O mea culpa

Enquanto lá fora o Brasil passa por uma tempestade torrencial de mortos na covid-19, na sua maioria por culpa do mortífero cocktail de insensibilidade e incompetência de Jair Bolsonaro, seis presidenciáveis abrigam-se debaixo de um "guarda-chuva".

"Guarda-chuva" foi a expressão usada por Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da saúde de Bolsonaro e um desses presidenciáveis, numa entrevista recente ao DN em que revelou estar a reunir debaixo da "sombrinha" eventuais candidatos às eleições de 2022 para a construção de um polo que concorra com Bolsonaro e Lula da Silva, os claros favoritos no pleito.

O "guarda-chuva" tem desde a semana passada nome - "Manifestopela Consciência Democrática" - e assinatura: desde logo a de Mandetta, que é do DEM, partido de direita, mas também a dos governadores João Doria e Eduardo Leite, ambos do PSDB, o partido de centro-direita de Fernando Henrique Cardoso (FHC), a de Luciano Huck, apresentador de TV sem partido mas com a bênção do citado FHC, a de João Amoêdo, quinto classificado no sufrágio de 2018 pelo liberal Partido Novo, e a de Ciro Gomes, do PDT, força de centro-esquerda fundada por Leonel Brizola, o terceiro naquela eleição.

Mesmo desmoralizado por ter sido considerado parcial no julgamento do antigo presidente Lula, o ex-juiz Sergio Moro, como Mandetta um ex-ministro de Bolsonaro, revelou ter sido convidado a assinar o texto mas recusou a pedido da empresa americana em que trabalha.

Confrontada com o manifesto, Gleisi Hoffmann, a presidente do Partido dos Trabalhadores, um dos "polos" de que os seis presidenciáveis se querem afastar, foi sarcástica: "Parece que esse manifesto está vetado a quem não votou Bolsonaro em 2018."

De facto, à exceção de Ciro que, também em entrevista recente ao DN, afirmou ter votado na segunda volta em Fernando Haddad, do PT, mas se recusou a fazer campanha por ele, viajando, de férias, para Paris, o primeiro dos subscritores, Mandetta, foi ministro do pior governo da história do Brasil; Doria apelou ao voto BolsoDoria em São Paulo, isto é, Bolsonaro para presidente e ele para governador; Leite admitiu ter votado no capitão e ainda há dois meses defendia aliança do seu partido com o governo; dias antes daquela fatídica votação, Huck achava que "Bolsonaro tinha uma hipótese de ressignificar a política"; e Amoêdo, há um ano, quando já ca´iam brasileiros vitimados por aquilo que o presidente chamava de "gripezinha", disse com todas as letras que não se arrependia de ter votado em Bolsonaro.

Moro, o tal ausente muito presente no manifesto, garantiu recentemente que, "citando Edith Piá [sic], je ne regrette rien", a propósito do processo de Lula.

Cinco dos subscritores do manifesto também não se arrependem de ter votado Bolsonaro - e o sexto de se ter alijado de responsabilidades na campanha.

Desde que em dezembro de 2010 o autor deste texto chegou ao Brasil tem ouvido que o PT devia fazer um mea culpa pelos erros cometidos nos 13 anos de poder. Nada a opor. E o mea culpa de quem em outubro de 2018 transformou o Brasil em Bolsonaristão?

Com coragem, a advogada, dramaturga e cronista Becky S. Korich, fê-lo no jornal Folha de S. Paulo nestes termos: "Voltando a outubro de 2018: 55% dos votos; quantos idiotas, incluindo eu". "Sou hoje coautora de crimes dolosos, por ter sido autora de um crime culposo em 2018. Carrego essa mácula. Perdoem-me, porque eu ainda não me consegui perdoar."

Falta aos abrigados no guarda-chuva fazerem o mesmo.

Jornalista. Correspondente em São Paulo

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