O Natal tira lucidez aos políticos?

No dia de Natal do ano passado Portugal começou a liderar na Europa o registo do número de mortes provocadas pelo contágio da covid-19.

O país só voltou a estar abaixo da média europeia, nessa tabela trágica, no dia 1 de março deste ano.
Pelo meio estiveram 66 dias em que o número de mortes por milhão de habitantes, provocadas por esta doença, passou de cerca de uma média semanal de 7 óbitos por dia para, no dia 1 de fevereiro, 28,6.

Nenhum país do mundo, desde o início da pandemia em janeiro de 2020, teve até agora uma subida de mortes tão repentina, em tão curto espaço de tempo, como a que aconteceu, nessa época, em Portugal.

Também nenhum outro país do mundo teve uma descida tão rápida nessa estatística: no dia 1 de março, 29 dias depois do pico, a média semanal de mortes diárias por milhão de habitantes era de 4,61, enquanto na União Europeia era de 4,89.

Não será preciso um grande estudo científico para concluir que a decisão política, do ano passado, de permitir a circulação entre concelhos - durante bastante tempo cortada - para que as famílias se pudessem juntar durante o Natal foi decisiva para este desastre.

Também não é preciso ser-se um analista bem documentado para registar que quase nenhuma voz se opôs à abertura da circulação no Natal passado: do governo, da oposição, da administração pública, da direção-geral de Saúde, dos comentadores, dos especialistas televisivos em saúde pública, dos líderes das Ordens e Sindicatos profissionais de Saúde, todos, podendo discordar num pormenor ou outro da metodologia seguida, ou sugerindo a alteração de alguma medida pontual, alinharam pelo mesmo diapasão: "temos de salvar o Natal". Isto apesar de ainda não haver vacinas disponíveis na União Europeia.

Mas, contraditoriamente à medida de abertura de circulação, os meios de comunicação social replicavam há um ano inúmeros pedidos de apelo ao "bom senso" difundidos por epidemiologistas, acompanhadas de profusas recomendações de medidas de prevenção do contágio: reduzir o número de familiares presentes na consoada e utilizar máscara dentro de casa estavam na lista dos comportamentos ditos "responsáveis".

A contradição da informação entre a abertura da circulação, a mensagem "temos de salvar o Natal" e os apelos à prudência baralharam as pessoas.

Até Marcelo Rebelo de Sousa, algumas vezes o mais alarmista dos nossos políticos de topo em relação à covid-19, punha o medo da doença para trás e anunciava que celebraria a quadra com quatro refeições distribuídas por três dias com, cada uma delas, cinco pessoas à mesa.

Depois de vários especialistas o terem criticado, o nosso Presidente da República conformou-se e só fez um jantar com cinco pessoas.

No dia 20 de dezembro de 2021, esta segunda-feira, Portugal tinha, por cada milhão de habitantes, uma média semanal de 1,73 mortes por covid-19. A União Europeia registava 4,5. A aparente tendência é para haver uma subida, mas ela deverá ser mais forte no resto da Europa do que em Portugal... vamos ver.

Para além de sermos líderes mundiais na vacinação, com uma taxa de 90%, os portugueses têm igualmente acesso relativamente fácil a testes para detetar o contágio.

A situação atual é, portanto, muito diferente, para melhor, da que acontecia há um ano e não é a nova variante da doença, a Ómicron, que modifica a conjuntura, pois o número de casos graves que provoca não parece ser diferente do habitual.

O maior problema que pode ocorrer com o aumento de contágios é a carga sobre o Serviço Nacional de Saúde, cujos profissionais estão muito martirizados, e onde as falhas nos hospitais e na defesa contra outras doenças são, todos os dias, evidentes.

O medo de repetir o mesmo erro do ano passado não tem razão de ser: a realidade é outra, completamente diferente.

Mas há um erro comum: os decisores políticos, nesta altura do Natal, perdem a lucidez e dão-nos sinais contraditórios.

Por um lado, saúdam a celebração das Festas, por outro aplicam novas medidas de contenção para depois do Natal que, para ser franco, me parecem, no essencial, inúteis.

Se se confirmar, como ontem foi noticiado, que os centros de vacinação fecham quatro dias no Natal e quatro dias no Ano Novo, como se as vacinas pudessem ir de férias, estaremos, então, a lançar uma mensagem de enorme confusão sobre a população, presa nesta dúvida: "afinal é para apertar a vigilância ou para deslaçar na prevenção?"

Manter a pressão sobre a vacinação, avançar mais depressa e de forma mais alargada na aplicação da terceira dose, reforçar a facilidade e gratuitidade na realização de testes, andar de olhos nos setores populacionais com saúde mais fragilizada, essas sim, parecem-me ser medidas necessárias e sensatas.

O resto, lamento, cheira a fraca política e a desperdício de recursos, de energias, de trabalho, de receitas, de paciência.


Jornalista

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