O homem com telhados de vidro

No último fim de semana, o site jornalístico The Intercept revelou o relatório das escutas do Ministério Público do Rio de Janeiro ao telefone de Adriano da Nóbrega, o líder do mortífero Escritório do Crime, a milícia carioca acusada, entre muitos outros, do assassinato de Marielle Franco.

Nas mensagens, gangsters da confiança de Nóbrega, um ex-polícia que se tornou guarda-costas de bicheiros, os patrões do jogo clandestino, e notório matador de aluguer, referem-se a um tal de "Jair". E a um "HNI (PRESIDENTE)", sendo que HNI é a sigla para Homem Não Identificado. E a um "cara da Casa de Vidro".

Nóbrega foi morto a 9 de fevereiro de 2020 após uma suposta troca de tiros em Esplanada, no interior da Bahia, onde se escondia das autoridades por ter sido acusado de agiotagem, posse ilegal de terras, corrupção ativa, chantagem, violência física e outros crimes comuns a milicianos. O "matador de aluguer" seria também importante testemunha do caso da execução de Marielle, a 14 de março de 2018.

Nesse dia, um Chevrolet Cobalt com dois membros do Escritório do Crime, saiu de Rio das Pedras, sede da milícia dirigida por Nóbrega, com destino à Rua dos Inválidos, na Lapa, onde esperou o fim de uma palestra da vereadora para a matar com munições UZZ-18, as mesmas utilizadas por membros do gangue noutras três execuções. A ação política de Marielle, de acordo com as autoridades, atrapalhava os negócios imobiliários ilegais em Rio das Pedras.

À época do crime, a mãe e a mulher de Nóbrega eram assessoras do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Meses depois, o primogénito do hoje presidente da República passou a ser investigado por corrupção, organização criminosa e branqueamento de capitais num esquema de desvio de dinheiro público via contratação de funcionários fantasma no seu gabinete.

Se recuarmos aos registos da Assembleia Legislativa do Rio de 2005, entretanto, vemos que o então jovem político Flávio atribuíra ao então jovem polícia Nóbrega a Medalha Tiradentes, mais prestigiada honraria daquela casa, numa altura em que o homenageado até cumpria pena de prisão por homicídio.

Por esses dias, aliás, o futuro líder do Escritório do Crime teve mesmo a honra de, apesar de detido, ser defendido em plena tribuna da Câmara dos Deputados, em Brasília. "O tenente, coitado, um jovem de vinte e poucos anos, foi condenado, mas não foi ele quem matou", defendeu, em emocionado discurso, o então deputado Jair Bolsonaro.

Sim, "Jair" - mas no Brasil, "Jair", como os chapéus do Vasco Santana, há muitos.

Que por acaso é "presidente" - mas no Brasil, como os presidentes da junta do Herman José, também há muitos.

E até mora no Palácio da Alvorada, uma construção notada sobretudo pelas "cortinas de vidro" projetadas por Oscar Niemeyer - mas, no Brasil, casas com paredes de vidro haverá umas quantas.

Um Jair, presidente e a morar numa casa de vidro é que talvez só haja um. Entretanto, não nos compete, claro, tirar ilações.

Mas o Ministério Público do Rio, à sua maneira, tirou-as: interrompeu as apurações após aquelas citações ao "Jair presidente da casa de vidro" e passou-as à Procuradoria-Geral da República porque, por lei, está impedido de investigar o presidente do Brasil.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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