O futuro do clima a partir de Glasgow

Vários pontos positivos para a ação climática global saíram da COP26, embora abaixo das fasquias iniciais. O desafio futuro é hercúleo e passa também por cada um de nós.

Um acordo imperfeito. Ou mesmo desapontante. Estas foram algumas das reações ouvidas no rescaldo da COP26, a 26ª Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, após os longos dias de negociação e alterações de última hora para firmar o Pacto Climático de Glasgow. Imperfeito e desapontante porque, depois das ambiciosas expectativas iniciais, chegar a um acordo global entre todos os países representados, implicou cedências e compromissos, incluindo o recuo sobre o fim progressivo do uso do carvão como fonte energética. Uma alteração de última hora que, a não ser considerada, poderia colocar em causa a aprovação do texto final. Este é um exemplo claro de que em negociação e diplomacia, por vezes, é preferível encontrar consensos e avançar a que deitar tudo por terra.

É preciso, no entanto, não perder de vista um quadro mais alargado de análise: além dos exigentes desafios a enfrentar e negociar nos próximos anos, há também a assinalar alguns progressos sólidos na luta climática. Em primeiro lugar, o facto de este ser um acordo de consenso global, que sedimenta uma base para o futuro e que demonstra o empenho dos vários países na ação climática. Embora as estimativas de limitar o aumento da temperatura da terra estejam agora mais perto dos 2,4ºC, a ambição de atingir apenas 1,5ºC não está completamente fora da mesa. Sair de Glasgow com um acordo entre as várias partes era imprescindível para continuar um caminho concertado de compromisso.

Torna-se também importante vincar o reforço do financiamento por parte dos países mais desenvolvidos aos países mais vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas. A solidariedade global é um eixo fundamental na gestão do risco, construindo uma capacidade de adaptação aos efeitos das alterações climáticas, à escala mundial e com foco nos mais desprotegidos. Nesse sentido, o Pacto de Glasgow incita à duplicação do financiamento até 2025, apelando também à mobilização de esforços de bancos multilaterais de desenvolvimento e outras instituições.

Uma terceira nota positiva para a redução do intervalo de tempo para a revisão periódica das políticas climáticas nacionais no âmbito do Acordo de Paris. Rever, melhorar e reforçar a ambição, numa gestão de continuidade. As revisões periódicas das políticas climáticas nacionais deixam de ser realizadas a cada cinco anos e passam a ser anuais - e a primeira terá de ser feita no próximo ano, na COP27, no Egipto. Só assim, aponta a comunidade científica, poderemos manter a esperança de alcançar as metas de limitação da temperatura global. E esse passo foi dado em Glasgow.

O acordo histórico para deter a desflorestação até 2030, adotado por mais de 100 países que, no seu território, representam 85% das florestas mundiais é outra nota muito positiva. Mesmo o tema do carvão - um ponto fraturante entre as várias delegações até à última hora da cimeira - marca um avanço sem precedentes. Esta é a primeira vez que um tratado das Nações Unidas sobre o clima menciona diretamente o contributo do carvão para o aquecimento global, instando à transição para uma energia sustentável. E, Portugal, volta a liderar este tema com o término do uso do carvão. Também a Índia - país que introduziu, à última hora, a alteração ao texto final da cimeira de "eliminação progressiva" do uso do carvão para "redução progressiva" - comprometeu-se a reduzir as emissões em 45% até 2030.

A cimeira de Glasgow não foi o passo de gigante que precisávamos, mas foi um passo sólido em frente, numa luta contra as alterações climáticas que veio para ficar. Foi mais uma etapa de um desafio que exigirá muito de todos nós. Espera-nos um caminho longo e muito desafiante, com muito a fazer nos próximos anos. Não só a nível das grandes cimeiras internacionais, mas também ao nível das regiões, das comunidades, das empresas e de cada um de nós. Todos temos um papel a cumprir na luta contra as ações climáticas. Que o saibamos abraçar de forma ambiciosa e resiliente, trazendo a mudança ao nosso redor. O nosso planeta disso depende.

*CEO da Zurich em Portugal

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