O ministro do mau ambiente

No tal país, a República Evangélica do Bolsonaristão, em que o ministro da Casa Civil é militar, a pasta da cultura está sob gestão de um ignorante, a secretaria de apoio aos negros entregue a um racista, o ministério da educação passou pelas mãos de um analfabeto e a saúde, em plena pandemia, foi conduzida por um (literalmente) paraquedista, o governante em foco no momento é o ministro do Ambiente.

Ricardo Salles, que odeia árvores, flores, passarinhos e tudo o que tenha um leve odor a natureza, foi um dos alvos de uma operação da polícia federal desta quarta-feira, dia 19, que apura "crimes de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e facilitação de contrabando" praticados por agentes públicos em conluio com empresários do ramo madeireiro.

Mas quem é Salles? E como é que uma figura destas chega ao ministério do Ambiente?

A ideia inicial de Jair Bolsonaro era juntar Ambiente e Agricultura numa só pasta, mais ou menos o equivalente a colocar os interesses do galinheiro sob a tutela da raposa. Dadas as reclamações, o presidente concedeu em atribuir uma pasta própria ao Ambiente, desde que pudesse escolher o pior candidato de todos.

Não havia ninguém pior do que Salles, acabadinho de perder a eleição para deputado federal sob o lema "contra a praga do javali, contra o roubo de trator, de gado e de insumos, contra a esquerda e o Movimento dos Sem Terra, contra a bandidagem no campo... bala! Vote Ricardo Salles, do Partido Novo, para deputado federal".

Depois, o candidato tinha experiência na área: fora processado por fraude ambiental pelo ministério público um ano antes, enquanto secretário do ambiente do estado de São Paulo.

Do ponto de vista académico, entretanto, ninguém poderia apontar nada a um "mestre em direito público" pela prestigiada Yale, conforme se apresentava em entrevistas desde 2012. Investigação do site The Intercept, entretanto, revelou que em Yale ninguém o conhecia. Salles, cujo corajoso lema é atirar sempre que possível as culpas para o colo dos subordinados, responsabilizou a assessoria de imprensa pela divulgação de um currículo errado ao longo de anos sem que ele notasse.

Passou, no entanto, a ser conhecido em Yale e em todo o mundo, ao ganhar o concorrido prémio de pior ministro do Ambiente do planeta e ao ver o seu nome tornar-se sinónimo nas revistas científicas globais de crime ambiental, de queimada e de desmatamento.

Noutro episódio, a propósito de viagem à ilha de Fernando de Noronha para liberar a pesca da sardinha, ignorando a opinião de dez em cada dez ambientalistas, irritou-se com um tweet do então presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. A resposta, ao que consta durante um jantar bem regado, foi chamar, também pelo Twitter, o terceiro na linha de sucessão presidencial de "nhonho", em referência a uma personagem de programa infantil famoso no país.

No dia seguinte, o da ressaca, dada a repercussão do insulto, negou ter sido o autor do tweet. E culpou um assessor que lhe tirara o telemóvel das mãos.

No dia 15 de abril, Alexandre Saraiva, superintendente da polícia federal do Amazonas, foi demitido por um superior depois de na véspera ter apresentado uma queixa-crime contra Salles por este estar a atuar a favor de investigados num caso de extração ilegal de madeira.

Um mês e quatro dias depois, porém, Salles é alvo de buscas relacionadas ao crime denunciado por Saraiva. Desta vez, não deve ser suficiente acusar um assessor.

*Correspondente em São Paulo

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