcenar para realmente entender o ponto. Sobre os últimos dias de Trajano ‒- o Rio desta estória romana ‒ conta Adriano que "negava a derrota como negava a morte".

"Nenhum de nós ousava lembrar ao imperador que a questão da sucessão continuava pendente. Talvez tivesse decidido, como Alexandre [o Grande], não nomear ele próprio o seu herdeiro; talvez tivesse para com o partido de Quieto [outro pretendente] compromissos que só ele conhecesse. Mas simplesmente recusava-se a encarar o seu fim. Assim se vê, nas famílias, velhos obstinados morrerem sem testamento. Para eles, trata-se menos de conservar até ao fim o seu tesouro ou o seu império, já meio desligados dos seus dedos entorpecidos, que de se não instalarem demasiado cedo no estado póstumo de um homem que já não tem decisões a tomar, surpresas a causar, ameaças ou promessas a fazer aos vivos. Eu lamentava-o: éramos demasiado diferentes para que ele pudesse ver em mim aquele continuador dócil, antecipadamente comprometido com os mesmos métodos e até com os mesmos erros, que a maior parte das pessoas que exerceram autoridade absoluta procura desesperadamente no seu leito de morte. Mas o mundo à sua volta estava vazio de homens de Estado: eu era o único que ele podia designar sem faltar aos seus deveres de funcionário e grande príncipe. Aquele chefe, habituado a avaliar as condições de serviço, sentia-se quase forçado a aceitar-me. Era, aliás, uma excelente razão para me odiar".

Quando chegarmos a outubro, e Rui Rio se mergulhar em álibis alheios para a sua terceira derrota consecutiva, clamando ter tido mais votos do que Passos quando o seu objetivo, desde início, deveria ser ter mais eleitores do que o PS, ficará mais claro, aos olhos de todos, quem poderia escrever este parágrafo sobre a liderança, não de Roma, mas do maior partido da oposição. Nesse dia, quando o Adriano luso se apresentar, regressaremos a Yourcenar.

P.S. ‒ O ministério de Eduardo Cabrita, que em 2018 defendia diminuir os limites de velocidade nas cidades para 30 km/h, engonha agora em revelar a velocidade a que ia o seu carro quando ceifou uma vida na A6. O desastre, em tudo trágico, merecia maior humanidade por parte do Estado e decência da parte do governo.

Colunista

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